FELIPE RAU/ESTADÃO
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Sem debate, enfrentaremos crise como a Grécia ou empobrecimento como Argentina, diz Lisboa

Segundo o diretor-presidente do Insper, não estabelecer uma agenda para os próximos anos condenará o País a um longo período de estagnação

Mário Braga, O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2015 | 15h32

SÃO PAULO - O economista e diretor-presidente do Insper, Marcos Lisboa, afirmou que se não resolver o desequilíbrio das contas públicas, o Brasil caminha para a insolvência fiscal. "Se não houver um debate sobre o que é preciso para os próximos anos nesse aspecto, enfrentaremos uma grave crise fiscal, como a Grécia, ou um longo processo de empobrecimento, como a Argentina", disse, durante 9º Encontro Paulista de Fundações, realizado na manhã desta quarta-feira, 2, na capital paulista.

Para o diretor-presidente do Insper, o debate sobre as questões fiscais que se impõe sobre o País é difícil. "Vamos fazer uma agenda de isonomia tributária ou continuar com regras que fazem muitos pagar muito imposto e outros pagarem menos?", questionou.  

Segundo o especialista, atualmente existem "dois Brasis": um em que se paga 34% de impostos e outro em que se paga 9,5%, em referência a setores da economia que contam com alíquotas diferenciadas. "Tem um Brasil que paga juros de mercado de 18% e outro em que se paga 3,5%", exemplificou, em referência à política de crédito subsidiado incentivada pelo governo federal.

Segundo ele, apesar de não ser fácil, não estabelecer uma agenda para os próximos anos leva o País a estar condenado a um longo período de estagnação. Apesar da perspectiva não ser favorável, Lisboa pondera que as medidas necessárias não devem ser adotadas em um curto espaço de tempo. "O governo poderia ter anunciado neste ano o debate de um cronograma de ajuste da previdência para os próximos 15 anos", exemplificou. "Não é preciso abrir a economia amanhã, pode-se fazer este processo em cinco, sete anos, mas é preciso apresentar um plano", disse. 

Porém, a opção por não fomentar o debate e uma direção à economia agrava o atual cenário de recessão. "É preciso retomar o norte da economia desde a década de 90 até o início do segundo mandato do governo Lula, de economia mais aberta, mas pró-mercado e não pró-empresário", avaliou o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 2003 a 2005. Segundo Lisboa, o Brasil já caiu para o pior desempenho econômico entre países emergentes que não estão em guerra, excetuando Argentina e Venezuela, casos mais graves, em sua avaliação.

 

No entanto, o especialista não atribui as responsabilidades pela atual situação econômica exclusivamente ao governo federal. "Em 2010, 2011, a nova matriz econômica foi aplaudida em praça pública, mas agora, como diz o (economista) Samuel Pessoa, ficou órfã porque todos a renegam", comentou. Ela destaca, porém, que houve um erro de diagnóstico na política econômica e que a adoção de regras de conteúdo nacional, por exemplo, que parecem uma boa ideia, acabam levando à perda da competitividade da indústria nacional. "A economia ficou fechada e ficou mais pobre, mas foi a indústria que escolheu ser protegida e ficou fechada", afirmou.

Entre as situações que devem ser enfrentadas pelo País nos próximos anos, segundo Lisboa, está o crescimento do gasto com previdência em um ponto porcentual do Produto Interno Bruto  (PIB) a cada governo e a elevação dos investimentos em educação até o nível de 10% do PIB. "Não tem aumento de imposto de que dê conta disso", disse. Para Lisboa, nessa trajetória e sem resolver questão fiscal, o País caminha para a insolvência. Um dos sinais que já apontariam nesse sentido é a situação das contas públicas nos Estados. "Não sei quantos Estados conseguirão pagar a folha de pagamento em 2016. O caso do Rio Grande do Sul é só o primeiro", afirmou.

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