Seca em São Paulo já fez o tratamento da água ficar 20% mais caro este ano

Seca em São Paulo já fez o tratamento da água ficar 20% mais caro este ano

A segunda reportagem da série Caminhos da Seca percorreu a área dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, onde poluição exige que empresas arquem com custos adicionais não apenas para garantir a oferta, mas também a qualidade

Alexa Salomão e Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2014 | 15h00

Em São Paulo, a seca criou uma situação peculiar para centros urbanos no interior do Estado, como Americana, Campinas e Piracicaba. Além do desafio de garantir o abastecimento num dos períodos mais secos da história, eles precisam se preocupar com a qualidade da água.

Os rios das Bacias PCJ, que reúnem o Piracicaba, o Capivari e o Jundiaí, seus afluentes e formadores, estão entre os mais poluídos do País. Segundo especialistas, à medida que as águas baixam, a concentração de poluentes aumenta, o que encarece a limpeza. “Quanto mais sujo um rio, mais dinheiro se gasta para limpar a água”, diz o professor Pedro Mancuso, da Universidade de São Paulo (USP), especialista no tema.


A Sabesp, maior empresa de saneamento do Estado, afirma que “não houve impacto no custo de tratamento nos últimos 18 meses”. Essa, porém, não é a percepção de outras empresas. Apenas os custos com produtos químicos já aumentaram em cerca de 20%, pelas estimativas de Carlos César Záppia, diretor da seção de Tratamento de Água do Departamento de Água e Esgoto de Americana. A alta ocorre porque é preciso elevar a quantidade de produtos para manter a qualidade da água. Záppia estima que, para as empresas privadas, a conta pode ser de até o dobro, dependendo do setor em que atuam.

A conta não inclui o custo com energia elétrica que, de acordo com o nível de poluição, representa de 50% a 70% dos gastos no tratamento da água, nem com a situação atípica dos rios. A concentração de algas e outros materiais orgânicos faz com que a água, mesmo limpa, chegue às torneiras com cheiro e cor. “As características da água mudam de minuto a minuto: a gente manda amostras para o laboratório, faz testes e, quando aplica um químico, que seria a solução, a água no rio já mudou”, diz. “Em 32 anos de empresa, nunca vi nada assim.”

Carro-pipa. Além do custo extra para limpar as águas, as empresas privadas precisam se preocupar em complementar o abastecimento, que vem sendo racionado em vários municípios. Há cerca de três semanas, a Bosch, uma das maiores fabricantes de autopeças do País, precisou comprar água de caminhões-tanque para ser utilizada no sistema produtivo da fábrica de Campinas. Foi a primeira vez que o grupo recorreu a esse expediente. Segundo Theophilo Arruda Neto, gerente de Engenharia de Segurança e Meio Ambiente, sempre que a empresa identificar necessidade vai buscar esse tipo de alternativa.

A situação das indústrias só não é pior porque, com o baixo crescimento da economia, a produção está em ritmo mais lento. “Se a economia estivesse mais pujante, essa crise hídrica seria mais extensiva, mais danosa”, diz o vice-diretor do Centro das Indústrias (Ciesp) de Americana, Leandro Zanini.

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Seca acentua os problemas com poluição e pragas

No interior de São Paulo, estiagem que afeta os rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí prejudica do agronegócio às grandes indústrias

Alexa Salomão e Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2014 | 05h00

Os lírios cultivados pela família De Wit, em Holambra, polo de produção de flores no interior de São Paulo, podem ser perfumados ou não. “Como tem gente que não gosta, produzimos flores com e sem perfume”, diz Tobias de Wit, filho do fundador. A família é precavida também em relação à água. Mantém três tanques, que acumulam água da chuva e de um córrego próximo. “Se tudo secar no entorno, haverá água para irrigar as flores por seis meses”, diz Wit. É um trunfo no setor. A maioria dos agricultores tem reserva para três dias. Mas nem assim os De Wit driblaram a seca em São Paulo. Seus lírios sofrem com dois efeitos colaterais da estiagem: as altas temperaturas, fatais para a planta de clima temperado, e as pragas, que se proliferam com o calor. Desde o início deste ano, já perderam 17% da produção. 

A florida Holambra é um dos 76 municípios que recebem as águas das Bacias PCJ, sigla para os rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, seus formadores e afluentes. Esses rios irrigam as torneiras de 5,5 milhões de pessoas e a geração de uma riqueza que equivale a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) do País. Nesse pedaço de São Paulo prosperam o agronegócio, o turismo e a indústria. Lá estão os morangos de Atibaia, as termas de Águas de São Pedro, o polo petroquímico de Paulínia. Suzano, do setor de papel e celulose, Ambev, de bebidas, ArcelorMittal, da siderurgia, e Honda, do automotivo, são empresas com fábricas na região. 

Calor. Nesse cinturão de prosperidade econômica, a estiagem tem sido implacável, principalmente com o agronegócio. O produtor Celeste Dalfito Neto, 59 anos, tem duas pequenas represas em seu sítio e já suportou muitas estiagens. Tanto é que seus tomates e alfaces estão vistosos nas estufas, justamente por causa da irrigação. “Mas como já não chove direito desde o verão passado, está cada vez mais difícil conter os efeitos do calor”, diz. Suas abóboras foram atacadas por pragas típicas de altas temperaturas. As flores dos 5 mil pés da café morreram. Não haverá colheita no ano que vem.

Os laranjais sofrem dos mesmos males. Entre 15 mil pés de laranja, em sua fazenda na cidade de Limeira, o produtor e consultor Paulo Celso Briasioli, 65 anos, até comemora a resistência das árvores: “Olhe aqui: tem um boa quantidade de chumbinhos, que é como chamamos as laranjas quando começam a brotar”, diz. “Com a chuva, a colheita até pode ser bem boa.” 

Se não chover, porém, ele prevê um baque sobre a citricultura paulista. Por amargar perdas com a queda nas exportações de suco, o setor encolhe e a seca pode desmotivar ainda mais os produtores. Briasioli aponta a propriedade vizinha. “Ali a laranja deu lugar à cana e à construção de um condomínio industrial”, diz. “Tenho um amigo que vendeu parte da terra e arrendou o resto para empresas de telefonia celular erguerem antenas. A renda é boa.” 

Nas cidades, os mais preocupados são aqueles que dependem da água da torneira e agora vivem sob a incerteza. O município de São Pedro, por exemplo, não recebe ajuda do santo. Está em racionamento. Lá a lavadeira Aparecida Bomtorin, a Cida, se organizou para encher as máquinas de lavar à noite – quando a água é liberada – e cuidar das toalhas de um restaurante da cidade turística de Águas de São Pedro. Em setembro, porém, uma adutora se rompeu. Não havia hora certa para a água entrar. “Vivemos o racionamento dentro do racionamento”, diz. Para garantir o ganho de R$ 800 mensais, vigiava as torneiras dia e noite. Abastecia devagar as máquinas quando dava. Lavava a roupa na madrugada. “Meu ganha pão vem da água e sem ela não saberia o que fazer.”

Contaminação. A visão das bacias locais não traz bons prognósticos. Em alguns trechos, os rios que inspiraram prosas e versos perderam tanta água que mais parecem canais de esgotos. O Piracicaba, o mais importante, está 71% abaixo da média para o período. Por causa disso, as empresas públicas e privadas estão preocupadas não apenas em garantir mais água, mas em assegurar sua qualidade. 

Na americana Dow, que tem sistemas de tratamento, a demanda pela ultrafiltragem – método mais sofisticado de limpeza – deu um salto: 45 empresas avaliam projetos. Na Servmar, especializada em poços artesianos, a procura triplicou.

Escapar da poluição, porém, não é fácil. Uma multinacional, que não quer o nome revelado, precisa de muita água na região. Para garantir o abastecimento, estudou abrir poços. As análises prévias, porém, revelaram que a água está comprometida com substâncias que danificariam os equipamentos. 

Na semana passada, a região acreditou que o suspense árido chegava ao fim. No domingo choveu e, na segunda, o céu permaneceu carregado. No fim da manhã de terça, porém, um vento seco e frio do Sul foi limpando a nuvens sobre Anhembi, a 180 quilômetros da capital, região onde o Piracicaba deságua. “O vento de outubro está pior que o de agosto, esse sim, o mês do vento”, reclama o pescador Sidnei Alves, de 46 anos. Perto do meio-dia, ele desembaraçava os peixes que, por causa da ventania, se enrolaram na rede. Se não se apressasse, o carregamento não seguiria a tempo para a Ceasa da capital.

A brisa nesse ponto tem um cheiro característico. O mesmo que se sente sobre todos os rios esverdeados desde a divisa com a capital. É um odor igual ao que sopra sobre pilhas de lixo plástico que a reportagem encontrou às margens arenosas do Tietê, na região da foz do Piracicaba. Diferentemente do que ocorre com os lírios, não é possível fugir desse cheiro. O cheiro rançoso e nauseante dos esgotos.

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Falta de água é inédita para maioria das empresas de SP

Indústrias como a Cummins, em Guarulhos, e a Rhodia, em Paulínia, têm recorrido à compra de água de carros-pipa

Alexa Salomão e Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2014 | 05h00

Sem água suficiente para manter a produção, a Cummins, fabricante de motores e geradores em Guarulhos, na Grande São Paulo, apelou para a compra de água que chega duas vezes por dia em caminhão-pipa. O complexo da Rhodia em Paulínia, na região de Campinas, tem feito um rodízio, suspendendo a produção em fábricas alternadas para evitar a escassez.

Os custos extras com essas ações não são revelados. A falta de água que se arrasta há vários meses é um fenômeno inédito para a maioria das empresas. “Em mais de 70 anos, nunca havíamos enfrentado um problema desses”, diz um porta-voz da Rhodia. A crise hídrica afeta principalmente o sistema Cantareira, que abastece mais de 70 municípios de São Paulo e cuja água segue para rios do interior, como Atibaia e Piracicaba.

Logo no início da estiagem, em fevereiro, a Rhodia parou sua produção de matéria-prima para a indústria química em Paulínia por duas semanas. Desde então, adota medidas para evitar situações mais graves. O grupo tem paralisado unidades de produção de acordo com a disponibilidade de água captada no rio Atibaia.

No momento, um grupo de 100 funcionários – de um total de 850 do conjunto industrial que reúne 22 unidades produtivas – não está na linha de produção. Eles foram deslocados para atividades de manutenção e treinamento.

Para evitar falta de produto para os clientes, a Rhodia está importando matéria-prima de outras unidades do grupo no mundo em substituição ao que deixa de produzir. Também tem feito estoques ao longo do ano com o aumento da produção em determinados períodos.

Caminhão pipa. Na Cummins, há três meses um caminhão pipa descarrega diariamente 20 m³ de água pela manhã e 20 m³ à tarde para complementar o fornecimento da rede pública.

“Também desenvolvemos ações internas, como a substituição de válvulas de torneiras, inspeções semanais para verificar se há vazamentos e processos para reutilização da água”, diz Cintia Silva, supervisora de Segurança e Meio da Cummins.

Segundo Cintia, por enquanto a entrega de dois caminhões-pipa por dia é suficiente para manter o funcionamento da fábrica, mas, por precaução, a empresa já tem um contrato para o fornecimento de até dez caminhões por dia, se necessário.

Característico do Nordeste, que sempre sofreu com a seca, o caminhão-pipa começa a ganhar espaço em São Paulo, abastecendo condomínios, restaurantes e empresas. Em Campinas, a demanda por carros-pipa explodiu. “É uma loucura, não conseguimos atender nem metade dos pedidos”, diz Francenir de Souza, 63 anos, funcionário da Água Jato Transportes.

A montadora Hyundai reduziu o consumo em sua unidade em Piracicaba e adota um sistema de reúso. O grupo deixou de captar água do Rio Piracicaba em razão da crise e passou a comprá-la de outras fontes.

A Mercedes-Benz tem registrado problemas de abastecimento na unidade em Campinas, onde mantém sua área de pós-venda. Segundo a empresa, a lavagem de veículos está suspensa e a frequência da lavagem de pisos, antes diária, agora é de uma vez por semana.

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