'Se trabalhar agora, serei escalado à noite?'

No meio da barulheira de centenas de trabalhadores confusos e nervosos, Antonio Carlos Francelino de Souza, de 62 anos, estava quieto e pensativo na "Parede" de quarta-feira. Ele havia acabado de ser escalado para o turno da tarde, mas não sabia se aceitava ou não. "Se eu trabalhar agora, será que serei escalado à noite (cujo trabalho é mais rentável)?", indagava aos demais trabalhadores.

O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h06

Pelo Termo de Ajustamento de Conduta, assinado entre o Órgão Gestor de Mão de Obra (Ogmo) e o Ministério Público do Trabalho, ele não poderia. Teria de parar 11 horas antes de começar um novo turno. Mas, como os demais trabalhadores, ele não quer descansar. Quer dobrar o turno e a renda, que nos últimos tempos anda mais curta no porto.

Eles argumentam que precisam aproveitar o período em que o navio está atracado para trabalhar. "E, se voltar depois das 11 horas e não tiver serviço pra mim. Alguém vai garantir a minha renda?", questiona Gilberto dos Santos, primo de Souza.

O Sindicato dos Operadores Portuários (Sopesp) garante que sempre vai haver trabalho para quem quiser trabalhar. "Pelos números dos últimos 12 meses, cada estivador conseguiu trabalhar, na média, 22 períodos por mês", diz o presidente do Sopesp, Querginaldo Camargo.

Apesar dos protestos, a tendência é de que mais mudanças ocorram na estiva de Santos. Souza reconhece que o trabalho de hoje não se parece em nada com o que fazia no início de carreira. "Naquela época, o estivador ganhava pelo peso que carregava. Hoje, a máquina faz tudo. Só controlamos e acompanhamos a operação."

Conhecido como o número 8, referência à lista dos mais antigos do sindicato, ele se orgulha da vida no cais: "No dia 8 de agosto, completarei 45 anos de profissão". O estivador cresceu na beira do Porto de Santos. Viu avô, pai e primos viverem da estiva. Hoje é acompanhado pelo filho, que, mesmo formado em comércio exterior, divide a atividade de despachante aduaneiro com o trabalho no cais.

Ele e Santos lamentam a situação atual da estiva. "A condição da maioria não é boa. Quem não conseguiu guardar dinheiro não consegue guardar mais", prevê Santos. Não é difícil entender por que muitos querem aderir à proposta de vínculo empregatício com os terminais portuários.

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