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Sem ameaça da Odebrecht

Mercado avalia que atraso na Lava Jato deixa menos incerta a reforma da Previdência

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2017 | 05h00

O aparente paradoxo chega a ser surpreendente, mas não inexplicável: enquanto o cenário político brasileiro mergulhou num mar de incertezas após a trágica morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki, a Bolsa de Valores brasileira e o real aceleraram seus ganhos.

Uma série de perguntas vem mantendo os brasileiros em suspense: quem, no STF, vai herdar a relatoria da Lava Jato? O que vai acontecer com as delações premiadas dos executivos da Odebrecht? Quem o presidente Michel Temer vai indicar para a vaga de Teori?

No encerramento dos negócios na segunda-feira, dia 23, a Bovespa fechou a 65.748,62 pontos, maior nível desde 27 de março de 2012, passando a acumular uma alta de 9,17% no mês de janeiro. Já o dólar acabou o dia a R$ 3,1663, menor valor de fechamento em quase três meses.

Por que o otimismo dos investidores em relação ao Brasil cresceu apesar das incertezas do cenário político?

Afinal, a morte do ministro Teori, além de comover o País, turvou não somente o horizonte da Operação Lava Jato, como também de julgamentos futuros pelo STF. Como se viu nos episódios envolvendo o impeachment de Dilma Rousseff e a remoção de Eduardo Cunha da Presidência da Câmara dos Deputados, 2016 foi considerado o ano de maior judicialização da política brasileira.

Um gestor de um fundo de investimento em Londres, que pediu para não ser identificado, explicou a aparente contradição: um atraso na Lava Jato deixa menos incerto o avanço da reforma da Previdência no Congresso.

E os investidores estão obcecados apenas com a aprovação da reforma da Previdência, considerada essencial para manter de pé a PEC do Teto de Gastos e permitir uma maior estabilidade da trajetória da dívida pública brasileira.

Sem o avanço da reforma da Previdência, a aposta na retomada da atividade econômica e da confiança de empresários e consumidores fica bastante comprometida. Sem isso, o otimismo atual em relação à Bovespa e ao dólar também é afetado.

Na visão de muitos investidores, com a morte do ministro Teori, até então responsável pela Lava Jato no STF, a homologação das delações dos 77 executivos da Odebrecht, prevista originalmente para fevereiro, deve atrasar alguns meses. Também se esperava em fevereiro que Teori tornasse públicos os depoimentos dos executivos da empreiteira. Mesmo se a presidente da Corte, Cármen Lúcia, decidir rapidamente redistribuir a Operação Lava Jato para outro ministro do STF, independentemente do viés político dele na percepção do mercado, a avaliação preliminar de muitos investidores é de que o substituto de Teori não se precipitará em tomar decisões importantes sobre as delações da Odebrecht. Um atraso, portanto, é considerado hoje como inevitável.

E dado o potencial explosivo dessas delações, o temor dos investidores era de que, assim que esses depoimentos viessem a público já em fevereiro, o governo Temer e a sua base aliada no Congresso fossem atingidos de tal forma que emperraria a tramitação de qualquer medida importante na Câmara e no Senado.

É bom lembrar o terremoto causado pelo vazamento de trechos da delação de Cláudio Melo Filho, ex-diretor de Relações Institucionais da empreiteira, em dezembro, citando o presidente Temer, senadores, deputados e vários ministros.

No cronograma do mercado, após o Congresso voltar do recesso parlamentar em 1º de fevereiro, deveria haver a retomada da tramitação da reforma da Previdência, com a criação de uma Comissão Especial.

Muitos analistas internacionais preveem a aprovação da reforma pelo plenário da Câmara até o fim do primeiro semestre deste ano, seguindo então para o crivo do Senado. Os investidores esperam que a aprovação final da reforma pelo Congresso aconteça até o último trimestre deste ano.

Obviamente, as delações da Odebrecht e a Operação Lava Jato como um todo não são as únicas fontes de instabilidade política, mas são o risco imediato à tramitação da reforma da Previdência no Congresso. Sem esse obstáculo, os investidores abriram a carteira e estão comprando Brasil.

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