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Paulo Bilyk: "Quem está comprado em 4 ou 5 ações corre risco grande de perder tudo"

'Sem educação financeira, armaram uma bomba relógio'

Para especialista no comportamento da base da pirâmide, houve expansão de crédito sem orientação ao consumidor

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2014 | 02h09

Celso Amâncio entrou nas Casas Bahia em 1976 para trabalhar na finalização do crédito. A rede tinha 13 lojas em São Paulo e ele visitava a casa dos clientes que, mesmo sem comprovante de renda, recebiam crédito. Quando saiu, em 2005, era diretor da área e a rede tinha 500 lojas no País.

Graças a essa experiência, tornou-se um dos maiores especialistas em financiamento para a base da pirâmide no Brasil. Presta consultoria para lojas, bancos e financeiras. Seu nome aparece com destaque nas três páginas do livro A Riqueza na Base da Pirâmide, do indiano C.K. Prahalad, um dos primeiros especialistas em estratégia empresarial a identificar o poder de consumo das classes emergentes. "Houve uma avalanche de crédito, mas sem educação financeira. armaram uma bomba relógio", diz na entrevista que segue.

A inadimplência subiu muito, depois baixou e parece sob controle mesmo com a última alta em abril. Está tudo bem?

Não, não está. Essa classe emergente tem hoje pelo menos cinco cartões de crédito no bolso. Se não consegue pagar um, ela passa a dívida para outro cartão e para outro, e outro. A inadimplência não aparece e ninguém tem coragem de falar isso.

Por quê?

Formou-se uma bolha. Tanto é que várias acordos são feitos. Fizeram até feirões de negociação de dívidas, muitas vezes com perdão da dívida, com o pagamento do principal ou 50% do principal. Para chegar a essa situação, é porque o mercado ficou complicado.

As dívidas não foram quitadas. Foram sendo renegociadas e deixaram de constar como dívidas?

Exatamente. Centenas de milhares de pessoas entraram nesses programas e estão aí para comprar novamente. Mas é preciso entender uma coisa: houve uma mudança no perfil desses tomadores de crédito. A renda das classes C e também da D e da E está comprometida com coisas com as quais eles não tinham no tempo do carnê. Estes têm despesas com celular, com TV por assinatura, com internet. E eles têm os cartões de crédito. Não estou dizendo que o cartão é um vilão. Não. O crédito é muito importante. Mas precisa vir acompanhado de educação financeira. O problema é que houve indiscriminação na oferta de crédito sem a educação. Primeiro, as lojas e financeiras disputaram cadastros - e não clientes - para criar uma massa de tomadores de empréstimo. De 2000 para cá, deram crédito por telefone. Na rua, puxavam as pessoas pelo braço na calçada. Mais recentemente, o governo incentivou o consumo. Mas crédito é uma coisa e poder de compra é outro. O banco pode me dar um crédito de R$ 150 mil. Manda uma carta para você. Eu rasgo a carta. Mas essas pessoas não tiveram educação financeira. Aprendem na prática. Errando. Devendo. Sujando o nome. Pagando taxas de juros altíssimas.

A forma de conceder o crédito não é adequado, então?

Não. Nessas classes é preciso trabalhar com crédito familiar. Hoje, estão trabalhando com a inadimplência familiar. Porque os cartões, os nomes, as contas são compartilhados dentro das famílias. Depois que você paga um cartão com outro cartão, usando os seus cartões, você vai lá e roda com os cartões da sua esposa. A inadimplência é familiar.

Qual mecanismo identifica esse tipo de endividamento que o senhor está falando?

Não existe. O sistema pode identificar um devedor, mas não sabe que, de arrasto, ele comprometeu a renda da família inteira atrás dele. Sem educação financeira, armaram uma bomba relógio. / A.S.

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