Ace Capital/Divulgação
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'Selic pode voltar a cair, mas gastos do governo pedem cautela ao BC', diz especialista

Para ex-economista do Santander e Itaú, Banco Central deverá manter taxa Selic em 2% por um longo período

Entrevista com

Ricardo Denadai, economista-chefe e estrategista da gestora Ace Capital

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 20h01

O previsível corte de 0,25 ponto porcentual da Selic realizado nesta quarta-feira, 5, pelo Banco Central deve, na opinião do economista Ricardo Denadai, marcar o fim do atual ciclo de flexibilização da taxa básica de juros da economia, que agora está em 2% ao ano. Ex-economista-chefe do Santander, hoje no comando da gestora Ace Capital. ele acredita que existiria espaço para novos cortes. Mas a deterioração da situação fiscal do País, em função dos gastos durante a pandemia do novo coronavírus, farão os técnicos do BC a adotar uma postura mais conservadora de agora em diante. 

Sobre a economia, ele acredita que o "pior já passou". "Mas há ainda uma dúvida muito grande sobre qual vai ser a velocidade da retomada da economia e se essa melhora vai se sustentar quando toda essa transferência de renda que tem havido cessar", diz ele, que espera uma taxa de desemprego na casa dos 20% com o fim do benefício emergencial de R$ 600, que forçará as pessoas a procurarem emprego.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Alguma surpresa na decisão do Banco Central em cortar 0,25 ponto porcentual da taxa Selic?

Nenhuma, foi uma decisão muito alinhada com a evolução do cenário, as sinalizações anteriores do próprio Banco Central, um resultado que ratificou a projeção predominante do mercado.

O BC chegou ao fim do ciclo de flexibilização ou ainda tem espaço para novas quedas?

Acho que o cenário mais provável é de manutenção até onde a vista alcança nesse patamar de 2% ao ano. Eu acredito em um período realmente prolongado da manutenção desse patamar. A inflação está baixa, as expectativas para o ano que vem estão também baixas, acho possível que a gente tenha uma revisão para baixo dos 3% em 2021. E por esse arcabouço, de ociosidade da economia e baixa expectativa de inflação, até caberia uma continuação de queda. Mas não acredito.

E por quê, então, não deve cair mais?

É que tem o outro lado da história, fatores de preocupação do Banco Central que fazem com que a curva de juros fique equilibrada para a manutenção. O primeiro é o fiscal pós-pandemia, que é um fator incerte e parece complicado. O segundo é o receio do lado financeiro, de levar a Selic a um patamar em que se torne disruptivo o efeito, pressionando demais a taxa de câmbio e os juros de longo prazo. Existe o medo de flertar com isso.

Quais as suas projeções para a inflação?

Estamos projetando a inflação em 1,9% neste ano e 2,8% em 2021, abaixo das projeções de mercado, que estão em 3%. A gente acredita muito que a ociosidade da economia vai ser importante por um tempo e, com isso, irá manter a inflação baixa neste ano e no ano que vem.

Mas, associados ao cenário econômico, de baixo consumo e altos gastos do governo, os juros a 2% trazem algum risco de instabilidade financeira?

Não trarão riscos se a gente manter o teto de gastos funcionando como a principal âncora fiscal. E que o governo, na medida do possível, na medida em passamos por esse desafio gigante que é a pandemia, volte a se dedicar a colocar a situação fiscal do País nos trilhos. Para a manutenção dos juros em baixo nível, como estão hoje, isso é fundamental.

Nesse sentido, o que mudaria nesse cenário a articulação do Congresso para adiar o decreto de calamidade para 2021?

O impacto seria muito ruim para os juros. Transformar as medidas que eram para ser provisórias, durante seis meses, em provisórias, mas por 18 meses, aumentaria muito os gastos do governo. E aumenta o risco de uma desancoragem fiscal. É por isso que o Banco Central trabalha com esse equilíbrio. Tem espaço para reduzir mais a taxa Selic, mas os riscos em função dos gastos do governo devem segurar isso daqui pra frente.

O IBGE reportou aumento de 7% na produção industrial de maio ante abril e crescimento de 19,6% no volume de vendas do varejo ampliado na mesma base, o que empolgou os analistas. Para vocês, o pior da crise já passou?

O pior já passou, sim. O momento mais dramático da crise do pontos de vista econômico foi abril. Em maio já começou a ocorrer alguma recuperação. Mas há ainda uma dúvida muito grande sobre qual vai ser a velocidade da retomada da economia e se essa melhora vai se sustentar quando toda essa transferência de renda que tem havido via crédito para empresas e o 'coronavoucher' cessarem. Estamos falando, no programa para informais durante a pandemia, de uma transferência de R$ 50 bilhões por mês, versus um Bolsa Família que foi, em todo o ano passado, de R$ 33 bilhões. O mundo inteiro ficou mais pobre em função da pandemia, que levou a um grande choque de demanda. A diferença para a gente, aqui, é que o Brasil já vinha muito fragilizado em função da queda de 9% em 2014, 2015 e 2016. A recuperação depois disso até o ano passado foi pífia, foi quase nada, 0,2%, 0,5% ao ano. E, agora, vamos ter uma nova queda de 7%. Isso é dramático.

Sem falar no desemprego. Você acha que vamos ainda encarar uma forte depressão nos empregos daqui para a frente?

Não tenha dúvida, a gente não tem a dimensão exata do efeito do coronavírus no mercado de trabalho. A própria taxa de desemprego está subdimensionando o problema. O 'coronavoucher' fez com que as pessoas, para se protegerem da pandemia, ficassem em casa. Mas, uma conta que fazemos é que. quando essas pessoas voltarem a procurar emprego, o desemprego vai subir na hora dos atuais 12% a 13% para 18% a 20%. E tem também as empresas que, sob efeito da MP 936 (que flexibilizou a redução de jornadas e suspensão de concretos), foram condicionada a não demitir. Mas no quarto trimestre vamos saber exatamente o efeito desse choque todo no mercado de trabalho. E esse é um dos motivos que levam o Banco Central a possivelmente não reduzir mais a Selic.

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