"Se a inflação disparar, a Argentina será inviável"

Anoop Singh, economista indiano indicado pelo Fundo Monetário Internacional para avaliar a crise Argentina, acabou se transformando em senhor do destino do país. Das opiniões que emitirá sobre o caso argentino à diretoria do Fundo, dependerá a liberação da ajuda financeira que o país precisa desesperadamente.Singh foi escolhido para o cargo de chefe do recém-criado Departamento de Operações Especiais do FMI. O Fundo pretendia mudar a condução das negociações com a Argentina. Os antigos responsáveis pelo caso argentino ? como o chileno Thomas Reichmann e o argentino Claudio Loser, latino-americanos pareciam estar sendo demasiado condescendentes com os governos argentinosPara complicar as relações entre os dois lados, que antes eram fluidasc com Reichmann e Loser, Singh não fala espanhol, anda sempre acompanhado por dois tradutores, e ostenta o apelido de ?Mister Silence? (?Senhor Silêncio?).As interpretações feitas no governo Duhalde sobre o jeito parco do novo encarregado da Argentina, permitiram deduzir que a ajuda para o país poderá sair. Mas a conta-gotas. Isso implicaria em pouco dinheiro para cobrir as necessidades financeiras do governo para conter a escalada de conflitos sociais.Mas o quesito ?população? não parece incomodar Singh, que durante as crises asiáticas de meados dos anos 90 (época em que era chefe do Departamento de Ásia e Pacífico do FMI), afirmou em uma entrevista para a BBC de Londres: ?minha missão é conseguir a estabilidade macro-econômica e do tipo de câmbio. Não é a de preservar a estabilidade social?.Durante os dias que esteve em Buenos Aires, Singh foi perseguido pela imprensa, curiosa em ver como se comportava o homem do qual depende o destino da Argentina. ?Bienvenido mr. Singh? (?Bem-vindo Mr. Singh?), ?Singh é a chave para o futuro da Argentina? foram alguns dos títulos publicados na mídia local.No entanto, com a fala pausada e em tom baixo, o economista indiano disparou uma saraivada de críticas sobre a política econômica do governo, começando pela ?falta de realidade? do Orçamento Nacional, passando pelo ?excessivo? gastos dos governos provinciais e a necessidade de ?reformas na área tributária e financeira?.Singh comentou sem perturbação na voz que ?o 2003 pode ser para a Argentina muito mais difícil do que este ano? e que ?se a inflação disparar, este país será inviável?. Além disso, com o mesmo tom afável que sempre usa, bombardeou o ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov com uma torrente de perguntas sobre uma série de promessas nunca cumpridas pelo governo argentino. Duhalde reuniu-se com Singh diversas vezes, mas em todas, o inescrutável indiano exasperou o presidente com sua forma de ser. Depois que o chefe de Operações Especiais do Fundo saiu de sua sala, no primeiro andar da Casa Rosada, e após ter tirado a gravata que precisou colocar para atendê-lo (Duhalde é um peronista à moda antiga, que detesta usar gravatas) o presidente exclamou: ?ele é uma incógnita?.Um grupo de banqueiros argentinos também manteve um conclave com Singh, que lhes causou uma impressão de ambigüedade: ?se por acaso ele não nos vai ajudar, até que dissimula bem?, disseram no fim da reunião. O economista indiano teve até contatos com a população. Um dia, ao sair da Casa Rosada, foi caminhando sozinho em direção ao Hotel Sheraton, a onze quarteirões dali. Sozinho, sem guarda-costas, foi reconhecido por um grupo de furiosos correntistas com os depósitos presos dentro do ?corralito?, como é conhecido o semi-congelamento de depósitos bancários. Os correntistas aproximaram-se a ele, e em inglês, lhe pediram que o FMI ?não soltasse dinheiro para estes políticos incompetentes?. Singh anotou o recado, e prometeu tomar um cafezinho com o grupo de populares na próxima visita. Depois de ter permanecido durante dez dias em Buenos Aires, Singh voltará à Washington neste fim de semana.

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