Sem preços controlados, IPCA estaria em 8,0%

Em 12 meses, índices administrados pelo governo subiram apenas 1,3% e os livres, 7,9%

ALEXA SALOMÃO, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2013 | 02h15

Nos 12 meses anteriores a julho, os chamados preços administrados, que são controlados pelo governo, subiram ínfimo 1,3%. Trata-se da taxa mais baixa desde a criação do sistema de metas da inflação, em 1999. Para os economistas, a forte retração indica que há algo estranho acontecendo porque nos preços livres, que seguem as leis da oferta e da procura, a alta foi muito maior no período: de 7,9%. "Não pode ser mera coincidência", diz André Loes, economista-chefe do banco HSBC. "Ao que tudo indica, temos uma inflação represada nos preços administrados pelo governo."

O refresco gerado por esse represamento é pequeno no orçamento doméstico, mas faz uma grande diferença no resultado numérico da inflação. O economista Armando Castelar, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, explica que é uma questão de matemática.

O Índice de Preços ao Consumidor amplo (IPCA) - que mede a inflação oficial e nos 12 meses até julho está em 6,27% - acompanha o sobe e desce de preço de cerca de 430 produtos e serviços bem diversificados, de alimentos básicos como tomate, a serviços mais sofisticados como planos de saúde. "Os preços de produtos e serviços administrados, como luz, telefone e pedágio, representam cerca de 25% do IPCA", diz Castelar. "Mexer em um quarto do índice tem um grande impacto no resultado final da inflação."

Cerca de 19% do IPCA, por exemplo, é composto pelo item transportes. Quase metade, 9 pontos porcentuais, desse total está sob a influência do governo. Apenas a gasolina representa, sozinha, quase 4 pontos. O governo segura o reajuste do combustível há 10 anos. A defasagem de preço entre a gasolina vendida no Brasil e a vendida no exterior passa de 25%.

Nessa lista também estão as tarifas de ônibus e de metrô. "Não é por nada que quando as passeatas de junho eclodiram, o governo suspendeu o reajuste das passagens", diz a economista Mônica de Bolle, da Galanto Consultoria. Além de atrair a simpatia popular também foi possível levar o aumento anual dos ônibus e do metrô a pífios 0,77%, aliviando a inflação. Por causa de medidas como essas, nos 12 meses até julho, a categoria transporte (lembrando, que responde por 19% do IPCA) subiu apenas 2,18%. O governo segurou quase 10% do IPCA interferindo em apenas três itens. "Mas é um jogo de ilusionismo, porque um dia os aumentos terão de ser feitos", diz Mônica.

Praticamente todos os preços sob responsabilidade do governo têm reajustes inferiores aos necessários. Na telefonia, os preços aumentaram 30% menos nos últimos 13 anos. Os medicamentos, apesar de caros, subiram 58% entre 2003 e 2012 - 10 pontos porcentuais abaixo do IPCA no período.

Na avaliação do economista Simão Silber, professor da Universidade de São Paulo, a manobra do governo é perigosa. "Represar artificialmente a inflação é como colocar uma panela de pressão no fogo com uma válvula estragada", diz Silber. "Em algum momento, explode." Na opinião dele, a data nesse caso é 2015, após as eleições.

O mais preocupante na visão do professor é que ao negar a verdadeira inflação, o governo também não toma as medidas necessárias para combatê-la. Enquanto o discurso oficial diz que está tudo bem, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, responsável pela formulação do IPCA, mede o que se chama de índice de difusão da inflação: o número de itens contaminados pela pressão dos preços. Esse índice está em 55% - metade dos itens -, um nível elevado. "A inflação hoje é de pelo menos 8,0%, que é a inflação dos preços livres", diz Silber. "Se o governo admitisse a realidade, o Banco Central hoje deveria está com a Selic a 12%."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.