Marcelo Camargo/Agência Brasil 27/2/2020
Marcelo Camargo/Agência Brasil 27/2/2020

Secretário do Tesouro diz que não é normal um País como o Brasil crescer 1% ao ano

Mansueto Almeida afirmou que não dorme tranquilo e que o PIB de 2019 causa frustração; comentário contraria fala do ministro Paulo Guedes, que disse que o resultado era o esperado pelo governo

Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 10h28

BRASÍLIA - O Secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, afirmou nesta quinta-feira, 5, que o País está passando por “enormes dificuldades” e disse não ser “normal” que uma nação como o Brasil cresça 1% ao ano. O resultado do PIB de 2019, divulgado na quarta-feira, apontou que a economia brasileira cresceu apenas 1,1%

“Estou muito preocupado, não durmo tranquilo, não é normal um País como o Brasil crescer 1% ao ano, claramente causa frustração em vários segmentos da sociedade”, disse Mansueto durante abertura do Fórum Consad, em Brasília. 

Na quarta, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o resultado do PIB era esperado pelo governo, e que não havia entendido a “comoção” com os números. "Estou surpreso com a surpresa que vocês estão tendo”, disse à imprensa ao fim de cerimônia no Palácio do Planalto

A declaração de Mansueto foi dada em um momento em que o secretário frisava ser importante chegar a um consenso sobre o que o Brasil precisa fazer para ter um crescimento maior, através de debate e transparência. “Ninguém é obrigado a concordar com tudo que é feito, mas o bom debate político é sentar à mesa e discutir”, disse Mansueto. Segundo ele, ninguém defende medidas como o aumento de impostos e da complexidade do sistema tributário, por exemplo.

O secretário também citou o comentário feito pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sobre o PIB, quando ressaltou a importância da participação do Estado no desenvolvimento do País. Para ele, o que Maia quis dizer é que preciso criar espaço nas contas públicas para aumentar investimento público.

“Todo mundo quer ajuste fiscal para aumentar investimento público. Investimento público no Brasil é muito baixo”, disse, frisando a importância das reformas.

Ele afirmou que o motor do crescimento brasileiro é o setor privado. “Um país que tem alta carga tributária como o Brasil, normalmente tem investimento público muito maior que o nosso. Naturalmente, com ajuste fiscal, é para controlar despesa corrente para o governo recuperar capacidade de investir. Mas o motor é o investimento privado”, frisou.

Ainda na quarta, ao explicar a declaração, Maia disse ao Estadão/Broadcast que defende as reformas para que o Estado brasileiro tenha como abrir capacidade de investimento.

O secretário não quis dar previsão de crescimento do PIB para esse ano, explicando que, se falasse em algum número, seria um “mero chute”. O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem dito ser possível crescer acima de 2%, com o avanço nas reformas.

Ele negou que o resultado do quarto trimestre - que mostrou uma queda no investimento e uma alta no consumo do governo -, indique uma reversão da tendência de crescimento puxado pelo privado. 

“No fim do ano teve dados muito contraditórios, mas se a gente olha o ano, é basicamente o que já vinha falando, o crescimento está sendo puxado pelo setor privado, ano passado o investimento já cresceu em relação ao ano anterior. Tem só que consolidar isso num ritmo mais acelerado”, disse.

Mansueto afirmou que o Brasil tem feito conquistas importantes e que a situação do País melhorou muito. Para avançar, ele ponderou que é preciso ter “calma e transparência” e aprofundar o debate político, respeitando divergências.

O secretário também rejeitou a ideia de que o Congresso estaria atrasando o andamento das reformas. “Não está atrasando, está debatendo, está no seu timing”, disse, emendando ser importante que o governo estabeleça um diálogo cada vez mais transparente com o Parlamento e com a população sobre as escolhas que estão sendo feitas. “Temos que ter esforço maior para tornar mais claro para a população quais são as escolhas que estamos fazendo.”

Mansueto acredita que o Congresso está aberto ao debate e que há um ambiente muito mais favorável para discussões. Como exemplo, citou o projeto de independência do Banco Central. “Nem todo mundo precisava concordar com independência do Banco Central, mas hoje se pode debater”, disse, destacando que não via isso há muito tempo.

Sem previsão de novos bloqueios

Perguntando ainda se um novo bloqueio de recursos estaria em estudo, Mansueto respondeu que não, e explicou que o governo ainda não definiu novas estimativas de crescimento. “Uma vez que a gente tiver os novos parâmetros de crescimento de PIB, inflação, preço de petróleo, isso é enviado a Receita que faz a projeção, e aí tem que ver o efeito nisso tudo”, disse. 

O secretário também mostrou preocupação com o desaquecimento global da economia e os efeitos para o Brasil. "Eu durmo preocupado, entre outras coisas, por não saber como vai acontecer com o crescimento do mundo. A gente sabe o que é a China crescendo 6%, 7% ao ano. Não sabemos o que é a China crescendo 3% ao ano. O que vai acontecer com o mundo num cenário de crescimento baixo, num cenário em que você ainda está numa fase de recuperação, assusta", disse, lembrando que isso tem impacto para o Brasil.

Ontem, ao falar sobre o cenário global, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o País não é “uma folha ao vento do comércio internacional”, e que o Brasil está "fora de fase" com os países que veem seu crescimento ser reduzido. "Agora o mundo começou a desacelerar e nós estamos reacelarando, estamos fora de fase com eles", disse Guedes.

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