Sem alarde, Joseph Safra amplia seu império

Sem alarde, Joseph Safra amplia seu império

Banqueiro fez dois grandes negócios no mesmo dia, em Londres e Nova York

DAVID GELLES, DAN HORCH, THE NEW YORK TIMES

20 Fevereiro 2015 | 02h08

Em um único dia, no ano passado, duas transações bilionárias atraíram a atenção, de forma inusitada, para uma família de banqueiros que prefere viver longe dos holofotes. Em Londres, a torre de escritórios conhecida como Gherkin, projetada por Norman Foster, estava prestes a mudar de proprietário por US$ 1,1 bilhão. E em Nova York, os acionistas da Chiquita Brands International, produtora de bananas, finalmente aceitaram vender a companhia por US$ 1,3 bilhão. Quem comprou os dois ativos foi o Grupo Safra - braço de investimentos de uma família conhecida, mas que luta para manter sua privacidade.

À frente do grupo está Joseph Safra, de 76 anos, o último filho sobrevivente do patriarca que construiu a fortuna inicial da família. Com patrimônio avaliado em cerca de US$ 14,5 bilhões, de acordo com a Forbes, ele é o banqueiro mais rico do mundo. Além do vasto e crescente patrimônio imobiliário da família, sua fortuna é reforçada por uma rede de bancos internacionais, incluindo o Banco Safra, no Brasil, a J. Safra Sarasin Holding, na Suíça, e o Safra National Bank, em Nova York. Juntos, esses bancos administram mais de US$ 200 bilhões.

Com a recente aquisição, o Gherkin tornou-se a face mais notável de um portfólio imobiliário que inclui mais de 100 propriedades ao redor do mundo, como um conjunto de escritórios na Madison Avenue 660 e outros imóveis de luxo no SoHo, em Nova York. "A filosofia da família no ramo imobiliário é bastante similar à que adota em seus negócios financeiros", disse uma pessoa que trabalhou com os Safra. "Trata-se realmente de preservar a riqueza. Eles compram para conservar e não para vender." De fato, a família não vendeu nenhum dos seus ativos imobiliários em décadas.

No caso da Chiquita, o Grupo Safra viu uma oportunidade de diversificar suas receitas, com uma compra de longo prazo e pública. A demanda por bananas, fruta popular em todo o mundo, não deve diminuir. E ao se unir, nesse negócio, à fabricante de sucos de laranja Cutrale, o grupo pode se expandir sem correr muito risco.

Sempre tentando manter sua privacidade, Joseph Safra tornou-se um poderoso filantropo no Brasil. É um dos maiores doadores do hospital Albert Einstein e do hospital Sírio-libanês, em São Paulo. Entre seus sócios mais próximos, ele é conhecido como uma pessoa amável e humilde, costuma cozinhar para a família e para os amigos mais chegados. "Ele pensa em suas empresas 24 horas por dia, mas encontrou tempo para me telefonar diariamente quando estive no hospital depois de uma cirurgia cardíaca", disse Jack Terpins, presidente do Congresso Judaico Latino-americano. Outras pessoas o descrevem como impaciente e irascível. "Ele quer que os problemas sejam resolvidos imediatamente. Você não pode desapontá-lo ou contrariá-lo", disse um ex-empregado.

A fortuna familiar que a família Safra vem construindo deve sobreviver por 100 anos ou mais. "Eles têm um horizonte de tempo de muitas gerações", disse um importante banqueiro. Suas raízes estão em Alepo, na Síria, onde trabalhavam como comerciantes. O pai de Joseph Safra, Jacob, mudou-se para Beirute e abriu um banco após a Primeira Guerra Mundial, aproveitando-se da emergência do Líbano como centro cosmopolita do Oriente Médio. Após a Segunda Guerra, o velho Safra mudou-se com a família para o Brasil e em 1957 criou o Banco Safra, com sete funcionários. Hoje, é a oitava maior instituição bancária do País, com mais de US$ 56 bilhões de ativos.

Discretos. Não obstante a notoriedade da família, Safra e seus parentes são decididamente pessoas muito discretas. Não aparecem em colunas de fofocas e seu nome não está associado ao de políticos ou celebridades. "Para muitos brasileiros ele é um mistério", disse Paulo Feldmann, professor de economia na Universidade de São Paulo, estudioso da cultura empresarial latino-americana.

O irmão mais velho de Joseph Safra, Edmond, deixou o grupo e fundou novos bancos na Europa e Nova York. Em 1999 ele vendeu o Republic National Bank of New York para o HSBC por US$ 10 bilhões. Edmond morreu num incêndio em circunstâncias suspeitas no final daquele ano. Joseph e seu irmão mais novo, Moise, administraram juntos o Banco Safra até 2006, quando Joseph comprou a participação do irmão e tornou-se o único proprietário do banco. Moise morreu no ano passado aos 79 anos.

Hoje, embora ele permaneça na chefia da família, seus três filhos, Jacob, David e Alberto, vêm assumindo funções mais proeminentes. Jacob, o mais velho, divide seu tempo entre a Suíça e Nova York, supervisionando as operações do J. Safra Sarasin e do Safra National Bank of New York e operações não ligadas a bancos fora do Brasil. David e Alberto, por sua vez, dirigem o Banco Safra no Brasil. O pai viaja constantemente, entre Brasil, Suíça e Nova York.

Para sobreviver no mercado brasileiro, Joseph se concentrou na administração de ativos de clientes ricos e em empréstimos para empresas e indivíduos que oferecessem garantias sólidas, como imóveis. "Ele sempre se empenhou no sentido de um crescimento lento e sustentável para manter o banco sempre com muita solidez", disse Feldmann.

Ao longo dos anos, ele adquiriu bancos de menor porte e também investiu fora do mercado financeiro. Comprou participações em empresas têxteis e de celulose brasileiras e em 1998, em parceria com a BellSouth, fundou a empresa de telefonia celular BCP que se tornou a segunda maior do setor no Brasil e acabou vendida, por uma pechincha, para a América Móvil em 2003. Agora, ele comprou o Gherkin também por uma pechincha. O prédio foi vendido em vias de falência. A família acredita que pode fazer melhorias e elevar os aluguéis, aumentando os lucros do imóvel. / Tradução de Terezinha Martino

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo Safra negócios banco

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.