Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Sem carros para comprar, locadoras sobem preço de diárias para bancar manutenção de veículos usados

Com indústrias paradas devido à falta de peças, locadoras não conseguem renovar a frota; por enquanto, problema valoriza os seminovos, mas falta de novidade pode afetar os negócios

Juliana Estigarríbia, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2021 | 10h00

As locadoras de veículos estão se preparando para um ano mais difícil do que imaginavam. Diante dos atrasos nas entregas das montadoras, a receita de vendas de seminovos deve cair nos próximos meses, com custos de manutenção crescendo paralelamente. Para preservar caixa, as locadoras têm aplicado reajustes inclusive em contratos de longo prazo, segundo apurou o Estadão/Broadcast, mas a sustentabilidade dessa política de preços deve ser limitada.

Desde o ano passado, a indústria automotiva vem enfrentando problemas de falta de peças devido à severidade da pandemia. Como consequência, as montadoras têm atrasado as entregas de pedidos no varejo e também no atacado (frotistas), ocasionando relevante alta dos preços dos veículos novos no mercado.

Segundo a plataforma de precificação de veículos Checkprice, o preço médio do carro novo subiu de 20% a 25% somente em 2021.

Por ora, as locadoras vêm se beneficiando desses aumentos, porque quando o preço do carro novo sobe, os usados também se valorizam. Em relatório do Bradesco BBI na última sexta-feira, os analistas Victor Mizusaki e Pedro Fontana destacaram as “altas margens” das locadoras no negócio de seminovos, que devem “sustentar o crescimento no primeiro trimestre”.

No entanto, eles alertaram para a queda nas vendas de seminovos diante da ruptura na indústria automotiva. Sem poder comprar carros, as locadoras não conseguem renovar frota. Além da perda de margens com a venda de seminovos, os custos com manutenção crescem de maneira significativa.

“As locadoras já estão trabalhando com a estabilização das entregas das montadoras somente para o último trimestre deste ano ou até no início de 2022”, afirma uma fonte da cadeia, que prefere não ser identificada.

Neste cenário, as locadoras vêm se preparando para um ano difícil. No início do mês, a Localiza anunciou uma emissão de debêntures no valor de R$ 1,2 bilhão, recursos que segundo a empresa deverão ser destinados à recomposição de caixa. Em fevereiro deste ano, a Unidas aprovou uma emissão de R$ 450 milhões em debêntures também para reforço de caixa.

No final de março, a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (ABLA) informou que as encomendas atrasadas na indústria automotiva somam cerca de 100 mil unidades. Os atrasos podem ultrapassar 180 dias e montadoras como a Volkswagen chegaram a suspender temporariamente novos pedidos de frotistas.

Para enfrentar um período de pressão, as locadoras estão reajustando até os contratos de longo prazo para pessoas físicas (também conhecidos como “carro por assinatura”) e de terceirização de frota. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, as empresas têm aplicado cláusulas de reajustes no meio do período de vigência dos contratos em razão da inflação no setor, o que historicamente não acontecia. “As locadoras estão fazendo o possível para preservar o caixa neste ano, mas os reajustes têm um limite de aplicação porque o cliente só vai absorver o que ele puder”, diz uma fonte ligada às montadoras.

Em nota, a Localiza informa que “não houve mudança no modelo de precificação da companhia” e que os contratos de longo prazo, tanto para pessoas físicas quanto para empresas, “são feitos de acordo com condições específicas, desenhadas em função das demandas e necessidades de mobilidade dos clientes, incluindo quilometragem rodada e prazo que normalmente varia entre 24 e 48 meses”.

A empresa acrescenta ainda que “os preços de aluguéis para novas contratações podem variar de acordo com as condições de compra e venda de cada carro e cenário econômico, em especial taxas de juros futuros.”

Pressão adicional

A pressão sobre as locadoras também cresce por um fenômeno recente: a entrada das montadoras no negócio de locação. Volkswagen, Fiat, Jeep, Toyota e Caoa Chery são alguns dos grupos que passaram a oferecer carros por assinatura e gestão de frotas para empresas. Além de brigar por fatias de mercado, as montadoras vão ter mais poder de barganha para negociar com frotistas.

A relação de interdependência entre os dois setores teve momentos de vantagem para as locadoras, que historicamente mantiveram a escala das montadoras, e de aumento de poder de barganha para a indústria. O presidente da Abla, Paulo Miguel Jr., afirmou no mês passado que os reajustes para as locadoras chegaram a 30% em 2020.

“É difícil negociar quando a montadora está com toda a produção vendida. Nós vamos continuar brigando para manter os descontos, mas este vai ser um ano de desafios”, disse em entrevista recente ao Estadão/Broadcast.

O consultor Milad Kalume Neto, da Jato Dynamics, afirma que em um cenário de restrições da produção de veículos, as montadoras terão que equilibrar as vendas para as locadoras e para seus braços de locação. “A tendência é que as locadoras vendam menos seminovos nos próximos meses, diante do aumento das restrições para compra de veículos. As montadoras devem praticar descontos menores também."

Para o analista de investimentos da Mirae Asset, Pedro Galdi, o negócio de seminovos das locadoras deve ficar temporariamente afetado com os atrasos da indústria automotiva, mas a situação deve se estabilizar principalmente porque a economia ainda patina. “As montadoras eventualmente vão ter que ceder.”

Para uma fonte ligada a locadoras, a pressão sobre o caixa das empresas do setor vai crescer muito. “A conta vai chegar para as locadoras.”

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