Seculus resiste ao tempo e aposta em novas áreas

Depois de deixar o ramo de joias, grupo criado há 50 anos investe em relógios, banco, incorporação imobiliária e reflorestamento

Ivana Moreira, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2010 | 00h00

BELO HORIZONTE

Enquanto parte da família acompanhava a inauguração de Brasília pelo rádio da sala, oito irmãos Azevedo redigiam, sentados sobre as camas de um dos quartos, o primeiro estatuto do que viria a ser um dos grupos mais tradicionais de Minas Gerais: o Grupo Seculus. Jairo, o líder dos irmãos, tinha 22 anos. O mais novo, Élcio, apenas 12.

O tempo foi generoso com os meninos. Cinquenta anos depois, eles ainda continuam sócios, feito raro no mundo corporativo. O grupo, que já foi forte no ramo de joias, tornou-se um dos maiores fabricantes de relógios do País. Os Azevedo ainda são donos do Banco Semear, da incorporadora Gran Viver e da empresa de tecnologia Prime Sistems. Agora, se preparam para entrar no setor de reflorestamento.

Há cinco anos, o grupo deixou o negócio de joias para apostar nos relógios. Na ocasião, comprou a marca Mondaine e passou a distribuir com exclusividade modelos de grifes como Dolce&Gabbana e Guess. "A rentabilidade de joias passou para o varejo e caiu na indústria. Já estávamos tendo prejuízo há quatro anos quando resolvemos fechar a indústria", justifica Alexandre Azevedo, presidente do grupo e um dos membros da segunda geração que chegaram ao comando.

Desde então, a Seculus vem aumentando sua participação no mercado. Há cinco anos, tinha apenas 10% das vendas, enquanto a líder Technos abocanhava 32%. Em 2009, essa distância diminuiu. Enquanto a fatia da concorrente manteve-se inalterada, a Seculus passou a ter 22% de participação, de acordo com dados do polo relojoeiro da Zona Franca de Manaus.

"Não temos obsessão por liderança, mas por continuar crescendo mais que a média para aumentar nossa participação", diz Alexandre. Em 2009, a Seculus produziu 1,6 milhão de peças. Neste ano, a meta é atingir um faturamento de R$ 150 milhões. Para isso, será preciso crescer 35% ? acima do crescimento médio previsto para a indústria nacional de relógios, que é de 25%.

Embora tenha perdido espaço para os telefones celulares, os relógios passaram a ser encarados pelos consumidores como acessórios de moda. Graças a essa mudança de comportamento, o setor vive um momento de expansão no Brasil. Em 2008, o faturamento do polo de Manaus, que reúne as seis maiores indústrias (Technos, Seculus, Oriente, Dumond, Magnum e Citzen), cresceu 27%. No ano passado, mesmo com o impacto da crise, o setor saiu-se melhor que o previsto, crescendo 4%.

Diversificação. Membros de uma família numerosa, de 12 filhos, os Azevedo começaram a trabalhar muito para ajudar os pais no sustento da família. Juntos, venderam de tudo um pouco: de foguetes nas festas de São João a quadros com imagens de santos. Em 1960, quando registraram a primeira sociedade formal, o objetivo era vender joias.

Jairo Azevedo, o dono da ideia, ficou com 51% do capital. Cada um dos sete irmãos ? Ílvio, Guta, Maria José, Márcio, Aguinaldo, Arthur e Élcio ? ficou com 7%. "Enfrentamos sucessos e insucessos. Brigamos por ideias, mas jamais brigamos por causa de dinheiro", explica Arthur Azevedo, 67 anos e há oito presidente da holding do grupo.

Os Azevedo chegaram a ter 30 empresas constituídas, nos mais diferentes segmentos. Segundo Arthur, "não colocar todos os ovos na mesma cesta" é outro lema familiar que os irmãos sempre levaram muito a sério.

O banco Semear, que começou como financeira e virou banco há três anos, tem uma carteira total de crédito de R$ 350 milhões. A maior parte das operações ainda está concentrada no crédito consignado. Mas a meta da instituição é crescer oferecendo crédito direto ao consumidor (CDC) para pequenos e médios lojistas.

Na Gran Viver, o banco de terrenos espalhado por várias cidades de Minas Gerais é suficiente para o lançamento de 15,7 mil unidades, o que equivale a um valor geral de vendas (VGV) de cerca de R$ 1 bilhão. A empresa foi uma das primeiras a apostar na expansão ao norte de Belo Horizonte, na direção do Aeroporto de Confins, quando o governo de Minas anunciou planos de investimento para a região. "Agora, estamos preocupados com os próximos 50 anos", diz Arthur Azevedo.

O grupo se prepara para investir num segmento totalmente novo, de plantação de eucalipto. Depois de passar três anos estudando o mercado, a primeira fazenda da Natureza Reflorestamento foi comprada em Pirapora (MG). A meta é plantar 10 mil hectares numa primeira fase. "Será uma colheita para a terceira geração", brinca o presidente do grupo que, em breve, cederá seu lugar para o irmão Márcio, de 64 anos.

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