Jf Diorio/Gabriela Bilo/Tiago Queiroz/Helvio Romero/Estadão
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‘Seja você mesmo’ vira regra nas empresas

Cresce número de companhias tradicionais que abandonam código de roupas e estilo

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2019 | 05h00

A pergunta “com que roupa eu vou?”, tema de um dos maiores sucessos do sambista Noel Rosa no carnaval de 1930, deixou de ser uma preocupação para grande parte das pessoas na hora de se apresentar ao trabalho. É crescente, nos últimos dois anos, o número de grandes companhias que aboliram o código de vestimenta e estilo e adotaram uma única regra: venha como você é – o que pode incluir tatuagem, piercing e cabelos exóticos.

Inspirado nas empresas de tecnologia do Vale do Silício (EUA), onde predomina a informalidade justamente para atrair jovens talentos e facilitar o processo de inovação, o movimento se espalha hoje entre companhias tradicionais de diferentes setores. Até os bancos – tradicionalmente um reduto mais formal – entraram nessa onda. 

Quem circula pelos corredores da sede do Itaú Unibanco, no Jabaquara (SP), por exemplo, vê funcionários com estilos diferentes de se vestir, de todas as faixas etárias e cargos. “A gente não tirou o terno e substituiu pela bermuda”, diz Valéria Marreto, diretora de RH. 

Desde 2018, o banco deu liberdade para que os quase 100 mil funcionários se apresentem ao trabalho como eles são, mas observando o bom senso. Segundo ela, o fim da política de vestimenta é a peça de um projeto maior da transformação do ambiente de trabalho do banco, iniciado três anos atrás, para acompanhar a evolução da sociedade.

Na rede de fast-food McDonald’s, o sanduíche Big Mac pode ser igual em todos os cantos do mundo, mas não a atitude dos funcionários. No Brasil, do uniforme ao script na hora de oferecer o cardápio, cada empregado mostra sua cara. “Estávamos ficando para trás e, desde 2015, passamos a possibilitar que as pessoas colocassem mais coração nesse atendimento, que fossem mais elas mesmas”, diz o presidente, Paulo Camargo. A mudança teve reflexos no absenteísmo dos 50 mil funcionários, que caiu 75% em 4 anos, e na rotatividade, que recuou 50%.

Produtividade. A IBM foi outra empresa que decretou, em março de 2017, o fim da política de vestimenta. “Cada um vem como se sente bem, sabendo que está num ambiente de trabalho”, diz Christiane Berlinck, diretora de RH. Segundo ela, a produtividade dos funcionários aumentou e isso pode ser notado pelo maior envolvimento. “Quanto mais engajados, mais produtivos os funcionários são e mais negócios a gente gera.”

Na Totvs, do setor de tecnologia, 70% dos 7,5 mil funcionários nasceram após 1980 e são das gerações Y ou Z. “Eles não procuram um emprego, querem trabalhar, sentir-se bem, ter um propósito”, diz Rita Pellegrino, diretora de RH. Desde 2014, a empresa aboliu as regras de vestimenta, inspirada nas empresas do Vale do Silício, que, na opinião de Rita, foram sensíveis ao concluir que tanto faz se o funcionário usa terno ou bermuda: o importante é o que ele entrega no fim do dia. 

“Estamos diante de uma tendência crescente de informalidade”, afirma Glória Kalil, consultora de moda. Ao contrário do passado, quando a vestimenta indicava a classe social, hoje, diz ela, as pessoas se vestem para expressar a sua personalidade. As empresas, que precisam dessa mão de obra, sem alternativa, estão mudando.

Personalidade. Faz quatro meses que Inara Brenda de Lima Souza, de 19 anos, começou a trabalhar no McDonald’s. Foi seu primeiro emprego, após concluir o ensino fundamental no ano passado. “Fui recusada em cinco ou seis empresas por causa do meu visual diferente”, diz. Inara usa longas tranças coloridas para reforçar a sua origem africana. Ela diz que teve receio de ser recusada para a vaga no McDonald’s. “Mas ninguém me olhou com olhar de rejeição.”

Mudança. Dez anos atrás, quando Rodrigo Giaffredo começou a trabalhar na IBM, só saía de casa de terno, gravata, barbeado e com tatuagens escondidas. “Como atendia bancos, seguia a etiqueta do cliente”, afirma. Começou, porém, a revelar sua personalidade antes de a empresa abolir o código de vestimenta, em 2017. “Meu chefe via os resultados como mais importantes do que a forma como eu me apresentava”, diz. Assumiu seu estilo motociclista. “Eu era um disruptivo enrustido e me liberei.”

Dualidade. Há 17 anos no Itaú Unibanco, Juliana Silveira D’Addio sempre procurou quebrar as regras, mesmo quando o estilo do banco era sóbrio. “À época, eu era duas pessoas: uma no fim de semana e outra durante a semana, sem piercing e alargador de orelha”, diz ela, que hoje usa cabelos rosa e pinta as unhas de cores diferentes. Para ela, o fim das regras de vestimenta é a ponta do iceberg de uma mensagem mais profunda que incentiva as pessoas a mostrarem que são diferentes.

Respeito. Emanuel Lopes fez dreads no cabelo há 12 anos para demonstrar a sua fé. “O dread me deu força num momento difícil, quando perdi a mãe dos meus filhos”, diz ele. Funcionário de uma grande companhia aérea, ouviu do chefe que não seria promovido enquanto não cortasse o cabelo. Preferiu se tornar motorista de aplicativo. Hoje, trabalha na empresa de tecnologia Totvs. “A única coisa que não quero é alguém me dizendo como devo ser."

 

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