Se é pra falar de economia, é melhor chamar o Guedes

Na largada do governo, ministro da Economia recebe elogios por suas posições, mas acaba atropelado pelo próprio presidente em temas como impostos e reforma da Previdência

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2019 | 11h32

Caro leitor,

Foram só dez dias desde que Paulo Guedes assumiu o Ministério da Economia. Parece pouco - e é, mesmo -, mas já foi o suficiente para que o mercado financeiro aplaudisse e também se  preocupasse (às vezes, no mesmo momento). O saldo até aqui, no entanto, pelo menos para os investidores, tem sido positivo. Basta ver quanto a Bolsa subiu nesses dias, batendo recorde atrás de recorde.

Segundo os empresários que ouvimos, o discurso de posse de Guedes foi “música para os ouvidos”.  Ele deu ali as linhas mestras do que pretende ser sua gestão à frente do ministério. Falou de reforma da Previdência - a prioridade -, de privatizações e de abertura comercial.  E falou de reforma tributária: disse que a carga de impostos ideal para o Brasil seria 20%! Que empresário não gostaria de ouvir isso? Para melhorar, no mesmo dia, o PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, anunciou apoio a Rodrigo Maia para a presidência da Câmara, o que poderia significar caminho mais fácil para aprovação das reformas.

Mas o cenário de sonhos não durou dois dias. Na quinta-feira à noite, em entrevista ao SBT, o presidente Bolsonaro falou que se estudava para a Previdência idades mínimas de 62 anos para homens e de 57 para mulheres. Regras menos rígidas que a proposta feita pela equipe de Michel Temer – que muitos economistas já consideram frouxa demais para o tamanho do buraco que o País enfrenta.

Pior: no dia seguinte, Bolsonaro ainda disse que iria elevar o IOF para cobrir o rombo deixado pelo projeto que estende benefícios fiscais para empresas do Norte e Nordeste. Mas não era para reduzir impostos, pensaram os empresários? Ah, sim, vamos reduzir a alíquota máxima do Imposto de Renda de 27,5% para 25%, disse Bolsonaro. A queda de arrecadação, nesse caso, seria de uns R$ 45 bilhões, segundo os cálculos que publicamos. Dá para abrir mão de arrecadação nesse momento de crise fiscal?, pensaram os economistas.

Em suma, ninguém entendeu nada. O secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, se apressou a dizer que o presidente havia se equivocado. O ministro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, convocou uma entrevista para dizer a mesma coisa. Ficou o dito pelo não dito.  Mas a dúvida persistia: o que motivou o presidente a dizer tudo isso? Como escreveu nosso colunista Celso Ming, “serão apenas desencontros”?  De acordo com a reportagem que publicamos, tudo pode ter sido fruto de  uma disputa interna dentro da equipe, entre Guedes e Lorenzoni.

Nesta semana, as coisas entraram mais ou menos nos eixos de novo. Paulo Guedes apareceu, ao lado de Lorenzoni, e voltou a falar de uma reforma da Previdência mais duradoura. As propostas que estão na mesa da equipe econômica, que estão servindo de base para o projeto do governo, são realmente mais duras que a esboçada por Bolsonaro na entrevista à TV. E, se a Previdência é mesmo a preocupação número um, o ministro voltou a entoar notas musicais para o mercado.

No final, o bate-cabeça não provocou estrago muito grande. Afinal, o governo está só começando, desencontros devem ser naturais. E há problemas demais para serem resolvidos. (Aliás, se você não viu, recomendo a leitura do especial que publicamos no fim do ano, com os principais especialistas do País em diversas áreas apontando os desafios que este governo vai enfrentar).

Como disse nossa colunista Cida Damasco, divergências na equipe sempre há; novidade aqui foi o “chefe” ampliar a confusão. Por isso mesmo, todo mundo prefere que, quando for para falar de economia, é melhor deixar só para o Posto Ipiranga, mesmo.

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