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‘Se a Argentina não tem dinheiro, não deve gastar', diz economista

Para ex-secretário de Finanças do país, governo se precipitou ao procurar ajuda do Fundo Monetário Internacional

Entrevista com

Guillermo Nielsen, economista

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2018 | 04h00

Secretário de Finanças da Argentina entre 2002 e 2005, o economista Guillermo Nielsen foi o responsável por renegociar, em 2005, as dívidas de seu país com o Fundo Monetário Internacional (FMI), em um acordo que permitiu à Argentina deixar para trás, pelo menos temporariamente, o calote de 2001. Hoje, Nielsen vê como precipitado o pedido de ajuda feito pelo presidente Mauricio Macri ao Fundo Monetário Internacional e acredita que o governo deveria lançar mão de um ajuste fiscal duro, pondo fim a atual política econômica gradualista. “É preciso fazer um ajuste. Se não tem dinheiro, não se pode gastar”, disse. A seguir, os principais trechos da entrevista.

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Mais de dez anos após o sr. ter negociado com o FMI, como vê o governo Macri voltando a conversar com o Fundo?

Me chama a atenção no sentido de que foi muito rápido tudo isso, de que a equipe econômica de Macri não tenha tentado solucionar o problema sozinha. Não dá para entender isso muito facilmente. 

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De que forma o governo poderia ter solucionado o problema?

A Argentina tem mais de US$ 55 bilhões de reservas internacionais, não é um país que está com uma crise de balança de pagamentos e que tem de pedir ajuda ao FMI.

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Então o governo errou?

Não é que errou, mas se precipitou demais sem fazer um esforço próprio, mesmo que isso acabasse tendo de ser feito. Faltou a etapa em que o governo faz o ajuste fiscal (antes de pedir ajuda). Pode haver uma motivação política para isso. Pode ser que o governo não queira anunciar o ajuste, e, sim, colocar a culpa no FMI (por um ajuste futuro). Então o governo se apresenta como se não fosse responsável. Isso acontece porque a oposição se colocou contra o aumento das tarifas (de serviços básicos, como energia e transporte, que ainda são parcialmente subsidiados pelo governo). 

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A economia da Argentina vinha crescendo. Após a desvalorização do peso nas últimas semanas, o aumento da taxa de juros e o pedido de ajuda ao FMI, o que mudará?

Agora vamos ter mais inflação e menos crescimento. A economia argentina sofreu um ataque especulativo grande nesses dias. Mas acho que o mercado esperava das autoridades um anúncio de ajuste fiscal mais forte, não foi o que ocorreu. O governo anunciou uma redução dos gastos de US$ 3,2 bilhões, o que é insignificante. 

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Para fazer um ajuste fiscal seria necessário abandonar a política econômica gradualista...

Claro. O gradualismo tem de mudar. A política gradual se baseia no endividamento externo. É preciso fazer um ajuste. Se não tem dinheiro, não se não pode gastar.

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Esse ajuste teria um custo político muito alto, não?

Aqui, para onde quer que se vá, haverá um custo político ao país.

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