Dida Sampaio/ Estadão
Dida Sampaio/ Estadão

'Se o governo gastar mais, a credibilidade acaba e o PIB cai', diz Sachsida

Para auxiliar de Paulo Guedes, o ajuste fiscal é que está abrindo espaço para a retomada do crescimento econômico

Entrevista com

Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica

José Fucs, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2020 | 05h00

O secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, foi um dos primeiros profissionais da área a aderir à candidatura de Bolsonaro, meses antes de o atual ministro Paulo Guedes seguir o mesmo caminho, no final de 2017. Advogado, doutor em Economia pela Universidade de Brasília e funcionário do Instituto de Pesquisa de Economia Aplicada (IPEA) desde 1997, ele ocupa hoje uma posição estratégica na formulação da agenda econômica e social do governo.

Nesta entrevista ao Estado, Sachsida, de 47 anos, diz que a política de austeridade fiscal é fundamental para o crescimento sustentável do País. Segundo ele, se o governo ceder às pressões e voltar a gastar sem lastro, perderá a credibilidade e o PIB (Produto Interno Bruto) vai cair e não subir, como acreditam muitos economistas e políticos que defendem o uso de dinheiro público para turbinar a economia. Sachsida afirma, também, que nesta semana o governo poderá rever a estimativa de crescimento de 2020, de 2,4%, em decorrência dos reflexos negativos do coronavírus, com a desaceleração da economia global e a queda nos preços das commodities.

Em 2019, a taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) acabou sendo menor do que o esperado. Como o sr. explica esse resultado?

Temos de dividir o ano passado em duas partes. Os primeiros oito meses, que realmente foram muito difíceis, e de setembro em diante. Logo que entramos no governo identificamos dois grandes problemas: a situação fiscal e a baixa produtividade. Então, já a partir de janeiro, tomamos uma série de medidas para tentar equacionar o lado fiscal – sendo a nova Previdência a mais importante delas -- e melhorar a alocação de recursos na economia. Com isso, a partir de setembro, a situação mudou bastante. Eu me lembro de que, em agosto, nas entrevistas que eu dava, a pergunta que vinha era se o Brasil entraria em recessão técnica, com dois trimestres seguidos com PIB negativo. Em julho e agosto, vários analistas projetavam o PIB de 2019 entre 0% e 0,5%. Mas o PIB terminou o ano ao redor de 1,1%. Há duas semanas, a FGV divulgou que chegou a 1,2%. Então, quando você compara com o início do ano, se esperava mais. Mas, quando olha como o ano acabou, me parece que estamos no caminho certo. Passo a passo, estamos mudando as condições estruturais da economia brasileira.

No final de 2019, houve uma redução no consumo e isso deixou muitos analistas preocupados com o PIB de 2020. Como o sr. vê essa patinada que ocorreu no final do ano?

A patinada que eu vi algumas pessoas comentando já estava incorporada nas nossas contas. Tanto é que a nossa projeção para 2020 não mudou. Aí, você fala: “Mas as vendas em supermercados caíram em dezembro”. Caíram 0,1% – e muito por causa do aumento no preço da carne. Houve um repique na inflação em dezembro, com efeito nas vendas dos supermercados. Agora, as vendas de eletrodomésticos subiram 20% em dezembro. No agregado, porém, o resultado dos supermercados acabou afetando o índice, porque tem um peso maior.

O resultado de dezembro não pode indicar uma desaceleração do crescimento?

Isso já está estabilizado. Quando você olha os números agregados, parece que o consumo está parado. Mas não está. Tem de olhar dentro do agregado, para ver o que está acontecendo de fato. O PIB do setor público está caindo, mas o PIB privado já está crescendo a 2,7% ao ano. Quando você olha o PIB como um todo, com a taxa de crescimento 1,1%, desanima. Mas o PIB privado já está em franco aumento. O emprego privado está crescendo bastante também. A mesma coisa está acontecendo com o crédito privado.

Há também o efeito coronavírus na economia. Como isso pode afetar o quadro em 2020? Isso muda alguma coisa na expectativa do governo?

Até duas semanas atrás, estávamos mantendo a nossa estimativa de crescimento em 2,4% neste ano.  De lá para cá, o impacto do coronavírus, associado a alguns outros fatores, passou a preocupar um pouco mais. O coronavírus teve uma expansão muito grande não apenas na China, como em vários outros lugares, como Coreia do Sul, Itália e Alemanha. Então, talvez tenhamos de reduzir a nossa estimativa para 2020 nesta semana.

Algumas commodities tiveram queda de preço nas últimas semanas. Isso não pode provocar uma queda de renda no campo e afetar o crescimento?

Nós sabemos que o crescimento brasileiro tem uma alta correlação com o preço das commodities. Infelizmente, estamos verificando que algumas commodities têm sofrido uma sensível queda de preços, por causa da desaceleração na China e em outros países.  No momento, ainda estamos analisando o efeito dessas quedas na economia brasileira. Além da variação nos preços das commodities, o governo  monitora diariamente mais dois canais, para avaliar como o coronavírus pode afetar a economia brasileira: o da demanda, no qual olhamos como está o crescimento no resto do mundo, para ver se a procura por produtos brasileiros está caindo ou subindo, e o da oferta, em que avaliamos  como está a produção na China e se ela está chegando normalmente aqui no Brasil, porque parte importante dos insumos das empresas brasileiras vem de lá.

O que se pode concluir desse monitoramento da oferta e da demanda globais?

Do lado da demanda, há alguns sinais negativos. Na semana passada, o FMI (Fundo Monetário Internacional) informou que a desaceleração do crescimento na China em decorrência do coronavírus deverá provocar uma queda de 0,1 ponto percentual na estimativa de crescimento global em 2020. Do lado da oferta, já há evidências de que algumas empresas no Brasil estão tendo um pouco de dificuldade para repor seus insumos. Isso reforça a percepção de que a gente terá de rever a nossa projeção de crescimento para este ano.

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Tem que tirar o governo da economia para abrir espaço para o setor privado
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Muitos empresários e analistas reclamam da lenta retomada da economia e defendem a concessão de estímulos e a realização de investimentos, principalmente no setor de infraestrutura, por parte do governo. Como o sr. analisa isso?

Eu respeito. Nós estamos numa sociedade democrática e é natural que algumas organizações de classe pleiteiem algumas vantagens. Agora, o que precisa ficar claro para a sociedade brasileira é que todas as vezes que você concede uma vantagem para um setor esse dinheiro tem de sair de outra área. Boa parte de subsídios do passado foram transferências de renda de pessoas pobres para pessoas ricas. O exemplo mais óbvio foi a política dos campeões nacionais, quando o governo transferiu um expressivo volume de recursos de todos os trabalhadores brasileiros para uma classe muito mais rica, com resultados insignificantes em termos de investimento e de crescimento econômico.

O mesmo grupo defende que o governo deve dar uma relaxadinha na política fiscal, para gerar recursos para investimentos e alavancar a economia. Dá para crescer mais sem o governo abrir as torneiras? Que benefícios a austeridade fiscal traz para o nível de atividade econômica?

Os estudos da SPE (Secretaria de Política Econômica) mostram que estamos num ajuste fiscal expansionista. Isso quer dizer que o ajuste fiscal é que está abrindo espaço para o crescimento. Existem vários textos na literatura nacional e internacional que mostram que, quando um País está em crise fiscal, o PIB vai cair se o governo gastar mais. Isso é exatamente o que o ministro Paulo Guedes sempre diz, com o crowding in. Tem que tirar o governo da economia para abrir espaço para o setor privado.

O sr. quer dizer que, mesmo com as torneiras do governo fechadas, a economia está ganhando tração?

Exatamente. Como falei há pouco, os nossos dados dizem que o PIB privado já está crescendo a 2,7% ao ano. É o PIB público que está encolhendo. Eu reforço: se o governo voltar a gastar, o PIB vai cair, em vez de crescer. Então, é importante deixar claro que nós temos que manter o teto do gasto,  voltar a ter superávits primários e reduzir a relação dívida/PIB. Se o governo começa a gastar mais, em cenários de pouco espaço fiscal, a credibilidade dele acaba, as taxas de juro aumentam e vai ficar pior para todo mundo. Então, em cenários de estresse fiscal, é fundamental manter o ajuste nas contas públicas e o governo gastar menos, dando espaço para o PIB privado e para a população voltar a ter emprego e renda.

Agora, mesmo nesse cenário de ajuste fiscal, muitos analistas dizem que a relação dívida pública/PIB não deverá cair como no ano passado. É isso mesmo?

Nós estamos trabalhando justamente para  que a relação dívida pública/PIB continue caindo. Depois que a gente aprovou a reforma da Previdência, as taxas de juro pagas em títulos do Tesouro caíram muito. Exatamente como os estudos da SPE haviam previsto no começo de 2019. A gente havia previsto que, com as mudanças na Previdência, os juros cairiam e isso teria um efeito muito benéfico para a economia. Só para dar um exemplo, a reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial, o famoso Plano Marshall, custou US$ 100 bilhões em valores atuais. Em quatro anos, a redução de juros pagos pelo Tesouro Nacional vai permitir uma economia para os cofres públicos de R$ 409 bilhões, segundo dados do Mansueto Almeida, Secretário do Tesouro Nacional. Ou seja, essa redução de juros permitirá ao Brasil poupar um Plano Marshall em quatro anos e o ajuste fiscal é responsável direto de juros mais baixos que temos hoje, além, é claro, do excelente trabalho que o Banco Central tem feito.

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O investimento privado brasileiro está deixando de ir para onde o governo indicava e passando a ir para um lugar mais eficiente.
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O sr. diz que o setor privado é que está puxando a economia. Mas, no ano passado, o setor industrial registrou uma queda no nível de atividade. Há quem diga que, em função da capacidade ociosa da indústria, não estaria havendo uma retomada dos investimentos privados. Como se explica esse crescimento do setor privado e a retração na indústria ao mesmo tempo?

Dado que o governo parou de gastar muito dinheiro e de estimular alguns setores ineficientes, eles estão tendo de se ajustar. Então, quando você olha o dado agregado, alguns setores estão diminuindo, se ajustando à nova realidade. Em compensação, os recursos da economia, o capital e o trabalho, estão começando a ir para os setores mais eficientes. Alguns analistas dizem que a taxa de investimento no Brasil não mudou, mas não é bem assim. Antes, você tinha o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) escolhendo campeões nacionais e botando dinheiro neles. Agora, o dinheiro vem do mercado. É o mercado que está alocando recursos para investimento. Isso quer dizer que está havendo uma mudança estrutural na série de investimento brasileira. O investimento privado brasileiro está deixando de ir para onde o governo indicava e passando a ir para um lugar mais eficiente. Mesmo que o número agregado seja o mesmo, a qualidade desse investimento hoje é muito superior.

Quem está ganhando e quem está perdendo nessa equação?

Veja, por exemplo, o que a Petrobrás está fazendo. A Petrobrás cancelou uma série de investimentos e está fechando empresas. Está até tendo greve lá por causa disso, mas esse tipo de coisa melhora a eficiência da economia. Você está deixando de fazer um investimento numa cidade para beneficiar fulano ou beltrano e o dinheiro está indo para outro lugar. Em 2014, o governo investiu R$ 2 bilhões num estádio em Brasília. Isso é considerado investimento, mas o que um estádio em Brasília está gerando para a economia? Nada. Agora o dinheiro parou de ir para estádio e começou a ir para pequenas empresas, fintechs. Isso está acontecendo pelo próprio mercado e não porque o governo está direcionando o investimento para cá ou para lá. Quando você olha números agregados, as coisas parecem meio paradas, mas não estão. As placas tectônicas da economia estão se movendo ali por baixo. Você não está vendo, mas está havendo uma mudança estrutural muito grande no PIB e no investimento. Até 2016, o governo dava crédito subsidiado para setores específicos. Hoje, não dá mais.

Até hoje, na nossa história, o Estado sempre foi o grande alavancador dos investimentos, em especial na área de infraestrutura. Daqui para a frente, qual papel caberá ao Estado nos investimentos?

Não sou eu que tomo essa decisão, mas acho que ninguém aqui é oito ou oitenta. Sempre tem um meio termo em que é possível chegar. Eu gosto de olhar o que está acontecendo com o ministro Tarcísio (de Freitas Gomes), no ministério da Infraestrutura. De um lado, o Exército, em parceria com o governo, está abrindo estradas em locais em que a coisa estava muito difícil. Ao mesmo tempo, está havendo uma série grande de concessões. Nós estamos numa situação fiscal dramática. Não tem dinheiro do setor público. A capacidade de investimento do governo, hoje, dada o cenário de restrição fiscal, é muito pequena. Como o cenário de restrição fiscal tem de ser levado em conta, é fundamental escolher bem qual investimento você pode tocar. Uma maneira eficiente de fazer o investimento andar são as concessões, as privatizações e a melhoria no marco legal e na segurança jurídica.

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Quando você corrige um problema de má alocação de recursos não é só uma questão econômica. É também uma questão social. Você devolve o dinheiro para o dono dele, que é a população brasileira.
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Tem muita viúva de investimento estatal por aí, que está chorando lágrimas de crocodilo.

Toda vez que você corrige um problema de má alocação de recursos, acaba afetando setores específicos em prol de toda a população. Por isso as reformas são tão difíceis. Você tem um lobby específico e tem de enfrentá-lo para passar os recursos para a população. A pergunta é a seguinte: até quando o brasileiro vai aceitar dar R$ 1 para ter R$ 0,50 de volta? O Brasil tem várias áreas em que os investimentos foram mal feitos. Aí, não há salvação. Ou você continua colocando dinheiro lá eternamente ou permite que o capital saia de lá e seja corretamente alocado para o resto do Brasil. Quando você corrige um problema de má alocação de recursos não é só uma questão econômica. É também uma questão social. Você devolve o dinheiro para o dono dele, que é a população brasileira. Essa correção de má alocação de recursos distribui renda e melhora a eficiência econômica. É uma política social eficiente. 

O setor privado tem recursos para alavancar o investimento? De onde virá o dinheiro? Há crédito para isso, recursos disponíveis no mercado nacional e internacional?

Essa roda está girando. No ano passado, o Brasil foi o País que mais recebeu investimento direto estrangeiro entre os emergentes. O investimento está vindo para o País. Dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) mostram crescimento de 26% em relação a 2018, de US$ 60 bilhões para US$ 75 bilhões. É muito difícil alguém dizer que falta capital privado para investimento no Brasil. O que falta geralmente é alguma segurança jurídica, uma legislação que proteja o investimento. É nisso que temos que trabalhar. Capital tem. Em 1994, por exemplo. 50% das localidades brasileiras não tinham telefone. Em 1998, com a privatização, faltou capital para investimentos em telecomunicações no Brasil? Não. A mesma coisa que aconteceu nas telecomunicações, que é um setor extremamente intensivo em capital, vai acontecer em vários outros setores quando abrirmos mais a economia e fizermos as concessões e as privatizações.

Esses recursos, agora, devem vir mais do mercado de capitais, dos bancos privados e dos investidores internacionais do que do BNDES e do setor público, como acontecia antes?

Do setor público não tem mais jeito. A capacidade do BNDES hoje ainda existe. O BNDES é um banco relevante no mercado. O presidente do BNDES (Gustavo Montezano) está fazendo um grande trabalho. Agora, aquela realidade do passado não existe mais.

O sr. fala muito dessa questão de má alocação de recursos, mas muita gente não entende direito o que isso quer dizer. O que significa isso na prática?

Má alocação de recursos é quando você tem um fator, ou capital ou trabalho, que não está no setor mais produtivo, sendo usado da maneira eficiente. O Uber, por exemplo, corrigiu um tremendo problema de má alocação. Você tinha um trabalhador com tempo disponível, que tinha um carro, queria ganhar dinheiro e não sabia como. Pimba, apareceu o Uber. Agora, esse trabalhador está lá gerando serviços, produto e bem estar para sociedade. Com o Airbnb aconteceu a mesma coisa. Uma pessoa que tinha uma casa ou um quarto sobrando de repente queria ganhar um dinheiro com aquilo, mas não sabia como. Agora, tem, com o Airbnb. Na década de 80, com a escalada da inflação, a primeira coisa que meu pai fazia quando recebia o salário era ir ao supermercado para fazer a compra do mês. Toda casa tinha de ter una dispensa. Você “queimava” um cômodo da casa só para guardar mantimentos, porque a inflação era tão alta que não dava para deixar para comprar depois. Com a queda da inflação, agora é possível usar aquele cômodo para outra coisa ou para alugar para alguém.

Na relação das empresas com o governo, que exemplos o sr. pode dar sobre má alocação de recursos?

A política toda de subsídios do governo. Quando você avalia vários programas públicos, eles não deram resultado. Por exemplo: o Programa de Sustentação de Investimento (PSI). Deste eu posso falar, porque analisei na época em que estava no IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Você jogou uma montanha de recursos do BNDES para estimular o investimento privado e ele não saiu do lugar. Outra questão que analisei foi a política de desoneração da Dilma. Ela escolheu alguns setores para desonerar a folha de pagamento. Não gerou um único emprego, mas custou uma montanha de dinheiro para os cofres públicos. Tudo isso foi transferência de dinheiro dos contribuintes, dos trabalhadores brasileiros, para grupos específicos. Isso é má alocação de recursos, porque você começa a alocá-los não onde são mais produtivos, mas onde o governo escolhe. A gente ouve muito o pessoal dizer “Ah, tem uma falha de mercado e o governo tem de ajudar”. Eu proponho que a gente faça o contrário, identificando onde estão as falhas do governo, onde o governo está piorando a situação da população, em vez de melhorá-la. É aí que nós temos que trabalhar.

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Será que não está na hora de o Sistema S dar a sua contribuição para a retomada do emprego?
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Embora tenham sido gerados cerca de um milhão de empregos em 2019, ainda há por volta de 11,5 milhões de desempregados no País. Não seria o caso de dar uma turbinada na economia para acelerar a redução do desemprego?

Do governo não virá essa turbinada, porque nós não temos recursos para isso. Agora, eu sugiro a gente acelerar em outra área: o combate à má alocação de recursos. Por exemplo: que tal a sociedade debater o Sistema S. O Sistema S arrecada R$ 20 bilhões por ano. Esse dinheiro vem da oneração da folha de pagamento. Tem diretor do Sistema S que recebe mais de R$ 60 mil por mês. O Sistema S está cheio de prédio elegante em endereços supervalorizados. Será que não está na hora de a gente diminuir um pouquinho a contribuição da folha para estimular o emprego e combater a má alocação de recursos? Essa é uma pergunta que eu faço para a sociedade. Nós temos de entender que o governo reage a grupos de pressão. Se a sociedade deixar na mão de outros o dever dela mesmo, vai dar errado.

Todas as vezes em que se fala em rever as contribuições para o Sistema S, surge lobby contrário muito forte, alegando que ele faz investimentos sociais com o dinheiro que recebe. Como o sr. analisa essa questão?

Sempre que você combate uma má alocação, esses lobbies acontecem. Eles dizem que passam um pouquinho do dinheiro para educação, um pouquinho para saúde. Ué, então, deixa a gente passar todo o dinheiro direto para saúde, que seria mais eficiente. Em parte, é verdade que o sistema S tem um bom sistema de treinamento. Mas está certo alguns diretores ganharem acima de R$ 60 mil por mês? Está certo construir prédios de luxo? Será que não há certo exagero nisso? Será que não está na hora de o Sistema S dar a sua contribuição para a retomada do emprego? Acho que está no momento de a sociedade discutir isso. Mas vou além: está na hora de a população decidir até quando nós vamos punir os mais pobres não abrindo a economia. Porque abrir a economia é claramente uma ajuda aos mais pobres, porque permite a entrada de produtos mais baratos no País. Aí você fala: “Isso vai gerar desemprego na indústria tal”. Então, vamos ficar eternamente punindo os mais pobres para manter o emprego de algumas categorias? Eu respeito, são empregos importantes. Mas os estudos mostram que, quando você abre a economia, rapidamente realoca esses empregos. É claro que existe uma transição, uma defasagem. Não estou dizendo que é fácil. Estou dizendo que uma economia fechada favorece grupos que, na média, são mais ricos que os pobres da população. Ou seja, os pobres estão transferindo renda para grupos mais ricos.

O sr. falou que, no ano passado, o Brasil atraiu um volume maior de investimentos externos do que em 2018. Mas parece que, pela primeira vez, os investimentos internos superaram os externos. Isso deixou muita gente com a percepção de que o investidor internacional está se afastando do Brasil. O que está acontecendo? O investidor externo está com o pé atrás com o Brasil?

O que está acontecendo é uma mudança estrutural na economia brasileira. A taxa básica de juros (Selic) está em 4,25% ao ano. Vários investidores que trouxeram dinheiro para o Brasil porque havia um juro mais alto saíram agora. É natural. Com a redução nos juros é natural que alguns tipos de capital procurem um retorno mais alto em outro lugar do mundo. Agora, para a população como um todo está melhor. A Bolsa bateu recordes. É justamente essa redução nos juros que leva as pessoas para a Bolsa. No ano passado, pela primeira vez, o retorno do capital foi superior ao custo do capital no País. Isso mostra que, finalmente, está valendo a pena investir na economia real. O investimento direto estrangeiro veio, , como eu disse, e vai continuar vindo, por causa da agenda de privatizações e de concessões. De novo, eu estou muito seguro de que estamos lançando as bases sólidas para o crescimento sustentável de longo prazo para a nossa economia.

Com a balança comercial aconteceu algo parecido, com uma redução considerável do superávit.

A balança comercial, numa economia de câmbio flexível, não tem muito apelo. Não tem essa relevância que alguns lhe atribuem. Eu entendo que as pessoas ainda olhem para a balança comercial no Brasil, porque nós temos um longo histórico de câmbio fixo. Quando o câmbio é fixo, você precisa realmente trazer moeda forte para a economia para manter a paridade cambial que você escolheu. Agora, eu gostaria que o Brasil exportasse mais e importasse mais. Isso é que é bom. Numa economia de câmbio flexível, o que é bom é o fluxo de comércio, é a soma das importações com as exportações. Quanto mais alto ele for, mais forte é o Brasil nas cadeias de produção global.

Mas a gente não pode ficar com déficits comerciais prolongados.

O câmbio ajusta isso. Honestamente, isso não preocupa.

Como o dólar alto pode afetar essa equação econômica, esses fatores dos quais a gente está falando?

Eu não gosto de falar disso, porque câmbio e juros fazem parte da agenda do Banco Central.

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Não é que estamos aumentando o crédito de maneira artificial como foi feito no passado. Não. Estamos mexendo as placas tectônicas da economia.
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Ao longo do ano passado, vocês elaboraram várias medidas microeconômicas, como a mudança no FGTS, a extinção do DPVAT (ainda pendente de decisão judicial) e a flexibilização do uso de garantias imobiliárias. Que outros projetos estão no prelo?

A nossa principal agenda hoje, em conjunto com o Banco Central, é para melhorar a eficiência das garantias. Porque, quando você melhora o uso das garantias, melhora a eficiência do mercado de crédito. Não é que estamos aumentando o crédito de maneira artificial como foi feito no passado. Não. Estamos mexendo as placas tectônicas da economia. Com uma garantia mais sólida, você consegue aproveitá-la melhor. Um projeto prioritário da SPE, com apoio do Banco Central, é a criação da Central de Garantias. Com isso, as pessoas poderão usar o patrimônio delas como garantia de empréstimos de maneira mais eficiente. Um dentista, por exemplo, tem lá o seu consultório. O consultório dele vale um milhão e ele está devendo R$ 100 mil para quitá-lo. Hoje, ele não pode usar os outros R$ 900 mil como garantia de outros empréstimos. Isso é um absurdo. Com a Central de Garantias, a gente quer fazer algo parecido com o que fizemos na MP do Agro, que trata do uso do patrimônio de afetação. Antes, a propriedade rural valia R$ 1 milhão, o agricultor pegava R$ 50 mil no banco e a propriedade inteira ficava em garantia. Agora, não. Assim que a gente conseguir aprovar a MP do Agro vão ser só aqueles R$ 50 mil.

O que mais deve vir por ai?

Outra ideia é o uso de recebíveis do FGTS. Várias pessoas devem um dinheirinho. Não seria muito melhor se elas tivessem uma dívida mais barata usando o patrimônio que têm no FGTS como garantia? Nós estamos tornando isso possível. Essa redução nas taxas de juro vai representar uma revolução no consignado privado. Estamos estimando que o mercado de recebíveis de FGTS vai bater R$ 100 bilhões em três ou quatro anos. Está faltando apenas algumas operacionalizações. Acredito que ainda no primeiro semestre isso deve sair. Boa parte do movimento da Secretaria é em questões que são difíceis de o grande público ver, mas ele sente. Temos também uma agenda muito grande de mercado de capitais em conjunto com o Banco Central. Uma agenda para baratear o crédito, melhorar a eficiência nos investimentos em infraestrutura.

Quase no final do ano passado, houve uma polêmica entre a SPE e a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho relacionada com a carteira verde e amarela, que pretende estimular a contratação de jovens com menos obrigações trabalhistas. Houve divergência em relação ao impacto do programa no orçamento, porque ele envolve uma compensação dos gastos previdenciários pelo governo. Como ficou isso aí?

Primeiro, não houve polêmica nenhuma. Eu me dou muito bem com todo o pessoal de lá. Desde a época da nova Previdência a gente trabalha em conjunto e agora estamos trabalhando nas normas regulamentadoras. Agora, nós não podemos ser levianos e aceitar qualquer medida nem de A e nem de B. O que aconteceu ali foi um debate exaustivo dos prós e contras do programa. A Secretaria de Política Econômica presta auxílio a uma série grande de atores. Tenho de ser honestos no nosso posicionamento. Isso tem que ser feito dentro do governo. Então, o que houve foi um debate legítimo, duro, mas acima de tudo respeitoso. No final, depois de muitos debates, a equipe do então secretário especial Rogério Marinho nos convenceu de que o programa era prudente. Se não, não teríamos dado o ok. O nosso ok veio depois. No final, a secretaria especial do Trabalho trouxe especialistas de peso da área de economia do Trabalho que nos mostraram que programa de jovens tem em todo o lugar do mundo. Eles mostraram que a experiência internacional está de acordo com isso e que se você não qualificar o jovem a chance de ele ter um problema ao longo da vida é muito maior. 

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