Amanda Perobelli/Reuters
Enquanto a demanda de passageiros recuou 89,9% entre abril e junho, transporte de carga por aviões caiu 63%. Amanda Perobelli/Reuters

Sem passageiros, empresas aéreas apostam no transporte de cargas

Mesmo com recuo no volume de encomendas, companhias conseguiram elevar a receita com o segmento porque os preços aumentaram por causa da redução dos voos; aeronaves comuns foram convertidas em cargueiros

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2020 | 05h00

Com o desaparecimento quase completo dos passageiros durante a quarentena, as companhias aéreas têm tido um certo alento nesses últimos meses com o transporte de carga. Enquanto a demanda de passageiros no mercado doméstico brasileiro recuou 89,9% entre abril e junho, a movimentação de carga por aviões teve uma queda mais branda, de 63%, de acordo com dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Apesar da redução no volume, algumas empresas conseguiram crescer na receita com carga e começam a pensar em produtos específicos para o segmento em uma tentativa de manter o ritmo de expansão no pós-crise.

O descasamento entre faturamento e volume de mercadorias transportadas ocorreu devido a uma alta dos preços por causa da falta de voos. Da carga brasileira transportada por via aérea, 85% são armazenados na barriga das aeronaves que carregam também passageiros. Com as medidas de distanciamento social e a consequente redução da demanda por viagens, as companhias estacionaram suas frotas, e o número de aviões disponíveis para transportar carga despencou.

Maior empresa no transporte de cargas, o grupo Latam registrou queda de 15,7% no volume transportado no segundo trimestre, incluindo as unidades de negócios de outros países. Apenas no mercado doméstico brasileiro, a retração foi de 62%. Ainda assim, a receita do grupo no segmento cresceu 18,4%. 

Adaptação

Para contornar a falta de jatos e poder transportar o maior volume possível, a Latam adaptou sua frota. No lugar de usar modelos A321 – que têm capacidade para 220 passageiros, mas apenas duas toneladas de carga –, passou a operar mais com Boeing 767, com capacidade para até 238 passageiros, mas que pode levar até 20 toneladas de mercadorias.

“Aumentamos em dez vezes a capacidade de carga praticamente sem aumentar a de passageiros”, diz Diogo Elias, diretor da Latam Cargo Brasil. A empresa também transformou um Boeing 777, com capacidade para 379 passageiros, em um cargueiro, retirando as poltronas para poder levar mais mercadorias.

Com queda de 39% no volume de carga transportada no segundo trimestre, mas alta de 44% na receita, a Azul também alterou sua frota. De seus 40 A320 que carregavam passageiros antes da pandemia, até 12 são usados por semana agora como cargueiros – após as aeronaves terem suas configurações alteradas para transportar mercadorias. Dos 13 A330 (modelo maior da Airbus), sete também foram repassados para a unidade de negócios de carga da companhia aérea.

“Durante a pandemia, fizemos essa transformação, que hoje possibilita transportarmos até um pouco mais do que no ano passado”, afirma Izabel Reis, diretora da Azul Cargo.

Desempenho

A Azul tem tido o melhor desempenho entre as companhias aéreas no segmento de carga até agora. Além de ter registrado o menor recuo no volume transportado no segundo trimestre, a empresa conseguiu movimentar, em julho, 99,2% do registrado no mesmo mês do ano passado. Com esse resultado, a companhia ultrapassou a Gol no segmento.

Com queda de 86,7% na carga do segundo trimestre, a Gol não chegou a aumentar a receita, que recuou de forma mais moderada. No período, a queda no faturamento com transporte de mercadorias foi de 35%, segundo o diretor executivo da Gollog, Julio Perotti. 

Ainda assim, a empresa tem procurado oferecer novos serviços para atrair clientes, como o aluguel de caixas que transportam animais em voos ou um profissional para cuidar de um animal de estimação em uma conexão. “Apresentamos esses produtos mais cedo do que estávamos prevendo por causa da pandemia”, diz Perotti.

Os novos serviços das empresas atendem a uma transformação no setor de carga das companhias aéreas, que observou um crescimento expressivo com o aumento do e-commerce durante a pandemia. Na Azul Cargo, a entrega de produtos vendidos pela internet avançou 19% neste ano. Na Latam, o segmento era responsável por 8% do volume transportado antes da pandemia. Essa parcela chegou a 20% nos primeiros meses de quarentena e, agora, com a economia sendo reaberta, está em 16%.

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Azul busca ampliar serviços de transporte com drone de entrega

Aérea também começou a instalar caixas de retirada de encomendas em mercados e postos de gasolina; ideia é ver projeto funcionando já na próxima Black Friday, em novembro

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2020 | 05h00

Com o segmento de carga ganhando importância nos resultados da empresa, a Azul trabalha para ampliar seus serviços com o uso de drone e a adoção de caixas de retirada de encomendas. 

“Somos bastante agressivos em relação ao prazo para estarmos com o drone pronto. Gostaria de ter um já na Black Friday (27 de novembro)”, afirma Izabel Reis, diretora da Azul Cargo.

O projeto de entrega de encomendas por drone é desenvolvido com a Speedbird Aero, uma startup de Franca, no interior de São Paulo, que está em processo de certificação para prestar o serviço. 

A ideia é que a Speedbird forneça a tecnologia e a Azul, o trabalho de logística. “Já tínhamos tentado criar algo semelhante antes, mas o preço da parceria tornou inviável. Com a pandemia, as coisas mudaram”, acrescenta Izabel.

Alvo

Ainda não está definido onde o drone deixará a encomenda. Uma possibilidade é que a pessoa que vai recebê-la estenda, por exemplo, uma toalha vermelha para o produto ser depositado em cima. Izabel afirma ainda que, apesar da pressa para começar a oferecer o serviço, a implementação dele em larga escala dependerá da demanda.

Enquanto o projeto com o drone é refinado, a empresa começou a instalar caixas de retirada de encomendas em mercados e postos de gasolina. Hoje, quando a Azul precisa entregar um produto, é comum que um parceiro faça o trecho final do transporte, retirando o item do avião e o levando até a casa do cliente. 

Com o novo serviço, o parceiro deixa a mercadoria em uma dessas caixas e o consumidor a retira com uma senha. “Assim, vamos conseguir atingir áreas que são consideradas de risco para entrega”, diz a executiva.

Por enquanto, a companhia tem um posto de coleta em um supermercado no Jaguaré, na capital paulista. A meta é instalar 40 até o fim do ano.

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