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Sem medo de um choque do petróleo

Queda nos preços do barril do óleo vai afetar economia dos Estados Unidos, mas o choque pode ser positivo

Jordan Weissmann, Slate

09 Dezembro 2014 | 19h36


NOVA YORK - O boom americano do petróleo pode estar prestes a perder parte da força.

O retorno das perfurações nos Estados Unidos, responsável por um aumento na produção diária de aproximadamente 60% desde meados de 2011, foi abastecido pelo alto preço do barril, que tornou lucrativo o caro processo de extração do petróleo preso em depósitos de xisto e outras rochas. Mas os dias dos hidrocarbonetos a US$ 100 chegaram ao fim, por enquanto. Com o mundo atualmente produzindo mais petróleo do que é capaz de consumir, o preço do barril caiu rapidamente para menos de US$ 70. A OPEP poderia ter reduzido sua produção para aliviar a fartura, mas optou recentemente por não fazê-lo em meio a boatos de que a Arábia Saudita estaria preparando uma "guerra de preços" com o objetivo" de proteger sua fatia de mercado ao tirar da concorrência os produtores do Texas e da Dakota do Norte.

Ninguém sabe exatamente até que ponto os preços podem cair antes de a maior parte do petróleo de xisto, que pode corresponder a até 55% da produção americana, deixar de ser lucrativo. O processo de fragmentação da rocha e o emprego da perfuração horizontal para recuperar o petróleo é caro - muito mais do que a perfuração convencional - mas, graças a novas técnicas, alguns acreditam que os novos poços podem gerar lucro com os preços na casa dos US$ 25 por barril. Isso levou os analistas a concluírem que a produção vai continuar aumentando, independentemente do que fizer a OPEP.

Mas já há sinais dos impactos dessa queda. Na terça feira, a Reuters informou que o número de licenças para novos poços emitidas nos EUA teve queda de 40% no mês passado. Se a queda continuar e os preços baixos acabarem com a lucratividade da exploração do petróleo, isso pode significar que os EUA logo estarão produzindo um pouco menos (como os poço de xisto não duram muito, as empresas precisam perfurar novos poços constantemente para manter a produção em alta).

Isso seria má notícia para os estados que prosperam com a indústria do petróleo ou para os trabalhadores que rumaram para esse ramo (especialmente se estiverem reunidos nas sujas cidadezinhas que cresceram com a atividade, com apartamentos tão caros quanto os de Manhattan e uma escassez de mulheres, apenas para participarem do negócio). Mas, se estamos mesmo prestes a ver um choque, talvez isso não seja algo tão ruim para o país como um todo, ou mesmo para a saúde da indústria do petróleo no longo prazo.

Afinal, o baixo preço do petróleo traz muitos benefícios. O mais óbvio: a gasolina a baixo preço, atualmente com média inferior a US$ 3 por galão na maior parte do país, e em queda. De acordo com análise do Goldman Sachs citada pelo Wall Street Journal, a queda no preço da gasolina já correspondeu a um corte de impostos de aproximadamente US$ 75 bilhões para o consumidor. E como escreve Matt O'Brien no Washington Post, o combustível barato também deve aliviar as preocupações com a inflação, diminuindo a pressão para que o Federal Reserve Aumente os juros e esfrie nossa economia já morna (o Banco Central não deveria se preocupar com o preço do petróleo, mas, como explica O'Brien, na realidade ele o faz).

Talvez nos perguntemos: a economia não sofreria um pouco se as empresas produzirem e venderem menos petróleo? Bem, sim, se a produção de petróleo começar a cair, isso vai tirar uma pequena fatia do PIB. Mas isso deve ser facilmente equilibrado conforme os consumidores gastarem o dinheiro poupado abastecendo seus carros. Enquanto regra, um dólar na conta bancaria de uma família vale mais para a economia do que um dólar na conta de uma empresa do petróleo, pois é maior a chance de ser gasto rapidamente, e menor a chance de ir para as mãos de um investidor estrangeiro. Pesados todos os fatores, o petróleo mais barato provavelmente significaria um crescimento um pouco mais rápido para a economia americana.

Um período de preços baixos também pode ajudar a transformar positivamente a indústria americana das perfurações, diz Michelle Foss, economista chefe para o setor energético da Universidade do Texas no Bureau de Geologia Econômica de Austin. No momento, o grupo de empresas pequenas e médias que usaram a fragmentação hidráulica para enriquecer não é conhecido por sua eficiência nem capacidade estratégica. Como disse um executivo em 2010, os primeiros dias do boom foram impulsionados principalmente pela "força bruta e ignorância" conforme as perfuradoras tentavam tirar o petróleo do chão o mais rápido possível. Essa abordagem levou a muitos poços de estrutura deficiente que logo secaram, e ao esforço desperdiçado na fragmentação de depósitos de baixo potencial produtivo. Quando o preço do petróleo era alto, a indústria podia se dar o luxo do descuido. Mas, com a queda nos preços, ela será obrigada a melhorar seus métodos. Isso pode ser bom para o meio ambiente. A fragmentação hidráulica envolve a injeção de uma mistura tóxica de água, produtos químicos e areia nos depósitos de xisto para quebrá-los, e quanto menos o líquido for usado, menos problemas são criados. Uma indústria mais cautelosa também pode ser boa para os investidores, que veriam menos dinheiro desperdiçado em poços ruins.

"Não me preocupo com os ciclos (de preços baixos)", diz Michelle. "Acho que os ciclos são na verdade bons para limpar a arena, fortalecendo os participantes de melhor desempenho e fazendo os mal sucedidos procurarem algo melhor para fazer, revelando também aquilo que é necessário para funcionar nesse ramo."

Isso é importante, porque os preços baixos que estamos vendo agora dificilmente durarão para sempre. Se a produção nos EUA ficar estável ou cair, isso deve naturalmente fazer o preço do barril aumentar. Também devemos esperar que os preços aumentem quando a Europa se recuperar dos problemas econômicos atuais, ou se o crescimento da China retomar o ritmo. E sempre existe a possibilidade de uma grande conflagração no Oriente Médio, que pode levar o mercado a altas súbitas. Mas, independentemente do motivo, devemos esperar que os preços voltem a subir e, quando isso ocorrer, a produção nos EUA vai provavelmente voltar a crescer.

Não que isso possa trazer uma repetição do boom que acabamos de ver. "Digamos que o preço do petróleo continue baixo por alguns anos, e então volte para US$ 100", diz James Hamilton, economista e especialista em petróleo da Universidade da Califórnia em San Diego. "Creio que veríamos a produção aumentar novamente, mas não no mesmo ritmo que vimos nos anos mais recentes." Por que mais lentidão? Os investidores podem se mostrar cautelosos após um choque.

Mas isso não seria tão ruim, se o resultado for financiamento canalizado para os produtores mais inteligentes e eficientes que souberem sobreviver numa era de preços baixos. Essa rodada do boom do xisto pode estar próxima do fim. Mas o petróleo continuará ali se precisarmos dele. / Tradução de Augusto Calil 

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