Sem gol salvador

Governo tenta chegar vivo às eleições, mas são consegue sair da defesa

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 05h00

Não fossem os dois gols no finalzinho do jogo contra a Costa Rica e o “dream team” do futebol brasileiro estaria crucificado. Principalmente Tite, incensado como símbolo da renovação dos técnicos, capaz de domar os rompantes de Neymar e recuperar alguns jogadores que haviam sucumbido àquele 7 a 1 de triste memória.

Não fosse a certeira cobrança de falta de Kroos, no último momento da partida contra a Suécia, e a campeã Alemanha quase com certeza seria despachada ainda na primeira fase da competição. Ainda vêm por aí muitas emoções, mas, por enquanto, a provável sobrevivência das equipes do Brasil e da Alemanha deve-se às vitórias dramáticas da sexta-feira e do sábado.

Na economia, pelo visto, o governo também parece à espera de um gol salvador. Inicialmente festejado pelos mercados e pelos setores produtivos por sua ação econômica, apesar da gigantesca impopularidade, Temer só se preocupa agora em chegar vivo às eleições. Tudo indica que mudanças de posicionamento e/ou jogadas de efeito não conseguirão mudar o resultado da partida.

O cenário externo continua instável, oscilando conforme o andamento da economia americana e as disputas no Oriente Médio. Internamente, o Congresso não faz outra coisa senão criar embaraços à gestão da economia, principalmente em termos de pressão sobre o caixa. Só na semana passada, deu passagem a novos benefícios fiscais a transportadoras e permitiu a venda direta das usinas para os postos de combustível, como mostrou a edição de sábado do Estadão.

Fraco, o governo se enrosca nas próprias pernas para administrar conflitos, a exemplo do que ocorreu com a edição da tal tabela dos fretes. Mesmo o Banco Central, que até pouco tempo atrás se concentravae na função de reanimar a atividade econômica, via derrubada dos juros, agora tem de correr para conter a onda de desvalorização da moeda. E, por fim, os candidatos a ocupar a cadeira de Temer a partir de 2019, a menos de quatro meses das eleições ainda decidem para que lado cair, ou melhor, em quais parcerias devem apostar. Independentemente dessas negociações políticas e de seus desdobramentos, o fato é que o quadro econômico que se forma para o próximo ano não é tranquilizador. Vamos aos prognósticos para os principais indicadores.

1) Atividade econômica – Os números disponíveis na praça desautorizam qualquer expectativa de recuperação mais forte da economia a curto prazo. Caiu em desuso aquele argumento de que “um dia a população vai reconhecer que tudo melhorou”. Antes mesmo de uma mudança na percepção da retomada, houve uma parada na própria retomada. Resta, agora, apontar os culpados – no caso, as dúvidas sobre quem e o que virá depois das eleições. Ainda há uma certa dispersão nas previsões do PIB de 2018, mas pode-se dizer que chegam mais perto de 1% do que de 2%, embora a pesquisa Focus ainda registre 1,76%.

2) Inflação – a alta de 1,11% no IPCA-15 de junho balançou as convicções de quem já contava com taxas muito reduzidas nos próximos meses. Claro que se trata de um resultado pontual, desencadeado pela parada dos caminhoneiros. Ninguém imagina, por exemplo, que a batata, símbolo da disparada de preços na fase de desabastecimento, continuará aumentando à razão de 45% em um único mês. Tanto assim que os mercados continuam apostando num IPCA bem abaixo da meta – 3,88%, frente a 4,5%. Há, porém, uma avaliação de que a inflação só não vai mais longe por um “mau motivo”. Ou seja, a atividade econômica morna, quase fria, que tem impedido o repasse direto das pressões inflacionárias para os preços.

3) Situação fiscal – Ninguém quer mais ouvir falar em ajuste fiscal. As vésperas das eleições, tudo conspira para o aumento de gastos e/ou perda de receitas. É verdade que as previsões para este ano continuam apontando para um delicado equilíbrio. Segundo o relatório de junho da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, o déficit primário deve ficar em R$ 149 bilhões, já computados os efeitos da liberação de recursos na greve dos caminhoneiros, R$ 10 bilhões abaixo da meta oficial. De 2019 para a frente, contudo, só incertezas. Como se pode ver, indicadores que resumem um desafio e tanto para um novo técnico, uma nova equipe e principalmente uma nova estratégia de jogo.

* CIDA DAMASCO É JORNALISTA

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