Seis meses de corralito não evitaram crise

O governo argentino já desenhou o novo plano com que espera poder começar a desmantelar o corralito financeiro que o ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo, impôs há seis meses, em 3 de dezembro do ano passado. Com o novo decreto assinado na noite de sexta-feira última, o presidente Eduardo Duhalde aponta para a descompressão do agudo descontentamento social diante dos 63 bilhões de pesos que os poupadores viram retidos nos bancos, fato que influiu grandemente não só para a crise político-social do país, mas também para a impossibilidade de regenerar a economia e reconstruir o sistema financeiro local. Os argentinos acreditavam, no dia 3 de dezembro do ano passado, estar despertando para mais uma manhã de calor em pleno verão. Muitos, possivelmente, continuariam planejando nesse dia as férias de janeiro, mês preferido para encher as praias do litoral de Buenos Aires. Desde essa semana, no entanto, acabaram-se as férias, as economias, o salário e a compras de Natal. Tudo. O governo do então presidente Fernando de la Rúa, começou a aplicar, desde esse dia, o temidíssimo corralito financeiro, congelando os depósitos dos poupadores e estabelecendo limites semanais para a retirada de fundos. Fracasso de CavalloDepois de três anos de recessão, a situação social já era em si bastante grave. A isso se somava um fracasso reiterado do ministro Cavallo em reativar a economia, e um enfraquecimento político crescente do presidente. O corralito foi a última gota d´água no copo, que fez transbordar o descontentamento social e, na noite de 19 de dezembro, os argentinos inauguraram a original forma de protesto do panelaço, encheram a mítica Plaza de Mayo, derrubaram a gestão de De la Rúa. Era o fim da aliança de centro-esquerda no poder. A insustentável situação econômica e social do país gerou uma curiosa disputa no seio do poder: longe de querer assumir o governo de um período de transição até as eleições presidenciais previstas para 2003, os principais árbitros do poder passavam a bola uns para os outros. Durou uma semana o governador de San Luis, Adolfo Rodríguez Saa, que foi substituído, no final de dezembro, pelo ex-governador do principal distrito do país, Buenos Aires, o justicialista (peronista) Eduardo Duhalde, designado pelo Congresso. Entre presidentes renunciantes, interinos, designados e Duhalde, a Argentina teve cinco mandatários em poucos dias. Procurando diferenciar-se de De la Rúa, acusado de falta de decisão para sair da conversibilidade que manteve o peso e o dólar atrelados de forma fixa durante dez anos, Duhalde eliminou esse sistema cambial para substituí-lo, primeiro por uma paridade 1 dólar/1,40 pesos e depois aplicar a livre flutuação do peso, com intervenções do Banco Central. O novo presidente declarou o default de uma vultosa dívida pública e esperou tempos mais propícios para enfrentar uma nova negociação com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que lhe permitisse embolsar os 9 bilhões de dólares pendentes de recebimento do último acordo, e com esperança de obter dinheiro novo. PesificaçãoO corralito foi instituído para impedir a quebra do sistema financeiro, ante uma corrida aos bancos, e evitar uma crescente falta de liquidez. Muitas coisas ocorreram desde aquele 3 de dezembro de 2001, mas os problemas de fundo da Argentina não deixaram de aumentar. O corralito se transformou num constante problema político, econômico e social para o governo, que complicou as coisas em fevereiro, ao decidir por uma pesificação assimétrica dos depósitos e créditos concedidos. Assim, os depósitos foram pesificados ao câmbio de 1,40 pesos por dólar, ao passo que os créditos concedidos pelos bancos receberam um tratamento ao par (1 por 1). A diferença, 20 bilhões de dólares, seria paga pelo governo aos bancos, em títulos. O corralito foi estabelecido para evitar e interromper a saída de depósitos, que seriam trocados por dólares ou transferidos diretamente para o exterior. Mas a sangria de depósitos continuou, apesar do corralito, anuviando cada vez mais a situação dos bancos. A comparação entre dados de dezembro de 2001 e maio de 2002 fala por si só. Com a flutuação do peso em relação ao dólar, que se mantém até nossos dias, gerou-se uma desvalorização do peso de 270%. Depois de ainda se situar dentro da conversibilidade de 1 por 1 ante o dólar, o peso foi cotado, desde a desvalorização, a 2,15 no fim de fevereiro, 2,90 no fim de março, 2,95 em abril, 3,45 em maio e, sexta-feira passada, fechou a 3,53, de acordo com o preço fixado pelo Banco Central, e a 3,67 nas casas de câmbio. InflaçãoA inflação acumulada no ano chega a 30%. Os reajustes de preços são cada vez maiores. Os preços no atacado aumentaram 60,7% de dezembro a abril e, no varejo, 21,l%. Isso implica uma transferência aos preços, de 21% da variação cambial, números que em maio poderiam ser ainda maiores. Com os salários congelados, a recessão se aprofundou ainda mais. Cerca de 122.500 estabelecimentos do comércio varejista fecharam as portas nos primeiros cinco meses do ano e o número desempregados do setor chega a 330.750 pessoas, segundo a entidade que reúne os proprietários de casas comerciais da República Argentina. A estimativa oficial do PIB para este ano é de uma queda de 15%. O que mais chama a atenção no processo iniciado em 3 de dezembro passado é que o corralito talvez tenha conseguido adiar o desmoronamento do sistema financeiro, mas a situação continua sendo alarmante. O total de depósitos privados, em 30 de novembro passado, era de 60,827 bilhões de pesos ou dólares a 1 por 1, já que estava em vigência a conversibilidade. Oitenta por cento desses depósitos eram em dólares e 20% em pesos. Hoje, o total de depósitos privados sobem a 60,727 bilhões de pesos, apesar da pesificação a 1,40 dos que estavam originalmente em dólares. Devido à sangria, principalmente mediante sentenças judiciais que obrigavam os bancos a devolver depósitos dos poupadores, o corralito provou não ser uma arma 100% útil para sustentar o sistema financeiro. ReservasEm 30 de novembro, as reservas internacionais do Banco Central totalizavam 14,740 bilhões de dólares, ao passo que, em 28 de maio passado, chegavam a 10,386 bilhões de dólares. O socorro do Banco Central aos bancos cresceu de 6,332 bilhões de dólares em novembro para 19,122 bilhões no fim de maio. Considerando-se somente o primeiro semestre, o superávit em conta corrente será de US$ 7,4 bilhões aproximadamente. Esse montante é insuficiente para financiar a totalidade de fluxos para o exterior, requerendo-se para isso uma queda adicional das reservas do país, que parecem não encontrar um piso. Se o atual nível de intervenção diária (US$ 55 milhões) continuar, para resistir à alta da cotação do dólar, e considerando-se os pagamentos inadiáveis a organismos multilaterais que deverão ser feitos nos próximos 30 dias (US$ 237 milhões), as reservas baixarão para US$ 9 bilhões no fim de junho, representando uma queda de US$ 5,6 bilhões no semestre. Este ano, as reservas já diminuíram em 4,231 bilhões, enquanto a saída de depósitos do sistema financeiro se elevou a 2,452 bilhões, somente em maio, número que implica média diária de 153 milhões. Com o novo decreto o governo espera que os poupadores optem pela troca de seus depósitos retidos, por um menu de títulos com diferentes prazos de vencimento, em pesos e em dólares. Essa seria uma boa solução para evitar que os bancos e o Banco Central continuem sofrendo uma sangria de fundos. A grande incógnita que se apresentará nos próximos dias é se essa "saída" do corralito que o governo vende agora funcionará, ou se os poupadores preferirão manter seus depósitos nos bancos e continuar à espera de ter a sorte de conseguir uma sentença judicial para sacá-los ou, no pior dos casos, aguardar os cronogramas de devolução que começam em 2003. Os bancos estrangeiros asseguram, porém, que esse cronograma não poderá ser cumprido, com o que, se os poupadores optarem pela segunda alternativa, o corralito continuará trazendo sérias dores-de-cabeça ao presidente Duhalde. Leia o especial

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