Volkswagen
Na Volks, espera por caminhões pode levar meses por conta da falta de peças. Volkswagen

Sem peças, montadoras paralisam parte da produção e cancelam trabalho extra

Mercedes-Benz desmarca convocação para dois sábados extras de trabalho, enquanto a GM alerta que fabricação de picape pode ser afetada; já a Fiat diz que houve redução pontual do ritmo da linha de montagem

Eduardo Laguna, Fernanda Guimarães e Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2020 | 05h00

Após o anúncio feito pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), no início desta semana, de que havia risco de paralisação nas fábricas por causa de falta de peças, as primeiras linhas de montagem começam a ser desligadas. No ABC paulista, a Mercedes-Benz cancelou dois sábados de produção extra que tinham sido convocados para atender à demanda aquecida. Na fábrica da General Motors (GM), em São José dos Campos (SP), um comunicado no mural de avisos informa que a produção da picape S10 pode ser interrompida por um ou dois dias nas próximas duas semanas. 

 A retomada da demanda mais rápida do que se esperava, após meses de economia enfraquecida por causa da pandemia, desorganizou as cadeias de produção, obrigando fábricas de diferentes setores a adotarem “microparadas” e, segundo especialistas, o restabelecimento da sincronia entre os elos pode levar mais alguns meses.

Não há ainda registros de paralisação completa de montadoras, mas, inevitavelmente, os atrasos das entregas de insumos retardam a produção em um momento em que os fabricantes precisavam acelerar para atender a já longa lista de espera, sobretudo de clientes frotistas, como locadoras.

“Um dia falta aço, no outro falta pneu, no outro falta longarina (componente do chassis do caminhão)”, comenta o presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus, Roberto Cortes. Por causa da falta de peças, a espera por caminhões encomendados à fábrica da Volks em Resende (RJ) chega a “meses”, segundo o executivo.

Para compensar volumes que se tornaram inalcançáveis – o que ocorreu também porque menos operários estão trabalhando nas linhas para evitar aglomerações –, a companhia cancelou as férias coletivas de fim de ano. “Vamos trabalhar durante todo o mês porque é obrigação nossa entregar o produto.”

Na Fiat, o mesmo problema. O abastecimento de alguns insumos mostrou instabilidade, tanto de volumes como de prazos nos últimos dias, o que levou a uma diminuição, em “ocasiões pontuais”, no ritmo das linhas de montagem, informou a empresa.

‘Desbalanço’

Na tentativa de assegurar as matérias-primas e o fornecimento dos veículos, as montadoras têm dado apoio logístico e, em alguns casos, financeiro, para os insumos chegarem a fornecedores da base da cadeia. “Montadoras estão usando o frete aéreo para antecipar a entrega de material e diminuir o tempo, mas há um aumento de custo. Estão sendo observadas micro paradas ou paradas pontuais”, diz o presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes. “Nossa cadeia de fornecedores é muito longa, há muito material importado. Houve uma parada muito forte no início da pandemia. Agora, com a retomada, que foi ficando mais forte, houve um desbalanceamento da cadeia produtiva”, acrescenta. 

Importante fornecedor de insumo para as montadoras, o setor de aço está operando com 68,4% da capacidade instalada das siderúrgicas, patamar superior ao do período pré-crise. Segundo o presidente executivo do Instituto Aço Brasil (IABr), Marco Polo de Mello Lopes, dada a crise de demanda no início da pandemia, os principais mercados consumidores de aço reduziram drasticamente suas compras e, naquele momento, as usinas ajustaram a produção. Em abril, o pior momento em termos de pedidos para as siderúrgicas, o setor operou com 43% de sua capacidade, com 14 dos 31 altos-fornos apagados, sendo que seis já estavam desligados antes da crise. 

“Quando tivemos o primeiro sinal de recuperação da economia, a siderurgia retomou sua produção”, diz o executivo. Hoje, frisou, apenas os equipamentos que estavam desligados antes da pandemia não estão operando. Sua percepção é que no início do ano a situação estará normalizada. 

Até lá, a indústria automotiva deve ter sua recuperação atrasada, o que é negativo para todo País, dado o peso do setor na economia, diz a economista Renata de Mello Franco, do FGV Ibre. “Isso tem um efeito multiplicador também, porque, se segmentos veem uma demanda melhor e conseguem atendê-la, seria normal que começassem a contratar mão de obra.”

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Setor de máquinas diz que também enfrenta risco de parada por falta de insumos

Segundo levantamento feito pelo setor em dezembro, 37% das empresas já sofreram algum tipo de paralisação no processo produtivo nos últimos meses

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2020 | 05h00

A falta de insumo não acomete apenas nas montadoras, mas é um problema que está sendo identificado em diversas cadeias produtivas nos últimos meses no País. No setor de máquinas e equipamentos, por exemplo, uma pesquisa setorial elaborada neste mês mostrou que 23% das 1,6 mil empresas do setor correm risco de parar por falta de fornecimento de matéria-prima, enquanto 37% já sofreram algum tipo de paralisação no processo produtivo nos últimos meses. O levantamento mostrou ainda que 43,5% das companhias estão recebendo como estimativa o prazo de até cinco semanas para entrega de aço.

O problema de desabastecimento começou em setembro, segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso. No momento, a crise maior está concentrada, segundo ele, naquelas empresas que não compram diretamente das siderúrgicas por não ter escala e, por isso, fazem aquisição na rede de distribuição de aço. 

O presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), José Ricardo Roriz, diz que o problema de desabastecimento observado agora pode representar apenas o início de uma falta de plástico, caso o crescimento da economia brasileira se sustente entre 2% e 3% anualmente. Roriz explica que, hoje, a indústria do plástico está trabalhando com uma capacidade até 30% menor do que poderia, já que também está enfrentando um problema de falta de insumos, no caso o polipropileno e o PVC. 

“Atendemos os setores de embalagens de alimentos, saúde, indústria automobilística. Estamos presentes em toda a economia. Não estamos conseguindo atender a maior demanda. Isso não está acontecendo pela falta de capacidade, mas por falta de suprimentos”, segundo Roriz.

O executivo, à frente da associação com cerca de 2,5 mil associados, reclama que, além do problema conjuntural criado com a pandemia do coronávirus, o setor vive um desafio estrutural, representado pelo monopólio do fornecimento dos insumos à cadeia do plástico. 

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'Descasamento entre oferta e demanda só vai diminuir no próximo trimestre', diz especialista

Para economista do Iedi, empresas estavam com estoques insuficientes para dar conta do aumento das encomendas; ele também aponta que problema pode atrasar a recuperação da indústria

Entrevista com

Rafael Cagnin, economista do Iedi

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2020 | 05h00

O problema do descasamento entre oferta e demanda de insumos vai atrasar a recuperação da indústria e não vai ser superado nas próximas semanas, segundo o economista Rafael Cagnin, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Segundo ele, como há matérias-primas que são importadas e outras cujo aumento de produção depende de uma visibilidade maior do cenário no médio prazo, a situação não é tão simples de ser resolvida.

Enquanto isso, as empresas devem encarar aumento no preço dos insumos e dificuldade de repassar essa alta ao consumidor. A seguir, trechos da entrevista: 

Qual é o impacto da paralisação de linhas de montagens?

Vai atrasar a recuperação econômica e gerar uma pressão de custo. A gente já tem uma pressão derivada do câmbio. Agora, tem essa pressão adicional derivada da demanda maior do que a oferta de componentes. Isso comprime a margem em um momento em que seria importante tê-la para gerar recursos para pagar o aumento do endividamento na crise.

Esse aumento de custos deve ser repassado ao consumidor?

Nem todo mundo tem condição disso. Nos ramos de demanda mais aquecida e de grandes empresas, a possibilidade de repasse é maior. Mas a pandemia ainda é um obstáculo, com risco de desaceleração de demanda nos próximos meses. Como o cenário é incerto, tem um pouco de apreensão para se repassar o custo.

Quanto tempo deve levar para se ter uma regularização?

O quadro é de desalinhamento entre o cenário traçado no início da pandemia e o que ocorreu. As empresas não se prepararam para esse ritmo de recuperação. Agravou muito a situação o fato de termos estoques baixos em todos os setores. Estoque é capital parado na forma de produto. Se a empresa precisa de caixa, ela reduz estoque. Tudo isso se agravou porque as medidas do governo para conceder financiamento demoraram para ser implementadas. Aí, as empresas foram queimando estoque. Menos estoque significa cadeia produtiva menos resiliente. Esse descasamento (de oferta e demanda de insumos) deve diminuir no próximo trimestre, inclusive porque há requisitos técnicos para a produção. Para se ligar um alto-forno de siderurgia tem de ter certeza de que a demanda torna rentável ligar esse forno. Ninguém religa para produzir 10% a mais. Enquanto não se tem certeza de que a demanda veio para ficar, o religamento é adiado. Insumo importado também demora para chegar. Do lado da oferta, a situação tende a ser amenizada se não houver uma deterioração sanitária forte. Do lado da demanda, também deve haver redução da pressão. É possível que, no primeiro trimestre, quando talvez não se tenha mais auxílio emergencial, o processo se acomode. Mas não é um processo fácil, depende de se realinhar expectativas.

Até lá, quais setores devem sofrer mais?

As cadeias de tecido, metal, borracha, plástico, papel. No caso do plástico e do papel, tem um fator adicional: com o distanciamento social e a difusão do varejo online, teve um aumento ainda maior de demanda por embalagens. E esses são ramos de insumos importantes, utilizados para produzir, mas também para comercializar produtos. 

Já havia ocorrido uma desregulação da indústria assim?

Não de forma tão generalizada. A interrupção abrupta desestruturou tudo. A economia é feita para sempre estar funcionando, às vezes em velocidade maior, outras, menor, mas a estrutura não foi pensada para ser interrompida. 

Outros países estão com problemas semelhantes?

Isso é generalizado no mundo. Mesmo no Brasil, o problema já vinha desde janeiro, quando a China não conseguia exportar. Aí, foi a cadeia de informática que sofreu. Existe a preocupação de repensar as cadeias de fornecimento internacionais para torná-las mais seguras. Aí, lançando mão de tecnologia e de maior regionalização. A preocupação é que a pandemia seja o início de um processo em que fenômenos semelhantes serão mais frequentes, às vezes causados por questões ambientais.

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