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Sem fusão de teles nos EUA, China pode assumir liderança no 5G, diz executivo

Compra da Sprint pela T-Mobile foi anunciada no fim de abril, mas ainda esbarra em barreiras regulatórias

Anne Warth, enviada especial

12 Setembro 2018 | 19h49

LOS ANGELES - A fusão bilionária entre Sprint e T-Mobile, duas das maiores operadoras de telefonia celular que atuam nos Estados Unidos, ainda precisa ultrapassar barreiras regulatórias. Mas, para defender a operação, as empresas escalaram o presidente da Sprint, Marcelo Claure, que fez uma apresentação contundente por regras mais flexíveis, sob risco de que a China assuma liderança mundial no 5G e em novos serviços digitais do setor no futuro.

"A única forma de os EUA continuarem líderes é se deixarem a Sprint e a T-Mobile se unirem, porque são as únicas com espectro e dinheiro para liderar essa corrida pelo 5G", disse, em discurso na aberta do Mobile World Congress Americas 2018, em Los Angeles.

Atualmente, a T-Mobile é a terceira maior operadora nos EUA, e a Sprint a quarta, atrás da AT&T e da Verizon. A compra da Sprint pela T-Mobile foi anunciada no fim de abril. Juntas, elas terão quase 127 milhões de clientes e serão a sexta maior operadora do mundo. Nos EUA, a AT&T tem 141 milhões de usuários, e a Verizon, 150 milhões.

Claure é um executivo que se tornou celebridade nos Estados Unidos e tem defendido a fusão das companhias de forma agressiva. Segundo ele, foi a liderança norte-americana na tecnologia 4G que permitiu a criação e o desenvolvimento de um ecossistema de aplicativos, como Facebook, Netflix e Alphabet, por exemplo.

"Não podemos perder a liderança que tivemos no 4G agora no 5G", disse. "A China e a Coreia estão lutando fortemente na corrida pelo 5G", acrescentou. O CEO disse que a nova empresa vai construir a rede 5G mais rápida do mundo, 100 vezes mais velozes que o 4G, e que deve investir US$ 40 bilhões nos próximos três anos.

A fusão da T-Mobile e da Sprint ainda precisa ser aprovada pelo governo norte-americano, como a Federal Communications Comission (FCC), órgão regulador semelhante à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A fusão também precisa ser autorizada pelo Departamento de Justiça dos EUA, a exemplo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O órgão já rejeitou, no passado, uma operação semelhante entre AT&T e T-Mobile.

Brasil

Assim como os EUA, o Brasil também possui regras que impedem que empresas assumam um poder de mercado excessivo, que poderia prejudicar o consumidor. A Oi, por exemplo, que ainda passa por dificuldades devido ao processo de recuperação judicial, não poderia ser comprada pelas concorrentes Telefônica, Claro e TIM, por exemplo, segundo as regras atuais. Por outro lado, a expectativa de que um novo operador se interessasse pela Oi ainda não se confirmou. A discussão que ocorre nos EUA, portanto, é atual e pode chegar ao Brasil.

Segundo Claure, no caso das empresas norte-americanas, há complementaridade: para o 4G, por exemplo, a T-Mobile usa a faixa de 700 MHz, enquanto a Sprint utiliza a de 2,5 GHz. Quanto mais alto o espectro, maior a velocidade de conexão de internet, mas menor o alcance do sinal - ou seja, são necessárias mais antenas no 2,5 GHz do que no 700 MHz.

"Vamos cobrir também o interior e a área rural dos EUA. Mais da metade dos americanos têm apenas uma opção de banda larga. Vamos levar mais competição, reduzir os preços e tomar clientes da Verizon, Comcast e AT&T", disse o executivo. Ainda segundo ele, embora seja uma fusão, milhares de empregos serão criados.

Futuro

Para o executivo, as companhias que conseguirem unir o 5G à inteligência artificial vão vencer a corrida tecnológica. Segundo ele, até 2030, o mundo contará com 1 trilhão de equipamentos conectados que vão se comunicar entre si, gerando informações que serão analisadas e processadas de forma massiva.

Mais do que veículos autônomos, que já devem estar em operação em Tóquio em 2020, essa nova tecnologia pode oferecer soluções até mesmo para a crise da mídia, prevê o executivo. Ele mencionou o caso da empresa chinesa Bytedance, dona da Toutiao, uma plataforma que oferece conteúdo personalizado para os clientes, de acordo com preferências coletadas de forma automática, e da Tik Tok, um misto de plataforma de vídeo, música e rede social. "Quanto maior o tempo de conexão de cada pessoa, mais os aplicativos aprendem sobre o cliente e mais cara a publicidade", disse.

Na área de saúde, Claure acredita que o 5G e a inteligência artificial poderão oferecer diagnósticos mais precisos e prever até mesmo se e quando uma pessoa pode desenvolver doenças como câncer. "A inteligência artificial fará análises conforme a leitura do DNA. Os medicamentos serão customizados e você nunca ficará doente", disse.

*A repórter viajou a convite da GSMA, associação global das operadoras móveis

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