Gabriela Biló/Estadão
Bolsa de Valores  Gabriela Biló/Estadão

‘Sem a quarentena, você posterga a reação da economia’, diz Marcos Assumpção

Em entrevista ao 'Estado', superintendente de renda variável do Itaú BBA disse que entidade já trabalha com uma recessão muito forte no segundo trimestre

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 05h00

Já sob o impacto da epidemia do novo coronavírus, o Itaú divulgou na última quarta-feira, 25, uma redução em sua expectativa para a Bolsa, que começou o ano em 130 mil pontos e, agora, foi reduzida para 94 mil pontos. Para o superintendente de renda variável do Itaú BBA, Marcos Assumpção, o número leva em consideração um cenário com forte isolamento social até meados de abril. “Um cenário de quarentena parcial pode ampliar o ciclo da doença e seu impacto na economia.”

Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:

O Itaú reduziu ontem a projeção da Bolsa para 94 mil pontos. Qual o cenário utilizado para esse número?

O nosso cenário hoje é de uma obstrução do crescimento, uma recessão muito forte no segundo trimestre, com queda de 9,7% no PIB, com uma recuperação também forte a partir do segundo semestre. No fim do ano, nossa estimativa macro é de um PIB neste ano com queda de 0,7%. Com base nisso, teremos uma redução no lucro das empresas que, segundo nosso cálculos, vão levar o Ibovespa para 94 mil pontos.

Nesse modelo, qual o tempo de duração dessa crise na economia do Brasil?

Para a gente, as restrições serão relativamente curtas no Brasil e devem ser levantadas a partir do segundo trimestre, a partir do meio de abril, para a economia ir lentamente se recuperando no segundo semestre. 

Com base em que projetam um cenário desses?

É um cenário que fechamos na última terça-feira. Claro, o ritmo dessa crise é muito fluída. Mas fizemos uma reunião recentemente com o professor Tarcisio Filho, que é um doutor em Física e Matemática. Ele estuda o comportamento de epidemias pelo mundo. Como estamos falando de um vírus que não vai ter uma vacina no curto prazo, o seu comportamento será muito semelhante a de outros vírus. A ideia central é que, olhando para outros países, a gente vê que o ciclo natural da doença leva do começo ao pico por volta de 70 dias. Assumindo que a gente teve o começo da doença no começo do fevereiro, provavelmente vamos atingir o pico dela em meados de abril e, a partir dai, ela começa a desacelerar seu ciclo de propagação. A principal medida para a contenção da doença é o isolamento. Na medida em que as pessoas estão dentro de suas casas e os casos vão diminuindo, você terá a economia funcionando de forma um pouco menos restritiva e, aí, as coisas vão caminhando para a normalidade.

O modelo usado pelo Itaú considera uma quarentena dura, como é hoje na Espanha, ou um modelo mais afrouxado, com restrições parciais?

A gente trabalha com uma quarentena mais forte ao longo das próximas três semanas. Como ela começou de forma mais restritivas nesta semana, estamos falando em algo assim até meados de abril. Vendo o histórico de outras epidemias, a quarentena é importante para reduzir o ciclo da doença no período mais critico.

Sem essa quarentena mais dura, o que vocês projetam?

Em um cenário de maior estresse, sem essa quarentena, você posterga a volta da economia à normalidade e o cenário para a Bolsa em 2020 muda.

O dólar termina o ano na casa dos R$ 5?

A gente tem uma projeção com o real apreciando um pouco no final ano. Nossa expectativa é de dólar a R$ 4,60. A inflação para este ano é de 2,9%.

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Bolsa volta a fechar no azul e, em dois dias, acumula recuperação de 17,9%

Mercado continua sendo mais impactado pelo que acontece lá fora, sobretudo nos EUA, e poderia ter conseguido até uma alta maior caso passasse o pacote trilionário de socorro à economia americana

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 09h05
Atualizado 26 de março de 2020 | 13h14

Pelo segundo dia consecutivo a Bolsa de Valores fechou no azul, em um movimento que não se via no mercado de capitais desde o começo de março, quando os investidores (os brasileiros e principalmente os estrangeiros), empreenderam fuga da renda variável com medo dos impactos da pandemia do coronavírus na saúde financeira das empresas listadas.

Ontem, o Ibovespa, cesta com as principais ações negociadas na B3, fechou em alta de 7,50%, ficando bem próximo dos 75 mil pontos (74.955) – o patamar de 15 dias e de dois circuit breakers atrás.

Em dois dias, o índice acumulou alta de 17,9%, maior ganho para o mercado acionário desde 29 de outubro de 2008, segundo levantamento realizado pela Economática. O valor de mercado das empresas brasileiras listadas na B3 subiu R$ 388,2 bilhões nesse período. 

O giro financeiro de ontem foi de R$ 28,6 bilhões, quase R$ 10 bilhões a mais do que o da última segunda-feira, quando o Ibovespa ficou a 5% de perder o patamar dos 60 mil pontos.

Isso posto, para os analistas, ontem foi um bom dia para o investidor, mas que poderia ser ainda melhor. Ao longo da quarta-feira a bolsa chegou a subir acima dos 9% – lembra o economista-chefe do banco Modalmais, Alvaro Bandeira –, mas perdeu fôlego na reta final depois que chegou dos Estados Unidos a notícia de que, na última hora, um impasse entre democratas e republicanos travou as negociações para o megapacote de estímulos de US$ 2 trilhões. Os democratas querem um aumento no valor do seguro-desemprego, mas os republicanos são contra. Foi o que bastou para limitar o otimismo dos agentes. O S&P 500 reduziu o avanço para pouco mais de 1%, enquanto o Dow Jones, favorecido pela disparada dos papéis da Boeing, subiu mais, 2,39%.

Mas como a Bolsa local vem sendo muito mais impactada pelo que acontece fora do Brasil do que propriamente pelo noticiário local, os analisas afirma que um ânimo extra foi dado ontem pela Alemanha, que aprovou um programa de estímulos sem precedentes para o país, de ¤750 bilhões, encarado como um sinal de que os países da zona do euro podem recorrer ao Mecanismo Europeu de Estabilidade para combater as consequências do coronavírus. “Foram dois dias de notícias bem positivas”, diz o analista de ações da Rico Investimentos, Thiago Salomão. “Há muita coisa positiva acontecendo no exterior, o que contribui para minimizar os ruídos por aqui”, diz Victor Lima, economista da Toro Investimentos, referindo-se à crise cada dia mais profunda entre o presidente Jair Bolsonaro, Congresso e governadores, na estratégia para enfrentar a escalada do novo coronavírus no Brasil.

“Bolsonaro buscou marcar posição, dissociando a imagem pessoal de problemas sobre os quais não terá como agir individualmente”, observa Marcel Zambello, analista da Necton, chamando atenção para o desgaste político que tende a emergir de uma prolongada paralisia econômica, que afetará a renda e o emprego da população. “O ruído político existe, e será preciso observar agora como evoluirá: se permanecerá na retórica ou se terá efeitos concretos”, diz Lima, da Toro.

Com os desempenhos positivos nessas duas últimas sessões, o Ibovespa amplia os ganhos a 11,76% na semana, após uma sequência negativa de cinco semanas. No mês, as perdas seguem agora em 28,05% e, no ano, em 35,18%.

Dólar. No mercado de câmbio, a moeda americana chegou a cair abaixo de R$ 5,00 no período da tarde, mas o movimento perdeu força na hora final do pregão, no mercado à vista, o dólar fechou cotado a R$ 5,0326, em baixa de 0,97%. / COLABOROU LUIZ EDUARO LEAL

 

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