Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Se Bolsa Família sair do teto de gastos, o 'céu é o limite', diz economista-chefe da XP

Para Caio Megale, o cenário para a votação da PEC que autoriza uma nova rodada do auxílio emergencial e pode mexer com as regras do Bolsa Família está se deteriorando rapidamente

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 14h13

BRASÍLIA - Economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, diz que o cenário para a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que autoriza uma nova rodada do auxílio emergencial está se deteriorando rapidamente com o risco de as despesas com o pagamento dos benefícios do programa Bolsa Família ficarem fora do teto de gastos, a regra que impede que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação.

Ao Estadão, Megale diz que, se o Bolsa Família ficar fora do teto, o “céu é o limite”. “Esse valor pode ser qualquer coisa", adverte. Para ele, o risco de o pior cenário ocorrer é bastante concreto nesta quarta-feira, 3, quando a PEC deve ser votada, em dois turnos, no Senado, marcando o início do fim do teto de gastos. 

Na avaliação do economista da XP, que já integrou a equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, o cenário ruim de fatiamento da PEC, que estava sendo aventado há poucos dias, está virando quase o melhor cenário. “Quando o cenário ruim começa a virar o melhor cenário, é um sinal muito ruim”, alerta.

A votação da PEC está marcada para esta quarta, mas há um movimento crescente para a retirada das medidas de controle de despesas (todas para serem acionadas no futuro) e também deixar de fora do teto de gastos o programa Bolsa Família.

“Estão se esquivando de fazer os ajustes mais estruturais e buscando alternativas fáceis”, diz Megale, que ressalta que os políticos de modo geral não querem sinalizar ajuste nem mesmo de longo prazo.

Megale lembra que o texto da PEC já não tinha medidas de corte de gastos para o curto prazo e, mesmo assim, há pressão para retirar as de médio e longo prazos.

Para o economista-chefe da XP, o movimento dos senadores não é completamente inesperado, mas o grande teste do “pudim” a essa altura é saber como o governo vai lidar com essas pressões e defender a PEC.

Ele ressalta que Guedes e o secretário do Tesouro Nacional, Bruno Funchal, estão defendendo as medidas da PEC com "unhas e dentes", mas que a impressão que passa é que há hoje pedidos demais e concessões demais para o nível de deterioração fiscal que o País se encontra.

O nível atual do dólar a R$ 5,70, o aumento dos juros e a expectativa de que o Banco Central terá que aumentar a taxa básica de juros, a Selic em 0,75 pontos porcentuais na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) é decorrente dessa piora do cenário que está em curso, na avaliação do economista da XP.

“Os sinais que estão vindo é de pouco compromisso fiscal para o longo o prazo com uma dificuldade da parte política em geral de aprovar ajustes que sejam até leves. Estamos falando de gatilhos que têm impacto em 2023, 2024, 2025”, critica.

Megale vê o barco da responsabilidade fiscal sendo empurrado ainda mais para o alto mar, sem reforço do cabo da âncora e se distanciando da terra firme. Um quadro de derrota da necessidade de ajuste fiscal.

“Temos uma projeção de dólar de R$4,90 para esse ano, esse cenário vai embora e o BC vai ter que subir os juros mais rápido do que antes”, projeta o economista.

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