Leah Millis/Reuters
'Decidimos fazer algo grande', disse Yellen sobre pacote de estímulos de US$ 2 trilhões. Leah Millis/Reuters

Secretária do Tesouro dos EUA diz que país deve voltar ao pleno emprego em 2022

Segundo Janet Yellen, medidas como o combate à pandemia e o oferecimento de auxílio à população mais pobre, por meio do pacote de estímulos de US$ 2 trilhões, irão ajudar na retomada econômica dos Estados Unidos

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2021 | 19h11

WASHINGTON - Em sua estreia como secretária do Tesouro do governo Joe Biden no encontro de primavera do Fundo Monetário Internacional, Janet Yellen disse que o país deve voltar ao pleno emprego em 2022, graças ao combate à pandemia e ao oferecimento de auxílio à população mais pobre.

"Decidimos fazer algo grande", disse Yellen, sobre o novo pacote de auxílio aprovado pelos EUA este ano, de quase US$ 2 trilhões de socorro econômico a famílias e empresas. A rodada de estímulo foi a terceira aprovada desde o início da pandemia. "Porque pensamos que há riscos de graves cicatrizes se permitirmos desemprego de longa duração", disse. "Esperamos uma recuperação rápida. Estou esperançosa de que estaremos de volta ao pleno emprego no próximo ano", afirmou em painel ao lado da diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, mediado pelo presidente do Banco Mundial, David Malpass.

Os três defenderam o combate à pandemia, com vacinação e controle da propagação do vírus, como a mais importante medida de estímulo econômico no mundo. "Domesticamente, estamos nos concentrando na pandemia e tentando promover vacinação, testes, rastreamento de contatos para mantê-la sob controle, porque reconhecemos que, para os Estados Unidos e para o mundo como um todo, a pandemia realmente é o que vai dar a ordem em termos de como a economia está", disse a secretária do Tesouro americano. 

Kristalina saudou cientistas pela criação da "vacina em tempo recorde". "Devemos a eles a garantia de que todos tenham acesso à vacina. Não há política econômica mais importante hoje do que fazer exatamente isso", afirmou, ao cobrar novamente a melhor distribuição de vacinas entre países ricos e pobres. 

A chefe do FMI também voltou a alertar para os riscos de uma retomada econômica desigual, conforme o fundo apontou no seu relatório econômico divulgado nesta terça-feira. "O que vemos hoje? A economia mundial está em uma base mais sólida. A recuperação está progredindo e, na verdade, as ações tomadas pelos Estados Unidos para aumentar as perspectivas de recuperação interna estão ajudando o mundo todo. Estamos atualizando nossas projeções para o ano, mas as fortunas econômicas dentro dos países e entre os países estão divergindo perigosamente", disse.

A Secretária do Tesouro americano respondeu, então, que países desenvolvidos devem ter responsabilidade e trabalhar para que "décadas de progresso no combate à pobreza" e na "tentativa de fechar abismos de renda entre países ricos e pobres" não sejam revertidas em razão da pandemia. "Precisamos fornecer um pacote de recursos que suas organizações (FMI e Banco Mundial) possam usar para ajudar os países em desenvolvimento, países de baixa renda", afirmou Yellen.

A representante do governo Biden falou também sobre políticas para conter as mudanças climáticas, um pilar do governo do novo presidente americano. "Biden  vai propor um pacote de investimentos em infraestrutura e mudanças climáticas para garantir que façamos nossa própria contribuição doméstica para cumprir os objetivos do Acordo de Paris. E contamos com você para garantir que os recursos necessários para o desenvolvimento e financiamento verdes sejam transferidos para os países em desenvolvimento que realmente precisam desses recursos", disse.

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Economia global vai crescer 6% e Brasil, 3,7% este ano, projeta FMI

Em relatório, fundo alerta para crescimento das desigualdades entre os países e defende aceleração da vacinação

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2021 | 09h45

WASHINGTON - Um ano após traçar o panorama sombrio de que o mundo entraria em uma "grande paralisação" econômica como efeito da pandemia de coronavírus, o Fundo Monetário Internacional agora dá sinais de que a recuperação está a caminho. O alerta da instituição, no entanto, é de que a retomada da economia tem acontecido de maneira desigual entre os países e dentro deles, e que a recuperação consistente depende da melhor distribuição de vacinas contra covid-19

No Panorama Econômico Mundial deste ano, o FMI projeta uma recuperação forte da economia global em 2021 e 2022, comparada com as previsões anteriores. O crescimento econômico mundial é estimado para 6% neste ano e 4,4% em 2022. Em janeiro, a previsão era de crescimento de 5,5% este ano.

A projeção para o Brasil, porém, se manteve praticamente inalterada, na comparação com a divulgada em janeiro. A expectativa é que a economia brasileira cresça 3,7% neste ano e 2,6% em 2022. Em janeiro, a projeção era de crescimento de 3,6%. Os números do Fundo são mais otimistas que os do mercado financeiro brasileiro. O Boletim Focus, do Banco Central, projeta um crescimento do PIB de 3,17% este ano.

"Sobre o crescimento para o Brasil em 2021, projetamos em 3,7%, que é um aumento muito pequeno em relação ao que projetamos em janeiro, já que temos fatores indo em direções opostas", disse Petya Koeva Brooks, vice-diretora do departamento de pesquisas. "De um lado, temos o impacto positivo do estímulo fiscal americano e, de outro, temos as taxas de juros mais altas que o Brasil encara. A expectativa é de que no primeiro trimestre teremos crescimento negativo, mas no segundo trimestre o impacto do novo auxílio emergencial aprovado em forma de transferência renda vai começar a ajudar." 

Conselheira econômica do fundo e diretora do departamento de pesquisa, Gita Gopinath disse que o Brasil precisa acelerar o ritmo de vacinação da população. "A prioridade número um precisa ser a frente de vacinação, dando celeridade à vacinação em relação ao que temos visto neste momento", disse. "O Brasil é um dos países que têm sido mais atingidos por essa pandemia, olhando o número de casos e mortes por habitantes, é muito alto. Dito isto, considerando o apoio (econômico) que foi fornecido, a contração de 2020 no Brasil não foi tão ruim quanto seria. É esperado que a economia retorne, em 2021, mas ainda há desafios."

Pelas previsões do fundo, o Brasil também vai fechar o ano de 2021 como um dos únicos países do hemisfério ocidental a ter taxa de desemprego mais alta do que em 2020. A projeção do FMI é que a taxa suba de 13,2% para 14,5% neste ano. Só a Venezuela, entre os países do hemisfério, também ampliará a taxa de desemprego. O Brasil é também o segundo país com a taxa de desempregados mais alta, perdendo apenas para a Venezuela.

Nos demais países da América do Sul e do Norte para os quais o fundo faz projeções, o desemprego deve cair. EUA devem passar de 8,1% para 5,8%. México, de 4,4% em 2020 para 3,6% em 2021, e Argentina irá de 11,4% para 10,6%. 

Crescimento desigual

O problema no crescimento global, segundo o fundo, são os "desafios assustadores" na discrepância de ritmo de crescimento entre os países - e o potencial de danos persistentes. Enquanto os Estados Unidos devem superar o PIB da época anterior à pandemia neste ano, outras economias avançadas estarão nesse ponto apenas no ano que vem. Entre os emergentes, a China já voltou aos níveis pré-covid no ano passado, enquanto outros do grupo só chegarão lá em 2023.

"Os caminhos de recuperação divergentes devem criar divisões significativamente maiores nos padrões de vida entre os países em desenvolvimento e outros, em comparação com as expectativas pré-pandemia", escreveu Gita Gopinath, no relatório. O padrão de danos entre países, segundo ela, mudou, em comparação com a crise financeira de uma década atrás. Desta vez, os economistas do FMI apontam que países em desenvolvimento e emergentes irão sofrer mais economicamente do que as nações ricas.

A confiabilidade das previsões, segundo o FMI, depende do sucesso da corrida pela vacinação contra covid-19 de forma a conter a propagação de novas cepas do coronavírus. O progresso na vacinação mundial maior do que o esperado pode elevar as projeções, enquanto a propagação de variantes que diminuem a eficácia de imunizantes pode derrubar a previsão de crescimento econômico.

Política de vacinação

Ontem, na abertura do encontro de primavera do fundo, que reúne representantes dos países e investidores, a diretora-geral da instituição, Kristalina Georgieva, disse que a política de vacinação é a política econômica mais importante no momento atual e cobrou a expansão de acesso da vacina contra covid-19 para garantir a imunização em nações pobres. O mesmo recado foi dado no relatório que sustenta as previsões do fundo: os países precisam trabalhar juntos para garantir a vacinação em todos os lugares do mundo.

"O acesso à vacina também é profundamente injusto em países de alta renda, com 16% da população mundial tendo adquirido antecipadamente 50% das doses. Os países precisarão trabalhar juntos para resolver gargalos, aumentar a produção, garantir acesso universal, inclusive por meio do financiamento ao Covax, da qual muitos países de baixa renda dependem fortemente para as doses, e evitar controles de exportação", escreveu Gita.

Países como os Estados Unidos, que compraram mais doses de imunizantes contra covid-19 do que precisam para vacinar toda a população, têm cada vez mais sido pressionados a ajudar os que estão ficando para trás no combate à pandemia. 

O relatório do fundo explora não apenas as diferenças entre nações, mas também como a recessão econômica tem ampliado desigualdades sociais dentro de cada país, com trabalhadores jovens e de baixa qualificação mais afetados nas nações ricas, emergentes e pobres. Nos países em desenvolvimento, mulheres estão menos empregadas do que os homens, destaca Gita.

A recomendação do FMI é que os países mantenham política econômica que contenha os danos persistentes da recessão. Sem a resposta dada por governos em todo o mundo para socorrer empresas e cidadãos, o colapso econômico do ano passado poderia ter sido três vezes pior, diz o FMI. A prioridade, também segundo o fundo, deve ser o gasto com a saúde: produção e distribuição de vacinas, tratamentos e infraestrutura sanitária, junto de apoio fiscal a famílias e companhias.

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