''Se há mais compradores, por que não fazer leilão?''

Banqueiro diz ter achado ?superestranho? ouvir o anúncio da negociação para a venda da Nossa Caixa

Renée Pereira, O Estadao de S.Paulo

27 de maio de 2008 | 00h00

Na noite do dia 21 de maio, uma mensagem no BlackBerry surpreendeu o presidente do maior banco privado do País (Bradesco), Márcio Cypriano, que participava do evento Bradesco Day, em Londres. "Estavam me informando sobre a negociação entre a Nossa Caixa e o Banco do Brasil. Eu achei superestranho, pois o que realmente se espera de um negócio desses é um leilão para conseguir o melhor preço." O executivo reforçou o interesse da instituição numa possível aquisição da Nossa Caixa e também reivindicou a realização de um leilão. "Mas não podemos fazer nada. Isso é de interesse do governo." A seguir trechos da entrevista concedida ao Estado:Como o sr. avaliou o anúncio da negociação entre Banco do Brasil e Nossa Caixa às vésperas do feriado?Eu me surpreendi. Achei super estranho, pois realmente o que se espera num negócio desses, assim como foi com o Banespa e outros bancos privatizados, é um leilão para pegar um preço melhor. Entendo que teria mais transparência se tivesse licitação. Se o governo faz leilão reverso para fazer compras, a venda de um ativo importante seria mais uma razão para um leilão, especialmente sabendo que há compradores. Se não tem ninguém interessado, é diferente. A alegação de que o Banco do Brasil pagaria um valor maior porque ficaria com os depósitos judiciais, não é bem assim. Há pareceres de juristas que mostram que essa história de que banco privado não pode administrar depósitos judiciais é perfeitamente descartável.É possível reverter essa situação, visto que o governador afirmou que não deve fazer leilão?Acho que não adianta a gente querer tomar alguma providência. Isso é de interesse do próprio governo. Se ele tem três ou quatro compradores, ele vai descartar o leilão? A gente não vai fazer nada. Como contribuinte é muito importante que tenha transparência. O que podemos é reivindicar que seja feito uma licitação. O Banespa, por exemplo, foi vendido por R$ 7 bilhões, muito acima do esperado. Por que? Porque teve licitação.A Nossa Caixa teria um ágio tão grande como o do Banespa?Não dá pra saber porque só conhecemos os números oficiais. A única coisa que conseguimos avaliar são os números públicos, divulgados pelo balanço. Por esse número, vemos apenas que é um banco interessante. Todos os outros bancos já se declararam interessados, mesmo sem os depósitos judiciais. Sempre é importante ter um leilão, até porque a Nossa Caixa tem acionista minoritário, que poderiam ser prejudicados se o Estado vendesse o ativo por preço menor do que aquele que conseguiria num leilão. A lógica diz que, se você tem três ou quatro compradores, é mais provável que você consiga pegar um valor melhor do que se fosse só um interessado.Já havia algum boato no mercado sobre essa negociação?Não. Não soubemos de nada.O Bradesco estava se aproximando do BB. Com a possível compra da Nossa Caixa, o banco volta a ganhar uma certa vantagem. O que vocês pretendem fazer?O nosso avanço no setor era algo que estava acontecendo naturalmente. Para gente não incomoda esse distanciamento. O importante é ter rendimento e lucro.

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