Sem crédito, médias empresas lutam para sobreviver

Sem crédito, médias empresas lutam para sobreviver

Tidas como motor da economia em cenário de bonança, grupos que faturam até R$ 500 milhões hoje sofrem para renegociar dívidas

Fernando Scheller e Mômica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2016 | 05h00

A crise chegou para todos, mas um grupo de empresas que ganhou escala nos últimos anos, porém ainda não estão com gestão totalmente profissionalizada, mostra-se mais vulnerável neste momento de vendas em baixa e aperto do crédito. Consideradas até pouco tempo atrás a “mola propulsora” do crescimento econômico, as médias empresas – indústrias, varejistas e prestadoras de serviços que geralmente têm controle familiar e faturam de R$ 20 milhões e R$ 500 milhões por ano – agora se veem ameaçadas pela turbulência econômica que não parece ter data para terminar.

“Se as médias começarem a quebrar, como já está acontecendo, virá a tragédia do desemprego para o Brasil”, diz Marcelo Gomes, sócio-diretor da consultoria Alvarez & Marsal, especialista em recuperação de negócios em crise. Segundo levantamento feito em 2015 pela área corporativa do HSBC, há 7,7 mil negócios do gênero no País, que respondem por 13,7% do total nacional de empregos.

Grandes bancos hoje oferecem a negócios que faturam centenas de milhões de reais as mesmas condições de microempresários – Itaú, Bradesco e Santander trabalham, por exemplo, com a categoria PME (que junta micro, pequenas e médias empresas sob um só “teto”). Os balanços desses bancos refletem a gravidade da situação atual dos pequenos e médios negócios. No Itaú, a inadimplência das PMEs é 277% maior do que a das grandes companhias; no Bradesco, a diferença é de 1.000% e os calotes chegam a superar os das pessoas físicas.

No Santander, diz o diretor de empresas e instituições Ede Viani, são consideradas empresas médias as com receita entre R$ 20 milhões e R$ 200 milhões. Ele explica que esses negócios são atendidos em espaços específicos, e não nas agências. No que se refere aos juros, contudo, fontes dizem que não há distinção entre pequenas e médias. “O custo (de financiamento) está maior, até mesmo para as empresas grandes”, frisa Viani.

As taxas de juros para refinanciar empresas médias hoje encosta em 20% ao ano. É o que ocorreu com o empresário Vanoil Pereira, dono da empresa de calçados Passarela. Depois de investir para ampliar o e-commerce da marca, ele se viu sem caixa para enfrentar o período de vendas magras. Resultado: está em fase de renegociação com cinco instituições. Em um dos alongamentos, o juro anual ficou em 17%.

Saída. O que Pereira e outros empresários em dificuldades tentam fazer é garantir que a renegociação de seus débitos seja feita por via extrajudicial. “As empresas querem evitar a todo custo a recuperação judicial”, diz Gomes, da Alvarez & Marsal. Fontes dizem que essa saída hoje é vista como uma “sentença de morte” pelos credores. 

 Apesar disso, nos últimos meses, varejistas como Barred’s (roupas femininas), BMart (brinquedos) e GEP (dona da Luigi Bertolli, da Cori e da representação da Gap no Brasil) tiveram de pedir recuperação judicial, que garante um período de seis meses para negociar com credores. 

 “As empresas sempre acham que vão sobreviver à crise e só buscam ajuda quando a situação está insustentável”, diz a advogada Juliana Bumachar, sócia do Bumachar Advogados Associados. Segundo a especialista, as médias só buscam ajuda quando a recuperação judicial já é praticamente inevitável. 

É o caso da catarinense Indigo Jeans, que fatura R$ 70 milhões e sofre com o alto endividamento. A têxtil mudou a gestão e contratou Luis Paiva, da Corporate Consulting, para fazer reestruturação financeira e operacional. A nova direção chegou em janeiro, mas, segundo apurou o Estado, a avaliação é que as chances de sucesso seriam maiores se a troca de gestão tivesse sido feita seis meses antes. Com 500 funcionários, a têxtil, que tem marca própria e é fornecedora da Renner, tenta reativar as exportações para aproveitar o dólar alto. Como muitas empresas do mesmo porte, ela tem só uma saída: correr contra o relógio.

Incerteza política preocupa empresas de gestão familiar 

As empresas com administração familiar estão preocupadas com o futuro. Uma pesquisa feita pela KPMG mostra que 58% dos empresários estão preocupados com as incertezas políticas e 48% com a perda de rentabilidade. Foram ouvidos 201 empresários de 16 Estados. O mesmo caminho aponta uma pesquisa feita com empresas familiares pela consultoria PwC entre 2012 e 2015. Há quatro anos, 62% olhavam com preocupação a economia do País, índice que subiu para 71% na pesquisa mais recente.

Em 2012, 70% sentiam que a empresa era saudável o suficiente para passar por turbulência sem cortar empregos; agora, esse porcentual caiu para 49%. “O cenário desses negócios, agora, é um só: preservar o caixa. Nesse momento de dificuldades, não há nada a fazer. É preciso cortar custos”, diz o sócio da PwC, Carlos Mendonça.

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A vantagem da aversão ao risco

A opção por uma estratégia conservadora dá fôlego, agora, à operação da indústria de alimentos Cepêra, que fatura cerca de R$ 200 milhões ao ano. Segundo Décio Costa Filho, diretor e herdeiro da companhia, a opção foi sempre dar passos pequenos para evitar grandes tombos. “Poderíamos ter crescido mais, tomando mais risco. Mas também poderíamos nem estar falando agora”, diz o empresário.</p>

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2016 | 05h00

O negócio, fundado na capital paulista, mas hoje com produção baseada em Monte Alegre (SP), tinha planos de pôr o pé no acelerador em 2015, mas, diante da realidade muito pior do que a prevista neste ano, colocou alguns dos projetos na gaveta, como a abertura de um terceiro turno de produção. “Pelo menos não conseguimos demitir ninguém”, diz. A empresa, que tem 400 funcionários, não está imune à crise. Embora o negócio de condimentos siga saudável, a venda de produtos importados, como alcaparras e azeitonas, caiu 20%.

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'Agora voltei a dormir'

As últimas semanas do empresário Vanoil Pereira, dono da Passarela – rede de calçados com 40 unidades no interior de São Paulo e forte presença no e-commerce – foram tensas. Ele diz que só voltou a dormir quando conseguiu concluir a negociação das dívidas de curto prazo com três do cinco bancos que são credores da companhia. </p>

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2016 | 05h00

Apesar dos juros mais altos do que os praticados há alguns anos atrás, Vanoil diz que ganhar tempo, em tempos de crise, é importante. Agora, boa parte dos débitos que venceriam em 2016 foram alongados em cinco anos. A Passarela, que chegou a atingir R$ 500 milhões de faturamento em seu auge, viu suas vendas caírem 10% no ano passado.

Neste ano, após janeiro e fevereiro mais razoáveis – em que a retração nas vendas ficou abaixo de 10% –, março trouxe um desastre: com a indefinição política, diz ele, a queda do movimento no site da Passarela superou a marca de 20%.

Há mais de um ano, Vanoil vem tentando achar um sócio para a Passarela. Apesar de ter um contrato fechado com o Bradesco BBI, a crise adiou os planos indefinidamente 

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