Gian Ehrenzeller/EFE
Realizado todo ano em Davos, na Suíça, o Fórum Econômico Mundial está sendo realizando online desta vez. Gian Ehrenzeller/EFE

Sem Bolsonaro e com Doria, Fórum Mundial de Davos dá destaque para Amazônia e combate à covid

Evento, que este ano é online, terá a participação do vice-presidente Hamilton Mourão, que comanda o Conselho Nacional da Amazônia Legal

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 10h09
Atualizado 25 de janeiro de 2021 | 19h31

BRASÍLIA - De olho em temas como combate à covid-19, vacinação e conservação da Amazônia, a edição online do Fórum Econômico Mundial não vai contar com participação do presidente Jair Bolsonaro. Na programação, a maior autoridade brasileira prevista é o vice-presidente Hamilton Mourão, que comanda o Conselho Nacional da Amazônia Legal. O evento, chamado de Davos Agenda, começou nesta segunda-feira, 25.

Bolsonaro tem sido alvo de críticas de organismos internacionais pela atuação do governo brasileiro no combate à pandemia do novo coronavírus e também por sua política ambiental. Neste mês, com o colapso do sistema de saúde em Manaus devido à falta de oxigênio para pacientes com a doença, a gestão da crise entrou na mira da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O diretor executivo da OMS, Mike Ryan, chegou a alertar para a situação na capital do Amazonas e disse, em 15 de janeiro, que é “muito fácil” jogar a responsabilidade da crise sobre a nova variante do vírus encontrada na região. “Nós precisamos ser capazes de aceitar, como indivíduos, como comunidades e governos, nossa parte da responsabilidade para o vírus sair do controle”, afirmou na ocasião.

No último sábado, 23, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, virou alvo de um pedido de investigação feito pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, para verificar se houve omissão do titular da pasta no combate à crise em Manaus. Na representação, o procurador cita o fato de a Saúde ter enviado medicamentos sem eficácia comprovada como resposta ao colapso iminente na capital do Amazonas.

A programação do Davos Agenda dedica boa parte dos painéis a discussões sobre a resposta dos países à crise provocada pela pandemia e seus impactos na economia, no sistema de saúde, na educação e na desigualdade. Líderes de países como Alemanha, França, China e Japão, além de ministros de Saúde, o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, e o CEO da Pfizer, farmacêutica que desenvolveu uma das vacinas contra covid-19, devem falar no evento, entre outras autoridades e representantes de bancos e multinacionais influentes na economia global.

Um dos painéis, sobre como repensar as cidades no pós-pandemia, terá a participação do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que tem se colocado como contraponto a Bolsonaro na gestão da crise da covid-19, principalmente na corrida pela vacina. Doria lançou a campanha de vacinação no último dia 17 com a CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan e a farmacêutica chinesa Sinovac, enquanto o governo brasileiro ainda trabalhava para importar doses da vacina produzida por Oxford/AstraZeneca.

Pelo governo federal, a maior autoridade é o vice-presidente Hamilton Mourão, que integrará um painel sobre como financiar a transição da Amazônia para uma bioeconomia sustentável. O evento está previsto para quarta-feira, 27. Questionado sobre a ausência de Bolsonaro na programação, o Palácio do Planalto não respondeu.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, participa na sexta, 29, de uma discussão sobre como restaurar o comércio internacional após os impactos da pandemia, que levaram a uma queda de 9% na troca de mercadorias e serviços entre os países.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, integrará uma mesa com ministros de outros países para debater questões cruciais que requerem coordenação internacional urgente em 2021. Tópicos citados pelos organizadores na descrição desse painel incluem a covid-19 e as mudanças climáticas - o governo brasileiro, porém, adota postura que minimiza os efeitos do clima, e o presidente já se referiu ao tema como “jogo comercial”.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, participa de um debate sobre como destravar inovações para transformar sistemas alimentares.

Esse é o segundo ano em que Bolsonaro desiste de participar do fórum. Em janeiro de 2020, o presidente cancelou a ida ao evento, realizado na Suíça, devido a “uma série de aspectos”, entre eles a segurança e a política. Pouco tempo antes, as tensões entre Estados Unidos e Irã se acirraram após os americanos matarem o poderoso general iraniano Qassem Suleimani. À época, o governo brasileiro negou relação entre o cancelamento e o episódio internacional.

A organização do Fórum Econômico Mundial prevê uma edição presencial do evento em maio, em Cingapura.

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Xi Jinping defende retomada com multilateralismo

Em sua participação no Fórum Econômico Mundial, que este ano é realizado online, o presidente da China pediu a cooperação global no enfrentamento à covid-19

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 15h43

O presidente da China, Xi Jinping, apelou a todos os governos em defesa do multilateralismo e da cooperação global para a retomada do crescimento e do enfrentamento final da covid-19. “Apesar dos trilhões de dólares aplicados em pacotes de alívio em todo o mundo, a recuperação global é frágil e as perspectivas permanecem incertas. Precisamos focar nas prioridades de hoje e combinar a resposta à covid com o desenvolvimento econômico”, afirmou. A pandemia, enfatizou, está longe de ser superada. A fala desta segunda-feira, 25, no Fórum Econômico Mundial, foi uma atualização do discurso de janeiro de 2017, apresentado poucos dias antes da posse do presidente Donald Trump.

O recém-eleito presidente americano foi amplamente confrontado, naquela ocasião, por uma enfática defesa da globalização, do multilateralismo e do respeito a regras e instituições internacionais. Cada ponto valorizado naquele pronunciamento de Xi Jinping foi o oposto das políticas prometidas pelo candidato republicano, aplaudidas pelo presidente Jair Bolsonaro e por ele imitadas nos anos seguintes. Bolsonaro também seguiu a orientação de Trump votando contra interesses chineses na Organização Mundial do Comércio (OMC), acusando a China de ter produzido e espalhado o novo coronavírus e falando mal da vacina chinesa.

A continuidade entre as duas falas de Xi Jinping, apesar do intervalo de quatro anos, foi ressaltada pelo fundador e presidente do Fórum, Klaus Schwab, ao dar a palavra ao presidente chinês. “Jogo de soma zero ou do tipo 'o vencedor leva tudo' não é a filosofia do povo chinês”, disse o presidente chinês. “Devemos manter-nos comprometidos com as leis e as normas internacionais, em vez de buscar cada um a própria supremacia”, acrescentou.

A China, disse ele, mantém o compromisso de partilhar suas experiências com outros países, ajudar os menos preparados para responder à pandemia e trabalhar por maior acessibilidade às vacinas contra covid-1 nos países em desenvolvimento.

O presidente chinês defendeu a expansão do trabalho da Organização Mundial da Saúde (OMS), a reforma da Organização Mundia do Comércio, a solução de diferenças por meio de consultas e o cumprimento dos pactos ambientais, citando o Acordo de Paris e a Agenda 2030. É preciso, disse também, abandonar os “preconceitos ideológicos” e respeitar as diferenças entre países. “A diferença, em si, não é causa de alarme. O que faz soar o alarme é arrogância, preconceito e ódio.”

O presidente chinês discursou na primeira sessão especial da reunião do Fórum, realizada neste ano por meio virtual. Devem participar figuras importantes da União Europeia, como a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, o presidente francês, Emmanuel Macron, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, dirigentes de entidades multilaterais, como o FMI, políticos, ministros, acadêmicos e empresários de dezenas de países de todos os continentes, incluídos os presidentes da Argentina, Alberto Fernández, e da Colômbia, Ivan Duque.

O presidente Jair Bolsonaro participou em 2019, conseguiu usar apenas dez dos 30 minutos destinados a seu discurso, foi incapaz de responder às perguntas de Klaus Schwab e deixou de comparecer a uma entrevista coletiva marcada oficialmente. Para justificar-se dessa quebra de protocolo, acusou a imprensa de agir de forma antiprofissional. Em 2020, cancelou sua participação no Fórum, alegando, entre outros motivos, problemas de segurança.

O vice-presidente Hamilton Mourão está escalado para representar o Brasil num debate sobre Amazônia e questões ambientais. John Kerry, representante do presidente Joe Biden para assuntos de preservação climática e do meio ambiente, deverá tratar do assunto em outra sessão. Kerry foi senador, candidato à Presidência e secretário de Estado do presidente Barack Obama. O ministro da Economia, Paulo Guedes, e o governador de São Paulo, João Doria, também devem participar de sessões.

O tema básico do Fórum, em 2021, é como relançar a economia e reorganizar a cooperação global a partir da experiência e dos desafios da crise gerada pela pandemia. A polarização política deve ser parte desse aprendizado. “Torna-se extremamente problemático enfrentar uma cise de saúde pública quando se está no meio de uma divisão no país”, disse o Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional dos Estados Unidos para Alergia e Doenças Infecciosas. É difícil, afirmou Fauci, imaginar quanto se prejudica a ação sanitária quando o país se divide e quando “a saúde pública se torna um assunto politicamente carregado”, isto é, “quando usar máscara se torna uma declaração política”.

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Xi Jinping defende a criação de regras internacionais em vez de supremacias

Em sua participação no fórum de Davos, que este ano é online, o presidente chinês disse que a melhor forma de enfrentar os problemas atuais é por meio da cooperação entre os países

Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 13h38

BRASÍLIA - O presidente da China, Xi Jinping, defendeu nesta segunda-feira, 25, a criação de leis globais para direcionar o rumo do mundo, no primeiro dia da versão online do Fórum Econômico Mundial, chamada de Fórum Digital de Davos. “Temos que pensar em regras internacionais em vez de supremacias”, afirmou. “Sem regras e leis internacionais, a consequência será devastadora para a humanidade.”

Para o líder asiático, a melhor forma de enfrentar os problemas atuais é por meio do aprendizado que só o trabalho em conjunto oferece. Ele citou algumas vezes as palavras “democracia” e “liberdade” e dezenas de vezes falou em “cooperação”. Também comentou que o mundo precisa ser o mais aberto e inclusivo possível. Dessa forma, segundo o presidente, haverá estabilidade.

Outra expressão que permeou o pronunciamento de Xi Jinping foi multilateralismo. Falhas que por ventura estejam ocorrendo com o atual sistema, de acordo com ele, não podem ser usadas como pretexto para a adoção do unilateralismo. Por isso, defendeu também o diálogo e execrou todos os tipos de guerras, citando até algumas disputas em que seu país está diretamente envolvido, como a guerra comercial com os Estados Unidos.

O líder disse ainda que a China está mais aberta ao comércio e ao desenvolvimento e que vem defendendo uma maior cooperação entre os países em desenvolvimento. De acordo com o presidente, entregar as metas de sustentabilidade firmadas no Acordo de Paris é uma forma de os emergentes também se beneficiarem. “O isolamento sempre fracassa”, considerou.

Depois da fala de Xi Jinping, o fundador do Fórum, Klaus Schwab, elogiou fortemente o trecho em que o chinês defendeu a criação de leis internacionais. O evento ocorreu de forma virtual por causa da pandemia de covid-19. Tradicionalmente, o Fórum de Davos reúne todos os anos a elite econômica e política do mundo nos Alpes suíços.

O presidente da China destacou também a importância da cooperação entre os países para a produção e distribuição de vacinas contra o coronavírus. “O problema do mundo pode ser resolvido, mas não por países isoladamente”, disse. "A pandemia está longe do fim.”

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