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Sem medo da inflação

O fantasma da inflação começa a aparecer em algumas análises. Basta ensaiar alguma recuperação econômica que os guardiões da inflação começam a prever nuvens negras a caminho da retomada do processo inflacionário. O boletim Focus, porta-voz do mercado financeiro, prevê inflação de 5,27% para este ano e 5,50% para 2013. Prevê o PIB crescendo 3,3% neste ano e 4,2% para o próximo, ou seja, se crescer vai ter inflação. Essas previsões falham até para o próprio mês. Por exemplo, para este mês o Focus previu no dia 16 inflação de 0,49% e a prévia do IPCA no dia 22 deu 0,25%, metade! E ainda fazem previsão para 2013.

AMIR KHAIR, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2012 | 03h04

Esse fantasma é o principal causador do voo de galinha, que caracteriza a evolução da economia. Se há perspectiva de crescimento econômico essas análises propõem abatê-lo em prol da inflação. O pior é que essas análises têm dominado a formulação da política econômica. Quem as conduz é o Banco Central (BC) que, para combater a inflação, mantém o crédito restrito, com o depósito compulsório dos bancos no BC elevado, com Selic alta para valorizar o real, barateando os produtos importados e, não se preocupa com a agiotagem bancária, que corre solta no País.

A ameaça mais comum, que subsidia essas análises, é no uso da inflação dos serviços (médico, dentista, pedreiro, manicure, empregada doméstica, aluguel, etc.), que não sofre concorrência externa e, assim, tende a crescer acima da inflação medida pelo IPCA, caso o poder aquisitivo cresça. Preveem inflação de 9% neste ano para os serviços e daí concluem que a inflação irá crescer.

A análise mais completa da inflação envolve, além dos serviços, os preços dos produtos importados e os preços administrados (definidos pelo governo). Na composição do IPCA, metade é influenciada pelo preço do produto importado, 30% pelos preços administrados (combustíveis, energia elétrica, comunicações, tarifa de fornecimento de água, tarifa do transporte coletivo, etc.) e 20% pelo preço dos serviços. Assim, caso os serviços atinjam a inflação de 9% neste ano, irão contribuir com 1,8 ponto para a inflação (20% de 9%). Como os preços dos produtos importados estão estagnados desde março de 2011, devido à crise que atinge a Europa, é de se esperar contribuição nula ou no máximo de 1 ponto para a inflação. Os preços administrados, especialmente, em época eleitoral evoluem abaixo da inflação. Supondo que cresçam 4% neste ano sua contribuição para a inflação será de 1,2 ponto (30% de 4%). Assim, a inflação do ano seria, no máximo, de 4% (1,8 + 1,0 + 1,2).

É importante caracterizar a evolução e perspectiva desses componentes da inflação:

1. Preço dos produtos importados. Comparando com março de 2011 o preço dos produtos importados destinados ao consumo (bens não duráveis) caiu 6,0% e sua quantidade importada cresceu 10,0% e o preço das matérias primas, que impacta o custo da produção ficou estabilizado.

A razão disso reside no fato estar ocorrendo super oferta de produtos no mercado internacional, deprimindo seu preço. Isso é consequência da crise, que reduziu o poder aquisitivo da população dos países desenvolvidos, diminuiu o ritmo de crescimento da China e inundou o mercado de moedas emitidas pelos bancos centrais dos países desenvolvidos. O resultado foi uma alteração profunda no comércio internacional, elevando a pressão exportadora desses países para os países emergentes. A China irá manter essa pressão para compensar a redução de suas exportações aos países desenvolvidos e, enquanto sua política de priorizar o mercado interno não conseguir absorver a perda ocorrida. Os países desenvolvidos, como estão com mercado interno deprimido precisam exportar e para disso desvalorizaram suas moedas para ganhar competitividade na exportação. Esses são fatos que devem perdurar pelos próximos anos até a crise europeia permitir a retomada do crescimento da região.

Assim, o principal fator que influencia a inflação brasileira, que é o preço dos produtos importados, tende a ajudar a contê-la nos próximos anos.

2. Preços administrados. Independem do BC e obedecem a decisões governamentais. Desde 1995 até 2006 a inflação dos preços administrados foi superior à inflação medida pelo IPCA. A partir de 2007 isso se inverteu, sendo possível que esses preços passaram a ser mais bem controlados pelos governos federal, estaduais e municipais. Assim, neste e nos próximos anos, as perspectivas para os preços administrados são favoráveis para a contenção da inflação.

3. Serviços. Desde 1997 até 2004 os preços dos serviços tiveram reajuste abaixo do IPCA e a partir de 2005 a situação se inverteu, provavelmente pelo aumento do poder aquisitivo das pessoas, que passaram a demandar mais serviços. A perspectiva de crescer acima da inflação com o aumento do poder aquisitivo é provável, pois não estão sujeitos à concorrência internacional. Deve estar ocorrendo maior demanda do que oferta de serviços e isso pode sinalizar mais empresas entrando nesse setor elevando a oferta. Isso no médio prazo pode permitir um comportamento de preços dos serviços mais próximo do IPCA.

4. Intenção. O governo não pretende repetir o baixo crescimento de 2011 e, para isso, já removeu quase inteiramente as medidas macroprudenciais, que encareceram o crédito, e anunciou que irá reduzir a taxa de juro ao consumo de 106,9% ao ano em fevereiro, segundo a Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), usando o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal para estimular a precária concorrência bancária.

5. Perspectivas. Se o governo não ficar novamente refém do fantasma da inflação, poderá baixar a taxa de juro ao consumidor de 106,9% rumo a 10% que é a praticada nos países emergentes. Já anunciou que vai baixar, mas de quanto é o que importa. Com 106,9% ao ano de juro para o consumo, vê-se que fica reduzido à metade o poder de compra pelo crediário. Esse é o freio da economia, que precisa ser removido.

Recompor uma parte da perda desse poder aquisitivo irá ativar o consumo, expandir o comércio e daí aumentar a produção e o investimento. O caminho natural é esse e não o contrário, implorando aos empresários para investir se eles não esperam perspectiva de crescimento do consumo.

Chega de ser pilotado pelo fantasma da inflação, que vem impedindo o deslanche natural da economia. É necessário que o governo atue rápido e com força para a redução da taxa de juro dos bancos. Caso isso ocorra creio que está garantido a abertura da estrada para usufruir do nível de crescimento que o País precisa. Vamos acompanhar.

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