Jon Berkeley/Economist
Jon Berkeley/Economist

Sem bala na agulha

Na próxima crise, os governos dos países desenvolvidos terão pouca margem de manobra

O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2015 | 17h52

Durante a crise financeira, quando a economia global enfrentou sua maior ameaça desde os anos 1930, as autoridades econômicas entraram em ação. A fim de estimular a economia, os bancos centrais reduziram drasticamente as taxas de juros e os políticos passaram a gastar com prodigalidade. Em virtude disso, por pior que tenha sido, a recessão teve consequências bem menos graves do que a Grande Depressão.

O problema é que essa resposta rápida praticamente esgotou o arsenal de instrumentos de que os governos dispõem para combater as crises. Sete anos depois, o arsenal continua vazio. As taxas de juros de referência permanecem pouco acima de zero; as dívidas e os déficits públicos aumentaram muito. Caso a recessão volte a atacar, como fará, mais cedo ou mais tarde, os países ricos, em particular, não terão muitas armas para lutar contra ela.

Qual é, exatamente, a margem de manobra desses países? Para efeito de comparação, The Economist elaborou uma tabela combinando dívida, déficit e taxas de juros - as ferramentas que as autoridades econômicas em geral utilizam para debelar nuvens negras no horizonte. A análise, embora rudimentar, conduz a uma conclusão indisputável e perturbadora. Com exceção de algumas poucas economias, aparentemente capazes de montar uma defesa sólida contra um novo abalo, a maioria do mundo desenvolvido está de mãos atadas.

No caso das taxas de juros, atribuímos um valor igual a 100 - indicando a mais ampla margem de manobra - para juros de 10% ou mais. A principal taxa do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) estava em pouco mais de 9% (ou 90 em nossa tabela) antes da recessão do início da década de 90; e pouco acima de 6% (60) antes da desaceleração de 2001. Agora, essa taxa é de apenas 0,125% (1 ponto na tabela). No início de 2007, a taxa média praticada pelos bancos centrais dos países analisados era ligeiramente inferior a 4% - um valor baixo, para os padrões históricos. Agora, a média é de 0,3%.

Ainda que na Europa alguns bancos centrais estejam experimentando praticar taxas de juros negativas, nenhum deles ousou ir muito longe em território negativo. Em outras palavras, uma taxa de 0% (0 pontos na tabela) deixa os bancos centrais com pouca ou nenhuma margem de manobra em termos de política monetária. Apesar disso, é provável que os juros permaneçam nesse patamar por algum tempo. Os preços no mercado futuro de juros indicam que a principal taxa do Fed estará ao redor de 2% no início de 2018. Para o Banco da Inglaterra, a expectativa é de uma taxa de 1,5%; e, para Europa e Japão, a previsão é de que seus juros continuem perto de zero.

Os bancos centrais não estarão sozinhos no combate à próxima crise. Os governos tentarão ajudar, aumentando os gastos com itens como, seguro-desemprego e obras de infraestrutura, como fizeram durante a crise financeira. Mas o governo de um país não tem como se endividar indefinidamente. A Irlanda foi abandonada pelos credores privados em 2010, quando o resgate de seus bancos fez o déficit fiscal superar os 32% do PIB, obrigando o país a pedir socorro à União Europeia. Além da Irlanda, nenhum outro país desenvolvido teve um déficit superior a 16% do PIB durante a crise.

Em nosso ranking, atribuímos 100 pontos aos países com superávit fiscal de 5% ou mais, e 0 aos que têm um déficit de 15% ou mais. Em comparação com a situação fiscal no auge da crise, a maioria dos países ricos apresentou melhoras significativas nessa medida, graças à recuperação de suas economias e a políticas de contenção orçamentária. Para este ano, projeta-se que os déficits fiscais deverão cair, em média, para 2% do PIB, bem abaixo da média de quase 6%, observada em 2010. Antes da crise, porém, os países incluídos em nossa análise registravam, na média, pequenos superávits fiscais.

A montanha de dívida pública acumulada de 2007 para cá representa mais um empecilho. Como proporção do PIB, esse endividamento é 50% mais alto hoje do que antes da crise. Em artigo recente, economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) calcularam as dimensões do “espaço fiscal” a que os países podem recorrer, levando em conta seu comportamento no passado. Atribuímos 100 pontos a países que, na opinião do FMI, podem aumentar seu endividamento em 250%, ou mais, e 0 pontos a países, incluindo Grécia, Itália e Japão, que o Fundo acredita estarem testando os limites do mercado. Quase todos os países têm muito menos margem de manobra hoje do que em 2007.

A combinação das três medidas produz um retrato preocupante. Noruega, Coreia do Sul e Austrália vêm em primeiro lugar: nos três países, os juros foram mantidos em patamares razoavelmente acima de zero, e seu nível de endividamento é bastante baixo. Na média, a margem de manobra dos países ricos se reduziu em um terço desde 2007. A liberdade de ação de países em dificuldades, como Itália e Espanha, encolheu quase 50%.

Essas estimativas, ainda que instrutivas, não determinam com exatidão quais países estariam sem poderio de fogo econômico. Considere-se, por exemplo, o Japão, que em nosso ranking aparece na posição mais fragilizada. Em 2007, quando a relação dívida/PIB era de 183%, o FMI achava que o país não tinha mais espaço fiscal, e no entanto o governo japonês continuou se endividando pesadamente. Acreditava-se que a Itália havia ficado sem espaço fiscal durante a crise. Mas, seus custos de endividamento, que atingiram níveis alarmantes em 2011, começaram a cair em 2012, depois que os investidores se convenceram de que, havendo necessidade, o Banco Central Europeu (BCE) compraria os títulos do país. Aparentemente, os limites de endividamento são ultrapassáveis quando um país apresenta posição financeira externa sólida - ou quando, numa emergência, há um banco central disposto a comprar seus títulos. A relutância do BCE em emprestar suas máquinas de impressão de dinheiro para os governos da área do euro talvez explique por que o endividamento teve impacto maior sobre os países em que circula a moeda única.

Entretanto, até o BCE começou a testar os limites do espaço fiscal. Depois de reduzir os juros a quase zero no início da crise, os bancos centrais imprimiram dinheiro para adquirir títulos, numa tentativa de oferecer estímulo adicional - medida conhecida como afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês). A aposta foi que, com as consequentes queda nos juros de longo prazo e alta nos preços dos ativos, os investimentos seriam estimulados. Com a expectativa de que os juros permaneçam indefinidamente baixos, o QE pode se tornar uma medida de larga utilização.

Teoricamente, não há limites para as políticas de QE: os bancos centrais podem comprar tantos títulos quanto os emitidos por seus respectivos governos. Uma monetização tão completa da dívida pública deveria acabar gerando uma inflação galopante. Mas a experiência do Japão, onde a autoridade monetária atualmente detém 30% da dívida pública, indica que os mercados toleram muito mais QE do que os economistas imaginavam. A margem de manobra parece se ampliar com os bancos centrais se dispondo a imprimir dinheiro.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Tudo o que sabemos sobre:
theeconomistcrise financeira

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.