Sem proposta

As manifestações e os protestos que se espalham pela Europa "contra os sacrifícios excessivos" expõem a enorme fragilidade das esquerdas.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h07

Esta é a maior crise do sistema capitalista desde os anos 30 e, no entanto, socialistas e social-democratas seguem paralisados, incapazes de formular uma crítica mais abrangente e de fornecer propostas consistentes para uma saída.

A maioria dos governos da área do euro ou é liderada por socialistas (caso do presidente da França, François Hollande) ou por social-democratas (como a chanceler da Alemanha, Angela Merkel).

Às vezes, as lideranças insistem em discursos em defesa do crescimento (capitalista), como o do presidente Hollande, mas não conseguem mais do que alguma variação de austeridade e elevação de impostos.

Pior, o aumento do desemprego, especialmente na França e na Espanha, vai empurrando antigos internacionalistas, os mesmos socialistas e social-democratas, para um discurso nacionalista, de defesa da indústria local e a favor do controle mais feroz da imigração.

As propostas defendidas pelos governos social-democratas da área do euro, por exemplo, são mais ortodoxas e mais diluidoras de salários, de aposentadorias e de renda dos trabalhadores do que o ajuste colocado em marcha pelo governo dos Estados Unidos. Quando defendem o avanço econômico e o aumento do emprego, essas propostas vêm acompanhadas de recomendações que desembocam na austeridade: "não há crescimento sustentável sem equilíbrio das contas públicas" - martelam os governantes.

O aprofundamento do colapso econômico consolida a percepção de que as políticas de bem-estar social (welfare state) - consubstanciadas no seguro-desemprego e no financiamento estatal de programas básicos de saúde e ensino, todas elas conquistas da social-democracia - agravam a fragilidade das contas públicas. São políticas que sangram os tesouros nacionais, numa conjuntura de quebra de arrecadação.

Por vezes, as esquerdas ensaiam críticas às práticas predatórias dos bancos. Mas logo são desencorajadas pelo entendimento de que enfraquecer os bancos implicaria contribuir para o enfraquecimento do próprio trabalhador e das classes médias. Eles são grandes fornecedores de capitais para as instituições financeiras, por meio dos depósitos em conta corrente e por aplicações em fundos de pensão e em fundos de investimento.

Paradoxalmente, as causas mais profundas da crise econômica têm a ver com a incorporação da mão de obra asiática e latino-americana ao mercado global de trabalho em detrimento do emprego nos países ricos. A esse movimento, a primeira reação quase compulsiva das lideranças socialistas e social-democratas (supostamente internacionalistas) é evitar a todo o custo a "exportação de empregos".

Enfim, as esquerdas não têm respostas consistentes nem contra os abusos neoliberais nem contra a progressiva globalização do trabalho. Tampouco não sabem o que propor para enfrentar o rápido e inexorável envelhecimento da população, os novos movimentos de migração dos povos e as mudanças culturais que sobrevêm com a disseminação do islamismo.

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