''Se fosse um plano, seria fantástico. Mas não foi''

Garfinkel disse que procurou Roberto Setubal quando não deu mais para continuar negociando com o Bradesco

, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

Aos 62 anos e dono de uma empresa disputada pelos maiores bancos brasileiros, Jayme Garfinkel é definido no meio empresarial como reservado e desconfiado. Assumiu a Porto Seguro aos 31 anos, após a morte do pai, e criou a maior seguradora de carros. Em entrevista por telefone ao Estado na sexta-feira, conta que o pai o ensinou a nunca dizer não. Mas ao Bradesco ele disse não.Como foi a negociação?Desde o início eu disse que só me interessava o negócio se eu fosse o controlador. Como a negociação vazou na imprensa, vários mensageiros do Itaú me procuraram. Eu falei que não podia negociar, pois estava engatado com o Bradesco. Quando não deu mais, liguei para o Roberto (Setubal). Eu já tinha a estrutura do negócio pronta. Ele foi rápido, pois tinha experiência da negociação com o Unibanco.O sr. conduziu todo o processo?Eles já sabiam qual era minha proposta, bastou eu confirmar. Eu disse que o Bradesco mudou, não estava fazendo do jeito que eu queria. Se eles quisessem fazer, eu aceitaria. E eles aceitaram. Se fosse tudo armado, se fosse um plano, seria fantástico. Mas não foi. O sr. acha o Bradesco autoritário?Não usei essa expressão. Eu disse que achei o Itaú mais democrático, no sentido de que aceitou que o controle ficasse conosco. As pessoas inverteram: se um é democrático, o outro é autoritário. Democrático nem era a palavra correta. O certo seria desprendido.Qual o próximo passo da parceria?Quando você dá um passo na vida, para frente, outras escolhas aparecem. Toda hora repito a frase: ?a vida é feita de encontros e escolhas?. Quando você tem um novo encontro, tem novas escolhas possíveis. Lógico que podem surgir novas oportunidades. Esse é um novo estágio do negócio. Vamos ver no que vai dar.Como vê a disputa pela Porto?Fico besta de não ficar mais eufórico do que estou. A gente vai se acostumando com o sucesso, e isso é perigoso. O sonho do meu pai era ter uma companhia pequena de seguros. Um modelo de companhia onde as pessoas pudessem fazer carreira. A ideia era ter uma empresa conjunta com um grupo de corretores, porque ele não tinha capital, mas eles não quiseram. Nunca sonhamos em ser a maior companhia de seguro de automóveis do Brasil. Só que isso veio vindo. Mas para mim não importa ranking, market share, pois isso não traz lucro, nem felicidade. O que traz benefício social, econômico, felicidade é trabalhar com prazer.O sr. vai vender todas as ações?Isso é o que as pessoas acreditam. Mas nem eu nem ninguém jamais imaginou que eles (Itaú Unibanco) aceitariam uma situação em que nós teríamos o controle. Não sou imortal, há os limites da idade. Mas enquanto puder, vou tocar a união das companhias. Sou a pessoa que tem possibilidade de juntar as equipes, com credibilidade dos dois lados pois tenho interesse em que dê certo.O sr. prepara um sucessor?Preparo meus filhos para serem acionistas. Ser executivo é outra questão. Tem de ter amor pela empresa, de se engajar no sonho.Quando assumiu a Porto, que modelo de negócio adotou?Meu pai tinha um modelo de gestão que sempre usei. Era simples, delegava bastante, mas estava sempre por perto, controlando. Ele tinha uma abertura comercial grande, focada no corretor e sempre dizia: ?nunca diga não, sempre arranje uma forma de conciliar, de fazer o possível para que a pessoa não saia insatisfeita?. Eu fui seguindo os caminhos dele.Como vê o mercado de seguro?Tem muita chance de crescer, pois o Brasil tem muitas oportunidades em todos os setores. Há um mercado fora de São Paulo enorme. A quantidade de residências que tem seguros é pequena, sem falar em previdência e saúde, que é um problema mundial.Como anunciou o negócio?Sou chorão, movido a emoção. Na segunda, quando reuni os gerentes para anunciar a união, chorei ao ver aquelas 70 pessoas em pé ao redor da sala. Quando vejo isso, a tendência é pensar no meu pai. Ele começou como inspetor de risco de uma seguradora. Me ensinou que o que importa é o trabalho. E vejo ele aqui (com voz embargada). Meu pai veio da Ucrânia com seis anos. Era tão brasileiro que me chamou de Jayme Brasil Garfinkel.

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