'Se reformas caminharem, dá para ser mais otimista em 2019', diz Silvia Matos

'Se reformas caminharem, dá para ser mais otimista em 2019', diz Silvia Matos

Para economista, apesar de o País repetir o resultado do ano anterior, desempenho de 2018 foi melhor e consumo das famílias deve avançar este ano

Entrevista com

Silvia Matos

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 12h12

Na visão da economista Silvia Matos, o desempenho da economia brasileira no ano passado, de crescimento de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB), divulgado nesta quinta-feira, 28, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra uma melhora no cenário interno, apesar de muito abaixo do que era esperado no início de 2018.

Para a pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a aprovação da reforma da Previdência é crucial para a sinalização do compromisso do governo de Jair Bolsonaro com as contas públicas, mas ela não basta para que o País entre em ciclo de crescimento mais acelerado. Também é preciso resolver a eficiência e a qualidade dos gastos públicos. A seguir, trechos da entrevista. 

Em 2018, o Brasil cresceu o mesmo que havia crescido no ano anterior. Esse desempenho deve ser comemorado?

Devemos considerar que o País está em baixo crescimento. O resultado de 2018 foi melhor do que o do ano anterior, porque a composição foi diferente. Se o PIB de 2017 cresceu embalado pela agropecuária e por uma indústria muito dependente das exportações, em 2018 o consumo das famílias já teve um desempenho maior e houve um avanço do investimento em máquinas e equipamentos, mesmo desconsiderando os investimentos em plataformas de petróleo, que comprometem a comparação. O resultado é muito aquém do esperado, após a perda de PIB durante a recessão, mas é um pouco melhor.

Com o resultado do PIB de 2018 já é possível fazer um retrato do desempenho do governo Michel Temer na economia. Ele é positivo ou negativo?

Vimos alguns avanços, o governo montou uma equipe econômica muito boa e conseguiu aprovar a PEC dos gastos, mas havia uma promessa de ajuste fiscal estrutural, que não se cumpriu. A fragilidade política do presidente e sua baixa popularidade aumentaram a dificuldade de aprovação das reformas. Quando ficou claro que o governo não conseguiria aprovar a reforma da Previdência, houve uma grande frustração, que limitou a capacidade de recuperação da economia. Eu critico a visão muito otimista que se criou sobre a capacidade de resolução dos problemas do País. Criou-se uma expectativa muito grande, que acabou atrapalhando na retomada do crescimento — e ainda estamos pagando essa conta de 2018, de ajuste incompleto. 

A reforma da Previdência ganhou protagonismo ao se discutir os passos que o País precisa dar para acelerar a recuperação. Esse protagonismo é justificado? 

A reforma da Previdência é muito importante, mas não resolve todos os problemas do País. Ela ataca um problema inicial, de insolvência das contas públicas, mas é preciso melhorar também a eficiência do gasto público. O governo precisa ser mais eficiente e alocar recursos de forma mais racional do que tem feito até agora. Essa é uma agenda muito longa e de difícil execução, mas necessária. Sem isso, o cenário interno será bem negativo e é bom lembrar que ele sempre pode piorar. 

Os investimentos devem ter um desempenho maior este ano?

Acredito que este ano vai ser melhor para os investimentos do que o ano passado. Estamos projetando um avanço mais próximo de 5%, o que ainda inclui as plataformas de petróleo, mas um número melhor do que o de 2018 e que deve crescer mais no segundo semestre. Só que o recurso internacional para investimentos ainda não está vindo. No começo do ano, o investidor ainda vai esperar para tomar decisões que demandam mais certezas, ele ainda precisa acreditar que o governo Bolsonaro irá conseguir implementar as reformas.  

Quais são as perspectivas de crescimento do País para este ano?

Se as coisas caminharem bem, em termos de avanços nas reformas fiscais e tributárias e nas privatizações, é possível ser mais otimista e pensar em um crescimento do PIB de 2,1% para 2019. Não dá para dizer que seria um resultado ruim, mas o Brasil ainda tem muitos desafios para chegar a um crescimento na casa dos 3%. No ano como um todo, o agronegócio não deve ter um desempenho muito melhor do que em 2018, a indústria de transformação ainda sofre com a crise na Argentina.

O consumo das famílias cresceu 1,9% em 2018. Ele deve ter um desempenho melhor este ano?

Por um lado, o consumo das famílias cresceu no ano passado, mas o mercado de trabalho ainda está muito fraco e o consumo não dá para crescer muito mais. Os juros reais também ainda estão muito altos, mas não tem milagre, depende de investimento e produtividade. Resolvendo a insolvência fiscal, pode ter um novo ciclo para a economia. Para este ano, estamos prevendo 2,5% de crescimento do consumo das famílias, um resultado acima do PIB, mas que depende do crescimento dos outros setores. A necessidade cada vez menor de mão de obra também pesa no mercado de trabalho e na capacidade de aumento do consumo das famílias. Além disso, o País não pode mais arcar com um boom de crédito, como no passado, sem fazer mudanças estruturais.

Este ano deve ser mais difícil para o Brasil, do ponto de vista internacional?

Sim. O que estamos vendo é um cenário em que o mundo está desacelerando e tendo de enfrentar novos desafios, com um crescimento mais baixo. Há uma discussão ainda forte sobre os rumos da guerra comercial entre China e Estados Unidos que não é favorável aos emergentes. O Brasil, portanto, precisa acelerar seu crescimento em um contexto internacional desfavorável, de desaceleração do crescimento internacional. Com alguma frequência, o País perde janelas favoráveis para o crescimento e precisa compensar essa demora em momentos mais complicados para crescer.

 

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