‘Se o juro subir muito, podemos ter uma recessão prolongada’, diz economista-chefe do Banco Inter

Para Rafaela Vitoria, Selic não deveria ultrapassar 10%; banco projeta PIB do quarto trimestre semelhante ao terceiro

Luciana Dyniewicz - O Estado de S.Paulo

Diante da recessão técnica em que o Brasil entrou no terceiro trimestre, o Banco Central terá de ser cuidadoso ao elevar a taxa básica de juros (Selic) nos próximos meses, sob o risco de colocar o País em uma crise ainda mais profunda, avalia a economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitoria. Segundo ela, uma Selic superior a 10% pode ser prejudicial à economia. Hoje, a taxa de juros está em 7,75%. “A atividade econômica tem de entrar no radar (do Banco Central). O Brasil ainda tem 13,5 milhões de desempregados e precisa voltar a crescer. O PIB está no mesmo patamar do último trimestre de 2019. Estamos a quase dois anos sem nenhum crescimento, e a população cresce”, afirmou.

Segundo as projeções da economista, o PIB do quarto trimestre de 2021 deve repetir o do terceiro, com uma variação próxima a zero. A indústria, no entanto, pode surpreender positivamente se houver uma melhora nas cadeias de fornecimento, que vêm registrando falta de componentes desde o começo da pandemia. Confira, a seguir, trechos da entrevista. 

O ano começou parecendo que a recuperação ganharia tração. Agora estamos em recessão, o que aconteceu?

Temos alguns componentes externos. Nesse terceiro trimestre, a grande surpresa foi a queda do agronegócio. Não imaginávamos que seria desse tamanho: 8% é bastante. Teve produções bem afetadas com seca e geada, com queda de mais de 20%. Café e milho sofreram muito. A crise hídrica teve impacto direto no agronegócio e indireto no aumento do custo da energia no Brasil. Acabou resultando em desaceleração. O consumo das famílias teve crescimento, mas não na magnitude que se esperava com o avanço da vacinação. A alta da inflação já está retirando consumo das famílias. 

Questões políticas têm interferido na economia?

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Neste momento, acho que não diretamente. Mas, indiretamente, a incerteza política - principalmente o fato de as reformas não terem avançado e essa discussão de PEC dos Precatórios - traz insegurança para o mercado. Isso fez a moeda se desvalorizar mais que o esperado, contribuindo para elevar a inflação. Isso já resultou em alta de juros. Mas, mesmo nesse último trimestre, a subida dos juros foi bem maior do que esperávamos no início do ano. 

Retração no agronegócio surpreendeu, diz Rafaela Vitoria Foto: Babi Profeta/Banco Inter

O Inter espera alguma mudança nessa trajetória da economia até o fim do ano?

O quarto trimestre deve ser parecido com esse, com uma variação também próxima a zero. Aí, devemos ter um crescimento de 4,7% no ano. É um crescimento muito pequeno, praticamente só o carrego estatístico (quando a base de comparação é baixa  - no caso, o resultado médio do PIB em 2020 -, mas o ponto de partida é elevado por conta da recuperação ao longo do último semestre do ano, fazendo com que o ano seguinte tenha um número mais alto). Acho que vamos continuar vendo um crescimento mais positivo de serviços, que ainda estão se recuperando. Tem a possibilidade de uma surpresa na indústria, que ficou estagnada no terceiro trimestre em parte por causa da falta de insumos. Conforme se tenha uma normalização disso, pode haver reposição de estoques e uma surpresa positiva. Afastamos a possibilidade de racionamento de água agora e no próximo ano, o que também ajuda a indústria. O período de chuvas veio antes e mais forte do que se esperava. Tirando esses gargalos, talvez possa haver um crescimento marginal, mas ainda estamos longe do cenário de retomada robusta por conta da inflação alta e da incerteza política e fiscal. Ainda teremos o impacto da alta da Selic (taxa básica de juros da economia) na atividade, prejudicando o consumo das famílias e os investimentos.

Esse cenário se repete em 2022? Como vê a Selic no próximo ano e seu impacto na inflação e no PIB? 

O Banco Central sempre foi muito focado em inflação e expectativa de inflação. Acho que precisa incorporar a expectativa de desaceleração da atividade. Se subir muito o juro, a gente pode ter uma recessão prolongada e mais severa. Acho que a atividade tem de entrar no radar. Qual a taxa de juros que controla a inflação, mas não permite que a recessão seja tão forte? Porque, como vimos, o Brasil ainda tem 13,5 milhões de desempregados e precisa voltar a crescer. O PIB está no mesmo patamar do último trimestre de 2019. Estamos a quase dois anos sem nenhum crescimento, e a população cresce. É preciso voltar a crescer e gerar emprego. 

E qual seria essa taxa de juros ideal?

Acho que vai precisar chegar a dois dígitos, talvez 10% seja necessário. Mais que isso, a gente pode ter uma recessão severa. Mas nós (banco Inter) temos no cenário 11% para 2022 e PIB de 0,5%. Acho que precisamos de juros menores do que isso. 

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‘Se o juro subir muito, podemos ter uma recessão prolongada’, diz economista-chefe do Banco Inter

Para Rafaela Vitoria, Selic não deveria ultrapassar 10%; banco projeta PIB do quarto trimestre semelhante ao terceiro

Luciana Dyniewicz - O Estado de S.Paulo

Diante da recessão técnica em que o Brasil entrou no terceiro trimestre, o Banco Central terá de ser cuidadoso ao elevar a taxa básica de juros (Selic) nos próximos meses, sob o risco de colocar o País em uma crise ainda mais profunda, avalia a economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitoria. Segundo ela, uma Selic superior a 10% pode ser prejudicial à economia. Hoje, a taxa de juros está em 7,75%. “A atividade econômica tem de entrar no radar (do Banco Central). O Brasil ainda tem 13,5 milhões de desempregados e precisa voltar a crescer. O PIB está no mesmo patamar do último trimestre de 2019. Estamos a quase dois anos sem nenhum crescimento, e a população cresce”, afirmou.

Segundo as projeções da economista, o PIB do quarto trimestre de 2021 deve repetir o do terceiro, com uma variação próxima a zero. A indústria, no entanto, pode surpreender positivamente se houver uma melhora nas cadeias de fornecimento, que vêm registrando falta de componentes desde o começo da pandemia. Confira, a seguir, trechos da entrevista. 

O ano começou parecendo que a recuperação ganharia tração. Agora estamos em recessão, o que aconteceu?

Temos alguns componentes externos. Nesse terceiro trimestre, a grande surpresa foi a queda do agronegócio. Não imaginávamos que seria desse tamanho: 8% é bastante. Teve produções bem afetadas com seca e geada, com queda de mais de 20%. Café e milho sofreram muito. A crise hídrica teve impacto direto no agronegócio e indireto no aumento do custo da energia no Brasil. Acabou resultando em desaceleração. O consumo das famílias teve crescimento, mas não na magnitude que se esperava com o avanço da vacinação. A alta da inflação já está retirando consumo das famílias. 

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Retração no agronegócio surpreendeu, diz Rafaela Vitoria Foto: Babi Profeta/Banco Inter

O Inter espera alguma mudança nessa trajetória da economia até o fim do ano?

O quarto trimestre deve ser parecido com esse, com uma variação também próxima a zero. Aí, devemos ter um crescimento de 4,7% no ano. É um crescimento muito pequeno, praticamente só o carrego estatístico (quando a base de comparação é baixa  - no caso, o resultado médio do PIB em 2020 -, mas o ponto de partida é elevado por conta da recuperação ao longo do último semestre do ano, fazendo com que o ano seguinte tenha um número mais alto). Acho que vamos continuar vendo um crescimento mais positivo de serviços, que ainda estão se recuperando. Tem a possibilidade de uma surpresa na indústria, que ficou estagnada no terceiro trimestre em parte por causa da falta de insumos. Conforme se tenha uma normalização disso, pode haver reposição de estoques e uma surpresa positiva. Afastamos a possibilidade de racionamento de água agora e no próximo ano, o que também ajuda a indústria. O período de chuvas veio antes e mais forte do que se esperava. Tirando esses gargalos, talvez possa haver um crescimento marginal, mas ainda estamos longe do cenário de retomada robusta por conta da inflação alta e da incerteza política e fiscal. Ainda teremos o impacto da alta da Selic (taxa básica de juros da economia) na atividade, prejudicando o consumo das famílias e os investimentos.

Esse cenário se repete em 2022? Como vê a Selic no próximo ano e seu impacto na inflação e no PIB? 

O Banco Central sempre foi muito focado em inflação e expectativa de inflação. Acho que precisa incorporar a expectativa de desaceleração da atividade. Se subir muito o juro, a gente pode ter uma recessão prolongada e mais severa. Acho que a atividade tem de entrar no radar. Qual a taxa de juros que controla a inflação, mas não permite que a recessão seja tão forte? Porque, como vimos, o Brasil ainda tem 13,5 milhões de desempregados e precisa voltar a crescer. O PIB está no mesmo patamar do último trimestre de 2019. Estamos a quase dois anos sem nenhum crescimento, e a população cresce. É preciso voltar a crescer e gerar emprego. 

E qual seria essa taxa de juros ideal?

Acho que vai precisar chegar a dois dígitos, talvez 10% seja necessário. Mais que isso, a gente pode ter uma recessão severa. Mas nós (banco Inter) temos no cenário 11% para 2022 e PIB de 0,5%. Acho que precisamos de juros menores do que isso. 

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