Secretário do Tesouro pode ser aposta certa na hora errada

No seu segundo mandato, no final dos anos 90, o ex-presidente americano Bill Clinton navegou nas turbulentas águas da economia internacional com a ajuda dos experientes timoneiros Alan Greenspan (presidente do Banco Central) e Robert Rubin (Secretário do Tesouro). Foi um longo período de crescimento e de redução do déficit fiscal. Agora é a vez de George W. Bush singrar mares perigosos no seu segundo e último mandato.Nesta jornada, ele conta com a assistência de uma nova dupla. Ben Bernanke assumiu o Banco Central em fevereiro e, na terça-feira, o presidente indicou Henry Paulson para comandar a economia.O nome do experiente banqueiro Paulson foi bem recebido nos meios econômicos e políticos. O mesmo aconteceu no caso de Bernanke, mas agora há inquietação sobre a determinação do presidente Banco Central para combater a inflação e habilidade para comunicar o que quer fazer com os juros. Com Paulson, que aceitou o cargo após meses de relutância, resta saber se ele terá realmente condições de influenciar o processo decisório e se o próprio governo Bush ainda tem capital político para fazer alguma coisa.Marketing Para a Casa Branca, a tarefa suprema de Paulson será de marketing. A expectativa é de que ele tenha êxito onde o demissionário secretário do Tesouro John Snow fracassou: vender o que o governo considera uma bem-sucedida política econômica para um país descontente e inseguro sobre o futuro. E deve ser uma eficiência a toque de caixa diante do descrédito sem precedentes do governo Bush (inclusive na economia), com a eleição para o Congresso cada vez mais perto e as perspectivas do partido situacionista perder pelo menos o controle da Câmara.Mas os desafios são bem mais complicados. Não se trata apenas de um problema de vender um bom pacote econômico. É verdade que existem números robustos. A economia cresceu 5,3% no primeiro trimestre e a taxa de desemprego de 4,7% é de causar inveja a ricos países europeus. Mas a pesquisa Wall Street Journal/NBC mostrando que 77% dos americanos estão preocupados com o estado da economia tem fundamento. Há problemas conjunturais como a alta dos preços da gasolina e outros mais estruturais. Por exemplo, uma análise do Economy Policy Institute (crítico de políticas econômicas conservadoras) revela que a fatia da renda doméstica para os lucros corporativos subiu 4,5% desde 2001, enquanto o naco da compensação salarial encolheu 2%.A inquietação nacional vai longo e vai fundo. Um governo que prega fanaticamente o corte de impostos (e Paulson sempre foi arauto desta política em Wall Street) está diante de amargas questões no departamento de gastos, em particular nos programas de seguridade social e saúde.E se levarmos em conta obrigações com defesa, é difícil visualizar um buraco fiscal menos medonho (o déficite orçamentário é da ordem de US$ 300 bilhões). São tendências insustentáveis, mas, como advertiu o Wall Street Journal na quarta-feira, não existem soluções fáceis ou margem de manobra para medidas de peso antes das eleições de novembro.Desafios Assim que for confirmado pelo Senado (o que é dado como certo), Paulson partirá de Nova York para Washington. Não será pelo dinheiro e, se é para provar brilho econômico, não faltarão desafios. Na frente internacional, são vários os desequilíbrios. O destaque é a fraqueza do dólar, mas é difícil imaginar, como no caso dos desafios domésticos, fáceis soluções. O dólar caiu mais de 7% nos últimos cinco meses e segue sob pressão face ao déficit comercial americano, em particular em relação à China. O governo Bush faz malabarismo. Insiste que favorece um dólar forte, mas precisa dele fraco (e a contrapartida da apreciação da moeda chinesa) para domar seu déficit comercial.Até agora o declínio do dólar tem sido gradual, mas o cenário financeiro internacional se revela cada vez mais volátil. Com um dólar em queda livre, investidores globais poderiam se desfazer de títulos americanos, o que forçaria uma alta dos juros e recessão da maior economia do mundo.Uma das razões da escolha de Paulson é sua experiência na selva financeira e familiaridade com a China (ele viajou para o país mais de 70 vezes desde 1990). Os solavancos do dólar e o comércio com o gigante asiático podem dominar o mandato de Paulson à frente da economia americana.Curiosamente, se for bem sucedida, será uma trajetória similar à de Robert Rubin, outro chairman do grupo de investimentos Goldman Sachs que foi secretário de Tesouro. Já para Bush, o desafio ingrato será terminar o segundo mandato em alta, como foi o caso de Bill Clinton.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.