Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

'Se precisar, vamos renegociar mais créditos. Não tem problema nenhum', diz presidente do Bradesco

Bancos já se preparam para eventual nova onda de extensão de prazos caso pandemia de covid-19 se agrave, diz executivo; retorno das linhas de crédito às pequenas e médias empresas também é uma possibilidade

Entrevista com

Octavio de Lazari, presidente do Bradesco

Aline Bronzati e André Ítalo Rocha, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2021 | 05h00

O agravamento da pandemia de covid-19 no Brasil, com um ritmo de vacinação aquém do esperado, já colocou novamente na mesa dos grandes bancos a necessidade de uma nova rodada de renegociações de dívidas. Bradesco, Itaú, Santander, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil têm conversado a respeito e estão dispostos a uma nova leva de prorrogações caso o País volte a ser obrigado a adotar medidas de isolamento social, afirma o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari

Essa disposição vem da primeira experiência com as carências e renegociações – em que boa parte dos clientes têm honrado os compromissos. Além disso, segundo o executivo, os bancos mantêm conversa frequente com o Banco Central (BC) sobre eventual necessidade do retorno de linhas de crédito voltadas às pequenas e médias empresas.

Prestes a completar três anos à frente do banco, Lazari acaba de entregar lucro trimestral recorde na história do banco. Para frente, vê como desafios a criação de novos ativos no conglomerado. Ele considera o Next pronto para abrir o capital em 2022. A bandeira de cartões Elo, da qual é sócio com o BB e a Caixa, seguirá esse caminho já neste semestre. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista:

O sr. demonstra otimismo com a aprovação das reformas estruturais. De onde vem o otimismo?

Não é otimismo, é pragmatismo. As reformas estão na boca do povo e em discussão na Câmara e no Senado. O Arthur Lira (novo presidente da Câmara) e o Rodrigo Pacheco (novo presidente do Senado) têm de chegar mostrando trabalho – o que vão fazer. Não podemos ficar sem orçamento definitivo, sem teto de gastos, sem simplificação tributária. São pontos cruciais para que a economia melhore. Além disso, as reformas vão andar porque elas serão importantes para o processo eleitoral de 2022.

Se o governo tivesse de escolher uma reforma, em qual deveria focar?

Se for uma só, a simplificação tributária, porque tem impacto direto na criação de empregos e acesso a investimentos externos. A reforma tributária destrava um monte de problemas. Não chamo nem de reforma porque não dá para fazer na extensão ideal. Não dá para dar um cavalo de pau nisso, a dívida fiscal é grande. A simplificação tributária ajudaria muito. Depois, seria a reforma administrativa.

O sr. acredita que existe espaço e capital político para a privatização da Eletrobrás?

Tem espaço e capital político. A privatização da Eletrobrás é absolutamente necessária, e o Wilson (Ferreira Júnior, ex-presidente da companhia, que renunciou) já deixou praticamente pronta. Houve a eleição na Câmara e no Senado. Tem quem goste e tem quem não goste (dos resultados), mas foi pelo voto democrático e temos de seguir com a agenda (de privatizações). 

Em 2020, os bancos se aproximaram do governo Bolsonaro em torno do crédito. Como ficou essa agenda?

A agenda com o Banco Central continua. Todo mês temos reuniões com o presidente do BC, Roberto Campos Neto, para falar sobre cenário econômico e medidas que podem ser feitas. Pode ser que voltem algumas linhas, como a da pequena e microempresa e a FGI – para médias empresas. Se vierem, ótimo, vamos distribuir. Mas, se não vierem, os bancos estão bem capitalizados, têm liquidez e têm espaço para crescer com linhas próprias, com taxas mais atraentes e, principalmente, prazo (de liberação), que é o mais importante.

Com as novas restrições em razão da pandemia, como ficam as renegociações de dívidas?

As renegociações com as empresas tinham carência de seis meses a um ano, então para muitas a primeira parcela não começou a vencer. Não houve demanda em relação a isso. Mas, se eventualmente houver uma necessidade, em razão do lockdown, mesmo que parcial, vamos fazer. Não tem problema nenhum. Quando as prorrogações começaram, ficamos muito preocupados, mas agora vemos com muita clareza: 92% das operações prorrogadas estão sendo pagas em dia, a inadimplência dessas operações só representa 0,6% da inadimplência do banco. Dos quase R$ 80 bilhões que fizemos em prorrogações, R$ 42 bilhões já entraram em condição normal, com empresas pagando sem atraso. Se houver extensão de lockdown, com agravamento da pandemia, vamos dar mais condições para as empresas pagarem e recuperarem faturamento em um momento de maior dificuldade. 

Como o sr. vê a alta da inflação e a influência dos preços sobre os juros?

Mesmo que haja aumento da taxa de juros, poderá ser de 2% para 3% ou 4%. Não vamos de 2% para 20%, como no passado. Será muito mais palatável. Não me parece que seja problema que possa travar o crescimento do crédito. 

Como está o andamento da revisão de negócios de pagamentos em sociedade com o BB?

As conversas estão hiperadiantadas. Com relação à Elo, existe convicção de abrir o capital neste semestre. Das outras, todas estão sendo rentáveis. Não tem problema nenhum.

E a Cielo?

A gente continua conversando para a melhor coisa para a Cielo, que conseguiu reagir. O último trimestre melhorou bem. Adquirência é um negócio extremamente importante. Não dá para terceirizar esse negócio para nossas corporações dado o tamanho que a gente tem.

Por que o sr. prevê o IPO do Next só daqui a dois anos?

Pode até acontecer antes. A gente tem de colocar no Next a escala necessária para que ele possa ir para um IPO vitorioso. Isso, em um mundo de banco digital, significa ter muitas contas. O primeiro ponto era fazer a separação total do Next, não ter nenhuma dependência financeira. Isso já foi feito. O segundo ponto era que não tivesse nenhuma dependência sistêmica do banco – isso foi feito em novembro. Hoje, ele tem vida própria. E agora é crescer o número de clientes para poder abrir capital.

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