Sem Doha, Lula diz que saída são os acordos bilaterais

Após o fracasso das negociações daRodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), opresidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feiraque o Brasil vai direcionar esforços para realizar acordosbilaterais. "O comércio vai continuar. Vamos continuar com os acordosbilaterais", disse Lula a jornalistas, após almoço com opresidente da Costa Rica, Oscar Arias, no Itamaraty. Segundo Lula, o Brasil deve fechar acordos com a UniãoEuropéia e negociar com o Sistema de IntegraçãoCentro-americano (Sica), bloco comercial da América Central. O presidente ponderou que as negociações sobre Doha podemser retomadas depois das eleições nos Estados Unidos, emnovembro deste ano, e na Índia, onde pode ser convocada mas nãotem data definida. As eleições, argumentou Lula, fazem com queos dirigentes evitem tomar medidas antipáticas aos eleitores. "Ainda acho que nós poderemos fazer este acordo. Temeleições em dois países importantes. Ainda é possível continuartrabalhando este acordo. De forma diferente e com outrosinterlocutores", afirmou. O presidente disse que sentiu falta de maior flexibilizaçãopor parte dos países ricos na mais recente rodada de discussõespara a liberalização do comércio mundial, realizada em Genebra,na Suíça, e que fracassou na terça-feira. "Os governantes perderam uma oportinuidade extraordináriade apresentar ao mundo, e sobretudo à parte mais pobre, que nósiríamos garantir que houvesse paz, democracia e não tantaimigração, que as pessoas teriam salário e comida. Para isso,os países ricos tinham que flexibilizar." Declarou ainda que o fracasso se deveu a um problemapolítico e que o acordo está nas mãos dos dirigentes mundiais. "Menos do que econômico, nós tínhamos um problema políticona OMC", disse. "Precisa sentar presidentes eprimeiros-ministros para tomar uma decisão." Lula desconversou quando perguntado sobre as críticaspublicadas na imprensa argentina sobre a postura dosnegociadores brasileiros em Genebra, segundo as quais oItamaraty teria "traído" os países vizinhos ao fazer concessõespara fechar o acordo. Ele argumentou que cada governo procura defender osinteresses de seu próprio país. "Você acha que eu posso falarde Estado para Estado só porque alguém especulou?", rebateu. Antes da entrevista, o presidente afirmou em discursotambém no Itamaraty que espera que os progressos feitos duranteas negociações da Rodada de Doha não sejam desperdiçados. "Esperamos que os avanços já alcançados durante asdiscussões sejam preservados. É o que esperam os países maispobres, que mais teriam a ganhar com um acordo", afirmou. Lula disse que, apesar da frustração com o fracasso dasnegociações, o país vai continuar "empenhado na luta para aliberalização do comércio agrícola". As negociações da Rodada de Doha, lançada em 2001 parapermitir maior desenvolvimento dos países mais pobres, entraramem colapso na terça-feira depois de nove dias de discussões emGenebra com ministros dos principais países envolvidos. A questão de salvaguardas exigidas por países como Índia eChina, que gostariam de uma proteção variável a seusagricultores em momentos de importações de alimentos em maioresvolumes, parece ter sido o ponto crítico, depois que temasdebatidos por um período muito maior, como os subsídiosnorte-americanos, foram praticamente resolvidos. Outros participantes da reunião em Genebra, a exemplo deLula, defenderam uma eventual retomada das conversas de ondeelas pararam, aproveitando os documentos apresentados emGenebra, buscando um entendimento. Mas não há previsão para uma nova tentativa de conclusão daRodada de Doha e vários negociadores acreditam que pode demorarvários anos. (Edição de Marcelo Teixeira)

FERNANDO EXMAN E CARMEN MUNARI, REUTERS

30 de julho de 2008 | 16h42

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