Gabriela Biló/Estadão
Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica do Ministério da Economia.  Gabriela Biló/Estadão

Secretário de Guedes diz que alta do IPCA é passageira e que inflação terminará o ano na meta

Adolfo Sachsida afirmou que inflação vai ceder com o governo 'fazendo a sua parte'; índice ficou em 0,83% em maio e já acumula aumento de 8,06% em 12 meses

Adriana Fernandes , O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2021 | 12h06

BRASÍLIA - O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, disse ao Estadão que está seguro de que a alta do IPCA, índice oficial de preços, será passageira e que o índice terminará ano dentro da meta de inflação, com o trabalho do Banco Central e o avanço da agenda de reformas.

Para ele, a inflação mais alta, divulgada nesta quarta-feira, 8, reforça a necessidade de “ancoragem” das expectativas do lado fiscal (contas públicas) da economia e de avanço na agenda de reformas pró-mercado. “A agenda de privatizações e concessões e abertura econômica é um poderoso estímulo ao aumento da concorrência, melhora da eficiência econômica e redução de preços ao consumidor”, ressaltou. 

A inflação surpreendeu em maio e ficou mais alta do que o esperado. O IPCA apresentou alta de 0,83% em relação ao mês anterior, no maior resultado para o mês em 25 anos. A média esperada era de 0,71%. Em 12 meses, a inflação está rodando em 8,06%.

O secretário disse que o processo de consolidação fiscal produz o ambiente necessário para ancorar expectativas e manter estável a trajetória inflacionária. Ele contestou a avaliação de que a inflação mais alta facilita o ajuste fiscal ao turbinar as receitas. “Inflação não ajuda, sempre atrapalha. No médio prazo, isso tudo é perdido com uma estrutura produtiva prejudicada pela inflação e pela indexação dela decorrente”, justificou. Sachsida disse que a inflação vai ceder com o governo “fazendo a sua parte”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Inflação está alta, disseminada e duradoura; entenda motivos e o impacto disso para a economia

IPCA chega a 0,83% em maio, o maior para o mês em 25 anos; índice já acumula aumento de 8,06% no período de 12 meses, segundo o IBGE

Daniela Amorim, Thaís Barcellos e Cícero Cotrim , O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2021 | 09h14
Atualizado 09 de junho de 2021 | 18h29

RIO e SÃO PAULO - A inflação  deu mais um salto no mês passado e levou o mercado a aumentar o nível de preocupação com seu avanço. Sob pressão de preços monitorados pelo governo, como a energia elétrica e os combustíveis, mas também de aumentos acima do previsto em outros itens da cesta de consumo das famílias, o IPCA, índice oficial de inflação do País, ficou em 0,83% em maio, maior resultado para o mês desde 1996, segundo os dados divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira, 9.

Os analistas alertam que a inflação está mais alta, mais disseminada e mais duradoura do que se estimava anteriormente. O resultado de maio ficou acima até mesmo das previsões mais pessimistas de economistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que projetavam uma inflação entre 0,65% e 0,76%. A taxa acumulada pelo IPCA em 12 meses subiu a 8,06% em maio, ante uma meta de inflação de 3,75% perseguida pelo Banco Central ao fim deste ano (com margem de tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos).

Com esse resultado, os economistas estão revisando para cima suas previsões de inflação para o ano e também elevando as estimativas para a taxa de juros - a ferramenta usada pelo Banco Central para tentar conter a alta de preços. “O índice está alto e causa preocupação. Isso deve levar o Banco Central a continuar a subir a taxa de juros”, disse o economista-chefe do Banco Itaú, Mário Mesquita. A Rio Bravo Investimentos elevou sua projeção para a taxa Selic de 6,25% para 6,50% este ano.

"A inflação mais pressionada parece mais duradoura. Na verdade, está havendo espalhamento. Vemos, pela difusão, que não é concentrado em um item só. O índice de difusão (que aponta a distribuição da inflação pelos diferentes tipos de produtos) ficou em  64% em maio e está rodando acima de 60% nos últimos três meses. Essa questão de custos está muito espalhada em toda cadeia. Os problemas na cadeia de suprimentos impactam a produção de diversos itens", diz Tatiana Nogueira,  economista da XP Investimentos. Ela também acredita agora numa taxa Selic de 6,5% ao fim deste ano. Antes, a aposta da XP era de que esse nível só seria atingido em 2022.

 

 

​“O problema, aqui, é que todo mês a gente está apontando uma surpresa, e ela vem sistematicamente”, ressaltou o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez. “Ainda que a surpresa tenha sido concentrada em combustíveis e alimentação fora do domicílio, no nosso caso, eu estou prestes a revisar o cenário de inflação para cima.” 

Após a surpresa com o IPCA de maio, a LCA Consultores já elevou a projeção para a inflação de 2021, de 5,50% para 5,80%, se distanciando cada vez mais do teto de tolerância da meta, de 5,25%. Além da taxa mais "salgada" em maio, a consultoria cita pressões derivadas direta e indiretamente da energia elétrica. No mês passado, a LCA já tinha elevado a projeção para o IPCA de 5,0% para 5,50%, por conta do cenário hídrico mais desafiador, à alta mais forte de commodities e à expectativa de aquecimento maior da atividade no segundo semestre.

“O quadro qualitativo da inflação está realmente muito preocupante”, disse o economista do Banco ABC Brasil Daniel Lima, que já espera uma “revisão relevante” do cenário de inflação do banco para 2021, de 5,4% para perto de 6%. “Os serviços tiveram deflação menor do que o esperado (-0,15%), puxados pela alta da alimentação fora do domicílio (0,98%). Em tese, essa parte deveria ajudar mais, deixando a inflação em um modo mais moderado”, acrescentou.

A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, deve elevar um pouco menos sua projeção para o IPCA de 2021, de 5,30% para 5,40%. Embora reconheça que o resultado final do ano ainda possa ser um pouco mais elevado, ela espera que a recente valorização do real ante o dólar ajude a conter aumentos de preços no segundo semestre deste ano.

"O cenário de inflação se deteriorou nos últimos meses. Ressaltamos que ainda é muito concentrado em bens comercializáveis, um choque de oferta. É uma inflação mais alta que vem de vários choques. Ainda perdura, porque a economia não se normalizou", disse Vitória.

Em maio, a energia elétrica subiu 5,37%, devido à entrada em vigor da bandeira tarifária vermelha patamar 1, que aumenta a cobrança adicional sobre a conta de luz, em substituição à bandeira amarela em vigor em abril. Além da mudança na bandeira tarifária, ocorreram reajustes em diversas regiões pesquisadas, apontou o IBGE.

As famílias também gastaram mais com o gás encanado e o gás de botijão, que já acumula uma alta de 24,05% em 12 meses consecutivos de aumentos.

A gasolina subiu 2,87% em maio, acumulando um aumento de mais de 45% em 12 meses. Apenas as altas da gasolina e da conta de luz responderam por quase metade da inflação do mês. Também houve elevação nos preços do gás veicular, etanol e óleo diesel.

Na alimentação, as frutas ficaram mais baratas, mas houve nova rodada de altas nos preços das carnes e da alimentação fora de casa. Também pesaram mais no bolso do consumidor os medicamentos, plano de saúde, itens de vestuário e artigos de residência.

Sem pressão de demanda

Apesar dos aumentos disseminados, ainda não há sinais de pressão de demanda sobre a inflação, defende Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE. Segundo o pesquisador, embora haja um cenário de recuperação da economia, o mercado de trabalho ainda mostra desemprego elevado e renda comprimida.

“Não dá para falar em inflação de demanda não. Ainda temos um contexto de desemprego alto e renda comprimida”, ressaltou Kislanov. “Serviços tiveram queda.”

Dentro do IPCA, a inflação de serviços - usada como termômetro de pressões de demanda sobre a inflação - arrefeceu de uma alta 0,05% em abril para uma deflação de 0,15% em maio, sob influência da queda nas passagens aéreas (-28,33%), mas também de itens importantes no orçamento das famílias, como aluguel residencial (-0,20%) e condomínio (-0,24%).

“Por outro lado, teve aceleração em alimentação fora e transporte por aplicativo, que vinha de uma queda expressiva. A gente tem notado que esse item tem uma relação forte com as medidas restritivas da pandemia, ele tende a ter deflação. Quando há melhora do cenário e maior mobilidade das pessoas, a gente tem uma maior alta de preços”, afirmou Kislanov.

Influência do auxílio emergencial

Para o gerente do IBGE, ainda não há clareza sobre a influência da volta do pagamento do auxílio emergencial sobre a inflação, mas é possível que o retorno do benefício tenha gerado uma demanda por bens pontuais, em atividades como vestuário, artigos de residência e alimentos, que tiveram alta de preços em maio.

“Pode ter algum efeito, algumas famílias podem direcionar esses recursos para a compra desses itens, mas não tenho como afirmar que isso está acontecendo”, disse Kislanov. “De maneira geral, como a gente teve alta em grupos que vinham em queda, como vestuário e artigos de residência, pode haver alguma influência do auxílio emergencial”, afirmou.

A inflação de itens monitorados pelo governo acelerou de 0,38% em abril para 2,11% em maio. A contribuição dos bens e serviços monitorados sobre a inflação de maio foi de 0,55 ponto porcentual, ou seja, cerca de 66% do IPCA.

“Foram, principalmente, os administrados que pesaram neste mês (sobre o IPCA): energia elétrica e gasolina”, garantiu Kislanov.

O índice de difusão do IPCA, que mostra o porcentual de itens com aumentos de preços, desceu de 66% em abril para 64% em maio. A difusão de itens alimentícios caiu de 67% em abril para 60% em maio, enquanto a difusão de itens não alimentícios subiu de 64% para 68%.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Inflação alta pode contribuir para acentuar queda do dólar ao forçar aumento nos juros

Alta de juros pode acabar atraindo mais dólares para investimentos no País; depois de fechar em R$ 5,80 e março, o dólar terminou esta quarta-feira, 9, cotado a R$ 5,0692, alta de 0,7%

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2021 | 18h27

BRASÍLIA - A inflação em maio mais alta do que a esperada favorece o movimento de queda do dólar frente ao real. O IPCA, índice oficial de inflação, mais salgado pode pressionar o Banco Central a acelerar a alta de juros e, assim, acabar atraindo mais dólares para investimentos no País.

“A inflação mais alta no curto prazo deve ser um fator a ajudar na apreciação do real pelo canal de juros, mas é apenas um vetor a influenciar a taxa de câmbio. São muitos vetores e não podemos colocar todas as fichas em apenas um”, avaliou Livio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE-FGV) e sócio da consultoria BRGC.

Fatores externos e internos explicam o movimento de queda da moeda americana nos últimos dias. Depois de fechar em R$ 5,80 e março, o dólar terminou esta quarta-feira, 9, cotado a R$ 5,0692, alta de 0,7%.

Para Ribeiro, o que mais tem influenciado tem sido o recuo das taxas dos títulos dos Estados Unidos (treasuries) com prazo mais longo de vencimento. “O Fed (Banco Central norte-americano) tem botado um pouco mais de água na fervura ao mostrar que a elevação de juros americanos, que o mercado tinha na cabeça, não virá tão rápida”, disse o economista do IBRE. 

Ele ressaltou, porém, que está no radar o início da normalização de política monetária global e, consequente, redução dos estímulos adotados pelos países durante a pandemia da covid-19. Esses estímulos levaram os bancos centrais em todo mundo a injetarem dinheiro na economia como resposta ao combate do impacto da pandemia, aumentando o crédito e reduzindo os juros. Ribeiro destacou que esse processo vai influenciar os juros no mundo inteiro e impactar outros preços, como das commodities, produtos básicos, como petróleo, grãos e minério de ferro. 

Ao analisar os dados dos fatores que influenciaram o movimento do câmbio, Ribeiro discorda da avaliação recente de muitos economistas de que o dólar mais baixo reflete uma “descompressão” do risco fiscal por conta dos sinais de melhora na economia, como previsão mais baixa de dívida pública e crescimento mais alto do que o inicialmente previsto do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021.

“A melhora do câmbio teve influência de vários fatores que nada tem a ver com a  situação fiscal”, explicou. Segundo ele, o que o seu modelo matemático de análise do câmbio mostra que a apreciação do real frente ao dólar é motivada por uma boa maré de fatores globais, como ao aumento dos preços das commodities, recuo dos títulos americanos e grande liquidez internacional. Ele acrescentou que melhorar a dinâmica da dívida pela alta da inflação não representa uma descompressão do risco fiscal, mas um “caminho errado” para a economia brasileira.

Para ele, há espaço para o dólar cair abaixo de R$ 5. Mas é preciso ficar de olho nos fatores de risco que poderem afetar esse caminho, sobretudo os ventos da política de juros global.

Apetite

O diretor de Estratégias Públicas do Grupo MAG, Arnaldo Lima, destacou que a recuperação da atividade econômica mundial em 2021 gera maior apetite a risco dos investidores estrangeiros para injetar capital nos países em desenvolvimento, cujas expectativas de retorno financeiro podem ser maiores do que a dos países desenvolvidos.

Segundo ele, o real não é a única moeda de países emergentes que está se apreciando frente ao dólar. Mas para que esse movimento positivo seja duradouro, o Brasil precisa ter vantagens comparativas, especialmente no equilíbrio das contas públicas e no controle da inflação.

“A recuperação da atividade econômica mundial está refletindo diretamente na elevação do preço das commodities. Como temos forte concentração de commodities na pauta de exportação, ciclos de alta nos preços internacionais historicamente se traduzem em apreciação do real”, disse.

O aumento exponencial dos preços das commodities em 2021 já refletiu positivamente na redução do déficit de transações correntes de 40%, em abril do ano passado, para 10% em abril deste, no acumulado em 12 meses, em grande medida, explicado pela elevação do superávit da balança comercial.

A melhora substancial no balanço de pagamentos tem impactado na depreciação do dólar frente ao real nos últimos meses. Ressalta-se que o dólar está bastante acima da média histórica em termos reais, mas abaixo do pico observado em 2002. Lima destaca que, desde maio, as expectativas do mercado registram depreciação do dólar, com perspectiva de R$ 5,30 em 2021, mas esse movimento acabou sendo  antecipado para abril. “Contratos de futuro de dólar com vencimento em julho e dezembro de 2021 também indicam tendência de apreciação do real em relação ao mês de maio”, afirmou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Inflação se espalhou, mas ainda não há descontrole de preços, diz economista da FGV

Para André Braz, IPCA pode fechar o ano acima de 6% e desaceleração só virá com a valorização do real; índice ficou em 0,83% em maio

Entrevista com

André Braz, coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV)

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2021 | 15h03

O salto de meio ponto porcentual na inflação de abril para maio, passando de 0,31% para 0,83%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), não surpreendeu o economista André Braz, coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV), mas trouxe uma informação importante. Ao contrário do ano passado, quando a alta de preços estava concentrada em alimentos, neste ano, ela avança e se espalha também para outros grupos: os preços administrados e os bens duráveis.

Apesar da disseminação da inflação, o economista não vê uma situação de descontrole, porque, neste momento, a pressão é resultado de alta de custos. O desafio, diz Braz, está posto para os próximos meses. Com o reaquecimento da economia, que já apareceu no desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, pode haver um aumento do consumo. 

“Esse aquecimento da economia, se, por um lado, contribui para redução da taxa de desemprego, por outro, pode sustentar uma demanda maior que, mesmo num contexto de aumento menor dos preços das commodities, pode promover alguma inflação de demanda”, diz.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. vê o resultado do IPCA de maio?

A gente já previa uma participação maior de preços administrados na inflação de 2021 e isso vem se concretizando. O mundo está aquecendo e esse aquecimento puxa o consumo de petróleo e derivados, por exemplo. Na esteira tem essa crise hídrica, com reflexo direto na geração de energia. Há também aumentos de preços administrados na linha de medicamentos, que alcançaram aumentos mais fortes este ano por força da desvalorização cambial, que afeta os custos de produção.

Está havendo um espalhamento maior da inflação neste ano?

Tem havido uma difusão maior da inflação. Ela continua presente entre os alimentos, sobretudo as carnes, e se espalha para bens duráveis. Percebemos encarecimento de automóveis, eletrodomésticos da linha branca, geladeiras, fogão, eletroeletrônicos, computadores, e se espalha também nos preços administrados. Então, alimentos, bens duráveis e preços administrados estão subindo mais do que no ano passado. Estão ajudando a difundir essa inflação. O único setor que não foi afetado foi o de serviços, porque segue em funcionamento parcial por causa da pandemia e a renda das famílias foi muito afetada pelo desemprego. Serviços livres estão caminhando mais lentamente, estão com uma inflação pouco acima de 2%. Em termos reais é um setor que nem inflação tem.

O fato de a inflação estar mais espalhada este ano em relação ao ano passado evidencia um descontrole?

Não seria bem um descontrole porque não é através da demanda que essa inflação vem se espalhando. É através do custo. Minério de ferro, cobre, alumínio, milho, soja, por exemplo, que são matérias primas para a produção de alimentos e de bens duráveis não param de subir, seguindo na esteira do aquecimento da economia mundial, puxado pelos Estados Unidos e China, principalmente. Como as cadeias produtivas demoram para se mobilizar, isso acaba criando um gargalo que ajuda no aumento de preços. Para ser considerada descontrolada precisaria de um combustível mais forte que viria da demanda.

Qual a tendência da inflação para os próximos meses?

No segundo semestre, devemos passar para um cenário um pouco melhor, porque esses aumentos recentes na taxa de juros já promoveram alguma valorização do real. E existe uma possibilidade de o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) fazer mais movimentos de alta da Selic (taxa básica de juros) até o final do ano. Isso vai contribuir para novas valorizações da moeda, que podem ajudar a enfrentar esse aumento de preços. Se por um lado os preços sobem, por outro a nossa moeda ganha valor e isso ajuda a mitigar o impacto do aquecimento global sobre a nossa inflação. A nossa exposição a uma inflação forte, como ainda estamos expostos, tende a diminuir até o final do ano. Isso não significa que vamos ter  inflação baixa. Na nossa conta, vamos ter uma inflação muito acima da meta. Podemos ter um IPCA acima de 6%, algo como 6,3% no fim do ano. Mas a desaceleração virá com a valorização da nossa moeda.

Qual é o desafio para os próximos meses?

O nosso maior desafio é que a economia já começou a aquecer e o resultado do PIB do primeiro trimestre mostra isso. Esse aquecimento, se por um lado, contribui para redução da taxa de desemprego, por outro, pode sustentar uma demanda que, mesmo num contexto de aumento menor das commodities, pode promover alguma inflação de demanda. Isso porque os custos foram inflados, as matérias primas subiram mais de 70%, e as margens estão apertadas. Num contexto de demanda mais forte, a indústria pode repassar custos para recuperar margem, o que pode contribuir para a aceleração da inflação.

Qual o remédio para conter esse movimento?

Daí a importância da política monetária. Temos de começar aumentar os juros agora, não pensando em 2021, mas 2022, criando um desestímulo ao consumo que pode afetar os preços e acelerar a inflação. Desta forma, vamos construir um cenário mais favorável para, quem sabe, em 2022, cumprir a meta.

Qual é a eficácia da alta de juros para conter a inflação hoje, que pega alimentos, administrados e bens duráveis?

É muito pequena, porque boa parte dessa inflação não vem da demanda, mas de pressões de custos. Existe uma parte da inflação que pode ser temporária, que é a energia. Movimentos da bandeira tarifária vão depender do volume de chuvas nos meses à frente. Os outros efeitos estão ligados ao aquecimento da economia mundial. Isso deve sustentar preços em alta por algum tempo. Mesmo que a demanda não esteja aquecida, essa tendência deve se materializar em taxas acima do normal no nosso País. Se aumentarmos juros agora, não é para conter o ajuste dos preços em 2021, até porque a política monetária faz efeito entre seis e nove meses à frente.

Qual é o impacto de a inflação ter se espalhado para além dos alimentos, isto é, pegando os preços administrados e bens industriais?

A inflação neste ano desafia mais as famílias humildes. Todos os preços que estão subindo castigam os que foram mais afetados pela pandemia e os que ficaram mais expostos ao desemprego. Mesmo que a inflação em 12 meses desacelere no segundo semestre, vamos ver essas famílias passando muito aperto, porque o desemprego não vai diminuir da noite para o dia, ainda mais com aumentos de juros. Não vamos ver  uma desaceleração rápida nos preços de alimentos e de administrados. Quem é pobre vai continuar sofrendo tanto pela falta de emprego como pelo aumento da inflação. E a falta de emprego amplia a percepção de que a inflação está maior, porque o indivíduo não tem renda. Os mais ricos vão se defender de uma forma melhor.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.