Selic sobe: veja como fica seu investimento

A elevação da Selic, a taxa básica referencial de juros, em 1,5 ponto porcentual - de 16,75% para 18,25% ao ano - surpreendeu a maior parte dos analistas que apostava em uma alta menor de, no máximo, 1 ponto porcentual. O governo também definiu viés de baixa, ou seja, autorização para o presidente do Banco Central reduzir os juros quando julgar necessário, o que traz mais um elemento de incerteza ao investidor. A reação do mercado à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) será conhecida amanhã, já que o resultado só foi divulgado após o fechamento dos negócios, após mais de cinco horas de reunião. De acordo com o estrategista da BankBoston Asset Management, Márcio Verri, no curto prazo, o nervosismo no mercado financeiro pode ficar maior, já que a decisão não era esperada. "Porém, se o Banco Central (BC) atuar também no mercado de câmbio, aumentando a oferta de títulos cambiais ou de moeda norte-americana ao mercado, em uma estratégia conjunta à alta da taxa Selic, a reação negativa pode dissipar-se e as cotações do dólar podem recuar, em conseqüência", avalia.Verri destaca que uma visão mais clara do cenário será percebida nos próximos dias. Os negócios no mercado financeiros devem continuar fortemente influenciados pela questão do racionamento de energia e seus reflexos na economia do País, pela crise na Argentina e pelo processo eleitoral de 2002. Como são problemas de longo prazo, o clima de instabilidade nos mercados deve continuar e não há nenhuma perspectiva de que a tendência negativa reverta-se no curto prazo.Fundos DI e prefixadosPara quem tem recursos novos para investir e prefere não ficar exposto ao risco, os analistas são unânimes em afirmar que os fundos referenciados DI - pós-fixados - são a melhor opção, pois a possibilidade de prejuízo é praticamente nula. Como o DI acompanha as flutuações dos juros, especialmente com o viés de baixa, acabam sendo a opção mais segura."Recursos novos com prazo de investimento de até seis meses exigem que o investidor adote uma postura conservadora, pois as incertezas são muitas e a possibilidade de perdas em aplicações que oferecem risco é muito grande", afirma José Cunha, estrategista do Deutsche Bank. Em sua maior parte, a carteira dos fundos referenciados DI é formada por títulos públicos que acompanham as taxas de juros. Ou seja, mesmo que as taxas subam ainda mais em função de um agravamento da crise energética ou por uma piora da situação na Argentina, o investidor estará protegido.Para Verri, a decisão do Copom em colocar um viés de baixa na taxa Selic sinaliza que a taxa chegou ao seu patamar mais alto. Porém, a tendência para os juros negociados entre os investidores - taxas que de fato valem na rentabilidade dos fundos de investimento - vai depender da forma como os investidores receberão a decisão do Copom e, principalmente, do comportamento do câmbio. Os fundos prefixados poderão apresentar variação negativa em suas cotas nos próximos dias, caso as taxas recuem também nas negociações entre investidores. Mas, como o cenário ainda é de incertezas, o investidor que já estava com recursos em um fundo de renda fixa prefixado não deve migrar para um fundo DI agora, pois não poderá recuperar uma eventual perda e ainda terá que pagar CPMF. Ações apresentam risco muito grandeA crise do racionamento de energia, que deve provocar uma redução na produção das empresas e queda no lucro das companhias, já provocou uma redução no preço das ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Com essas incertezas e ainda o desenrolar da crise argentina, os analistas já reduziram suas projeções de ganho em renda variável.Exemplo disso é a análise da BankBoston Asset Management. De acordo com Júlio Ziegelmann, diretor de renda variável da instituição, no início do ano, a perspectiva de valorização do Ibovespa - índice que mede a valorização das ações mais negociadas na Bovespa - era de aproximadamente 45% em doze meses. Hoje, a instituição reduziu esta projeção para um patamar em torno de 20% para o mesmo período.Segundo Cunha, do Deutsche Bank, para quem tem recursos novos, o ideal é aguardar uma melhora do cenário para direcionar os recursos para Bolsa, mesmo para quem tem um horizonte de investimento acima de um ano. Castro, do ABN Amro Asset Management, discorda. "O investidor que quiser formar uma poupança de longo prazo deve separar uma parcela de seus recursos para renda variável. Iniciar neste momento pode ser muito bom, pois as ações estão com preços baixos e, quando a recuperação vier, o processo será rápido", explica.Mas, a recomendação tradicional ainda vale: o investimento em ações não pode ter prazo fixo para saque. Deve-se esperar o tempo que for necessário para que a aplicação acumule altas e ofereça uma rentabilidade diferenciada para então embolsar o ganho, mesmo que isso demore anos.Dólar e fundos cambiais só em casos especiaisA forte alta do dólar vem provocando ganhos expressivos nas carteiras dos fundos cambiais. Mesmo com a elevação da taxa Selic, não é possível prever se a escalada do dólar chegou ao fim. De acordo com Hugo Penteado, economista-chefe do ABN Amro Asset Management, o comportamento do dólar ainda é uma incógnita."Estimar um patamar de negociação para o dólar em qualquer período, mesmo que seja amanhã, está cada vez mais difícil", explica Cunha. Assim, o risco de aplicações baseadas na moeda norte-americana é muito grande, e só deve ser assumido por investidores de perfil muito agressivo. Cunha avalia que hoje investir em moeda norte-americana ou em um fundo cambial está mais arriscado do que comprar papéis na Bolsa.Segundo os analistas, para quem tem dívidas em dólar ou está poupando para uma viagem ao exterior, comprar moeda norte-americana é fundamental, mesmo com as cotações em patamares muito elevados. Isso porque não há nenhuma certeza de que elas não possam subir ainda mais. Neste caso, a operação é de hedge, ou seja, proteção contra a alta do dólar. Para quem vai colocar recursos em fundos cambiais com este objetivo, vale destacar que o ganho é diminuído pela incidência da alíquota de 20% sobre a valorização das cotas em reais.

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