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Sem emprego, moradores do interior vivem de bicos

População de Capela do Alto, no interior de São Paulo, busca oportunidades nas cidades vizinhas

José Maria Tomazela | ENVIADO ESPECIAL A CAPELA DO ALTO (SP), O Estado de S. Paulo

02 de outubro de 2016 | 05h00

Desempregada desde junho, depois de quase três décadas trabalhando com registro em carteira, a cozinheira Sônia Maria de Lima, de 52 anos, decidiu abrir um salão de beleza na garagem de casa, no centro de Capela do Alto, interior de São Paulo. “Desde que abri, o salão está assim, vazio. Os poucos clientes ainda pedem para pagar só no fim do mês.”

Em julho, Capela do Alto foi o município de São Paulo que mais perdeu postos de trabalho, segundo dados do Cadastro Geral dos Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego. A cidade de 18,5 mil habitantes registrou 89 admissões e 365 dispensas, saldo de 276 empregos a menos e variação relativa de -6,33%, a pior do Estado. Um dos filhos de Sônia faz parte dessa estatística: está desempregado há dois meses, desde que uma empresa produtora de grama fechou e dispensou os 15 funcionários. Sem chance de nova colocação na cidade, ele faz “bico” como ajudante geral em Tatuí, município vizinho.

A agricultura, base da economia de Capela do Alto, sentiu os efeitos climáticos e a crise econômica, segundo o engenheiro agrônomo Antonio Roberto Vieira de Campos, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado. “Tivemos chuva excessiva até março, depois granizo, seca extrema, geadas e calor no inverno, tudo isso combinado com a falta de crédito. A safra do milho verde, um de nossos principais produtos, fracassou e um grande contingente ficou sem trabalho”, disse. 

De acordo com o diretor da Cooperativa do Bairro do Morro (Coobamo), Marcelo Fiusa, muitos produtores tiveram máquinas e terras penhoradas por causa de dívidas com bancos. “Sem produção, a mão de obra é dispensada”, diz ele.

O clima e a crise atingiram também a produção de hortigranjeiros do agricultor Igor Angelo, de 23 anos. Depois de perder cerca de cinco hectares de verduras, atingidos por granizo, ele está sendo obrigado a passar o trator sobre as novas lavouras de repolho e alface por falta de preço. “Sem dinheiro, o consumidor não está comprando, então nem compensa colher”, disse. Desde abril, ele vem reduzindo a mão de obra: cinco dos dez empregados já foram dispensados. 

Sem emprego, moradores recorrem a bicos para sobreviver. Depois de ser cortado de uma granja de suínos que reduziu a produção, José Antonio do Prado, de 55 anos, passou a catar material reciclável para sustentar a mulher e dois filhos. Um deles, Ademir, de 26 anos, trabalha como “turmeiro” na colheita de laranjas na cidade de Boituva. A costureira Amara Ferreira da Silva, de 62 anos, perdeu a vaga numa confecção e transformou sua garagem num brechó. O costureiro Ronaldo Ferreira, de 27 anos, deixou o emprego numa fábrica de bolsas depois de ficar três meses sem receber salário. Ele, agora, é candidato a vereador.

Serviço público. Maior empregadora da cidade, com 700 funcionários, a prefeitura também não escapou da crise. Para cortar gastos, o atendimento ao público foi reduzido à metade – das 8h às 11h30 – e 30% dos servidores comissionados foram dispensados. Os que ficaram, agora acumulam cargos. A coleta de lixo na zona rural foi suspensa. Máquinas da frota municipal estão paradas por falta de combustível. Para reparos em estradas rurais, os moradores se cotizam e pagam o óleo diesel.

O prefeito de Capela do Alto, Marcelo Soares da Silva (PV), disse que a crise é bem pior do que se imaginava. “A inadimplência de impostos, que era de 22%, hoje está em 47%. Se o munícipe tem de decidir entre pôr comida na mesa, comprar remédios ou pagar o IPTU, é óbvio que o imposto vai ficar para trás”, afirma o prefeito. “Se tivesse amparo legal, eu decretava a falência no município.” 

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