Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

Sem acordo, EUA ameaçam China com mais tarifas

Após dois dias de conversas, Trump defende sua estratégia e diz que taxará em 25% o restante de produtos que importa do país asiático; chineses retomam apetite por minério de alta qualidade

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2019 | 04h00

WASHINGTON - Os Estados Unidos e a China encerraram a sexta-feira, 10, sem acordo para as negociações comerciais que vinham travando, com a decisão do presidente Donald Trump de elevar, de 10% para 25%, as tarifas para US$ 200 bilhões em importações chinesas. A elevação das tarifas foi anunciada pelo americano na segunda-feira e, desde então, o presidente deu declarações em sentidos opostos – que ora animaram e ora desanimaram os investidores. Na sexta, Trump disse estar preparado para uma longa batalha.

Desde o meio-dia (horário de Brasília), o aumento de tarifas passou a vigorar e o presidente americano voltou a subir o tom. Pelo Twitter, Trump defendeu sua estratégia belicosa de negociação com os chineses e mencionou um processo para imposição de “tarifas adicionais” de 25% sobre os US$ 325 bilhões restantes de produtos chineses.

“As tarifas tornarão nosso país muito forte, não mais fraco. Basta sentar e assistir!”, escreveu o presidente americano. Há uma semana, antes de Trump anunciar a elevação de tarifas, chineses e americanos pareciam estar caminhando para uma solução do conflito.

A China chegou a ameaçar retaliar Washington nesta semana, sem detalhar quais medidas seriam aplicadas a empresas e importações dos Estados Unidos. Mas o dia acabou em clima mais ameno, apesar de ainda sem sinal de solução. A elevação de tarifas não afeta embarques que tenham partido da China antes do prazo. Na prática, isso dá aos dois países mais algumas semanas para tentar fechar um acordo comercial sem que o custo da elevação de tarifas seja imediatamente repassado aos produtos.

Os negociadores chineses viajaram para Washington para conversas com os americanos na quinta e sexta-feira, depois da ameaça de Trump. Na sexta, o secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, afirmou que as conversas com os chineses nos últimos dias foram construtivas. O vice-primeiro-ministro chinês, Liu He, afirmou que as negociações correram “razoavelmente bem”.

“Ao longo dos últimos dois dias, Estados Unidos e China mantiveram conversas francas e construtivas sobre o status das relações comerciais entre os dois países. A relação entre o presidente Xi (Jinping) e eu mesmo é muito forte, e as conversas para o futuro continuarão. Enquanto isso, os Estados Unidos impuseram tarifas à China, que podem ou não ser removidas dependendo do que acontecer com relação a futuras negociações!”, concluiu Trump, no Twitter.

Queixas

Os Estados Unidos argumentam que a China está envolvida em inúmeras práticas injustas relacionadas a tecnologia e propriedade intelectual nos EUA e têm travado uma guerra comercial com o país asiático para forçar mudanças estruturais. A queda de braço, que incluiu subsequentes rodadas de tarifas americanas sobre os produtos chineses, teve uma trégua no fim do ano passado, quando Trump e Xi concordaram em negociar.

De um lado, analistas se mantêm céticos sobre a possibilidade de os EUA conseguirem forçar alguma mudança estrutural e legislativa na maneira de comércio e produção chinesas. De outro, o sucesso da guerra travada com a China pode ser crucial para a sobrevivência política de Trump. Isso porque parte da base eleitoral do americano sofreu impacto pela imposição de tarifas às importações chinesas, como os produtores de soja. Mas o presidente Trump não quer chegar a um acordo que mostre fragilidade do lado americano.

Até o momento, não há novas rodadas de negociação entre os dois países agendadas. O presidente dos Estados Unidos afirmou na sexta-feira que as conversas continuam, mas sem pressa.

Siderúrgicas chinesas

As siderúrgicas da China estão retomando seu apetite por minério de ferro de alta qualidade, apesar dos preços em máximas recordes, disseram gestores de usinas e operadores, à medida que a recuperação das margens de lucro estimula as produtoras de aço a buscarem ganhos de eficiência e aumento de produção.

As empresas de aço haviam sido forçadas a reduzir custos com a mudança para minério de baixa qualidade no final de 2018, conforme as margens do aço caíam em meio a uma produção recorde. Um avanço substancial nos preços do minério de ferro no início de 2019, gerado pelo desastre em uma barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho (MG), também estimulou a mudança.

Mas, com uma aceleração no crescimento econômico da China no primeiro trimestre e medidas antipoluição mais rigorosas entrando em vigor, executivos reunidos em uma conferência do setor em Cingapura nesta semana disseram que o minério de maior qualidade - e também de maior preço - está de volta ao menu.

“Acertamos pedidos abundantes por produtos de aço para os próximos três meses, e a produção siderúrgica está consideravelmente rentável”, disse o gerente de compras de uma usina de médio porte em Hebei, principal província siderúrgica da China. “É hora de comprar mais minério de alta qualidade”, acrescentou ele, que não quis ser identificado por não estar autorizado a conversar com a imprensa.

Medidas antipoluição de Pequim também estão ajudando. O Ministério do Meio Ambiente da China pediu na semana passada para que as usinas mirem níveis de emissão ultrabaixos, buscando melhorias na qualidade do ar, o que demanda equipamentos avançados e minério de ferro de melhor qualidade.

“No longo prazo, por conta das mudanças na indústria siderúrgica chinesa, bem como pelos controles mais firmes de emissão, veremos uma demanda muito significativa e preferência por minérios de ferro de alta qualidade”, disse Siddarth Aggarwal, gerente de análises de mercado para trading de minério e ferrosos da Anglo American.

Preços

Os preços de minério de ferro 65% para entrega à China atingiram uma máxima de cinco anos de US$ 110,5 por tonelada na quinta-feira, enquanto seu prêmio em relação ao minério 62% avançou para máximas de cinco meses.

“Isso dialoga com uma indústria que está se movendo em direção à eficiência, produtividade e práticas mais limpas; portanto, você precisa de minério de ferro de alta qualidade”, afirmou Aggarwal, nos bastidores da conferência em Cingapura.

Os estoques de minério de ferro importado nos portos chineses recuaram para o menor nível desde outubro de 2017, em 133,6 milhões de toneladas, de acordo com dados da consultoria SteelHome.

A perspectiva para o mercado de minério de ferro também é suportada por uma redução de oferta estimada em 98 milhões de toneladas após o desastre na barragem da Vale em Brumadinho em janeiro, que deixou centenas de mortos.

Alguns produtos de alto teor, como os finos da mina de Carajás da Vale, com 65% de ferro, estão agora com baixa oferta. /COM REUTERS

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