Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

'Sem fazer o dever de casa, vamos ficar alijados do comércio mundial', diz presidente da AEB

Para José Augusto de Castro, indústria brasileira é pouco competitiva e já vinha perdendo o espaço no mercado americano pela burocracia, alta tributação e infraestrutura precária

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 08h00

RIO - Pouco mudará para as exportações brasileiras de manufaturados com o futuro governo do democrata Joe Biden nos Estados Unidos, na avaliação de José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). No governo do republicano Donald Trump, o bom relacionamento pessoal com o presidente Jair Bolsonaro não impediu que os americanos reduzissem a cota das exportações de aço brasileiro, no fim de agosto, e anunciassem, em outubro, mais tarifas nas compras de folhas de alumínio. Para Castro, as ações Trump foram pontuais e, apesar da retórica protecionista, na prática, tiveram efeito pequeno no todo.

Segundo o presidente executivo da AEB, nos últimos anos, a indústria brasileira já vinha perdendo espaço no mercado americano por causa de perda de competitividade, independentemente de restrições tarifárias. O problema aí é o chamado “custo Brasil”, associado a burocracia, elevada e complexa carga tributária e infraestrutura precária.

“Qualquer que seja o governo americano, nosso dever de casa se mantém. Estamos fora do comércio mundial, não só com os EUA. Sem fazer o dever de casa, vamos ficar alijados do comércio mundial”, afirmou Castro.

Segundo o presidente executivo da AEB, a redução da cota de aço é mais importante do que a ação nas placas de alumínio, mas, no médio prazo, como a indústria siderúrgica americana depende de importar os semiacabados de fornecedores como o Brasil, as restrições tendem a cair. Nesse caso, embora essa questão pareça longe das prioridades do novo governo liderado pelo presidente eleito Biden, o quadro poderá melhorar para o Brasil.

O cenário também pode melhorar, no médio prazo, com a sinalização de Biden em prol do multilateralismo. E, com um governo mais normal nos EUA, aumenta a previsibilidade do comércio mundial, que, durante o governo Trump, foi marcado por anúncios intempestivos pelas redes sociais.

Política ambiental

O problema maior, na análise de Castro, está na mudança do posicionamento dos EUA em relação à sustentabilidade ambiental e às mudanças climáticas com Biden. Isso poderá trazer dificuldades para as exportações de matérias-primas agrícolas do Brasil, principal destaque nas exportações brasileiras. O presidente executivo da AEB lembrou que, nas estratégias de comércio global, os EUA concorrem com o Brasil como fornecedores de alimentos – são as duas principais potências agrícolas do planeta.

Dessa forma, a associação da produção agrícola nacional com a percepção negativa em relação política ambiental brasileira em todo o mundo é útil para os exportadores de grãos americanos. “Os EUA são nossos grandes concorrentes e terão interesse em bater no Brasil por causa do meio ambiente”, disse Castro, ponderando que, no médio prazo, nem Brasil nem EUA conseguem atender, sozinhos, a demanda global por alimentos e, por isso, haverá procura pela produção agrícola dos dois gigantes.

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