Epitácio Pessoa/Estadão
Estoques das empresas ficaram desequilibrados com a pandemia, mas já se recuperam. Epitácio Pessoa/Estadão

Sem recomposição de estoques, PIB teria recuado 0,3%, diz Ipea

Em função de problemas na cadeia produtiva decorrentes da pandemia, os estoques recuaram no País enquanto o consumo aumentou, causando um desequilíbrio pontual

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 19h18

RIO - A recomposição dos estoques no primeiro trimestre de 2021 acrescentou 1,3 ponto porcentual ao crescimento de 1% registrado pelo Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no primeiro trimestre de 2021 ante o mesmo trimestre do ano anterior, segundo cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ou seja, com a redução no consumo das famílias e do governo no período, não fosse o aumento de estoques, o PIB teria recuado 0,3% na comparação com o primeiro trimestre de 2020.

“Todos os indicadores de estoques, incluindo da indústria, estavam muito abaixo do nível desejado. Então já esperávamos uma recomposição de estoques neste primeiro trimestre, o que ajudou no crescimento do PIB. O que não significa que o PIB vá deixar de crescer de novo por essa via no curto prazo, porque os estoques ainda não estão elevados”, avaliou José Ronaldo Souza Júnior, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea.

Souza Júnior lembra que, ao longo da pandemia, houve um aumento no consumo de bens enquanto o de serviços diminuiu. Como a demanda aumentou e a produção caiu, em função de problemas na cadeia produtiva decorrentes da pandemia, os estoques recuaram. “Agora temos um processo natural de recomposição desses estoques”, explicou.

Os dados do PIB foram divulgados nesta terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com o primeiro trimestre de 2020, o consumo das famílias caiu 1,7% no primeiro trimestre de 2021, enquanto o consumo do governo encolheu 4,9%. De acordo com o Ipea, o cenário econômico brasileiro ainda está sujeito a riscos relevantes, mantendo os níveis de incerteza em patamares elevados.

“O atual estágio no cronograma de vacinação ainda não é capaz de impedir a possibilidade de um novo recrudescimento da pandemia. Por sua vez, numa conjuntura com desemprego ainda elevado, as fragilidades relacionadas ao equilíbrio fiscal de curto e longo prazo da economia, juntamente com a necessidade de reconduzir as expectativas de inflação em direção à meta, deixam poucos graus de liberdade para as políticas fiscal e monetária do governo”, avaliou o Ipea, em nota.

No entanto, a retomada no segundo trimestre de programas do governo de enfrentamento dos efeitos da pandemia, como a reedição do auxílio emergencial e do programa de manutenção do emprego e renda, trazem perspectivas melhores para a demanda, disse Souza Júnior. "Há riscos associados à pandemia que ainda podem afetar alguns segmentos, mas, por outro lado, a vacinação avançando traz perspectivas melhores para o segundo semestre", previu o diretor do Ipea.

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PIB cresce 1,2% no 1º trimestre, mesmo com piora da pandemia

Resultado, que veio acima do esperado, confirma a melhora de perspectivas para o ano; a economia brasileira voltou ao patamar do quarto trimestre de 2019, período pré-covid

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 09h01
Atualizado 01 de junho de 2021 | 15h40

RIO - A economia brasileira começou 2021 em crescimento, confirmando a melhora de perspectivas para o ano como um todo e aumentando as chances de as perdas causadas pela covid-19 serem recuperadas até dezembro. O Produto Interno Bruto (PIB, valor de tudo o que é produzido na economia em determinado período) cresceu 1,2% no primeiro trimestre, na comparação com os últimos três meses do ano passado, informou nesta terça-feira, 1.º, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o terceiro resultado positivo após o tombo do segundo trimestre de 2020.

Com esse resultado, o PIB brasileiro voltou ao patamar do quarto trimestre de 2019, período pré-pandemia. Apesar da melhora, o PIB ainda está 3,1% abaixo do ponto mais alto da atividade econômica do País, alcançado no primeiro trimestre de 2014.

 

Entre as atividades da economia, a agropecuária teve o melhor desempenho, com alta de 5,7% de janeiro a março, enquanto a indústria avançou 0,7% e serviços, 0,4%. O consumo das famílias recuou 0,1% no primeiro trimestre o e o do governo caiu 0,8%.

No início deste ano, com o recrudescimento da pandemia e sem o auxílio emergencial pago pelo governo federal para ajudar as famílias mais pobres, as projeções chegaram a apontar para uma retração. Mesmo assim, a economia acabou demonstrando mais força do que o inicialmente esperado. Mês a mês, os dados setoriais vieram acima do que o esperado, desencadeando uma série de revisões para cima nas estimativas, especialmente mês passado, quando os últimos números de março foram divulgados. 

Desde então, economistas têm citado uma série de motivos para o desempenho mais forte. Houve um menor isolamento social, na comparação com o início da pandemia - seja porque as regras de restrição foram mais brandas seja porque foram menos seguidas -, os juros estão historicamente baixos - mesmo após as altas recentes anunciadas pelo Banco Central (BC) -, há efeitos defasados de estímulos do ano passado e a alta nas cotações das commodities impulsiona as atividades exportadoras, como a agropecuária, a mineração, a extração de petróleo e a produção de celulose.

Com isso, o PIB avançou 1% sobre o primeiro trimestre de 2020, quando foram registrados os primeiros impactos da pandemia na economia. Nessa base de comparação, foi a primeira alta desde o quarto trimestre de 2019, ou seja, desde que a crise causada pela covid-19 se instalou no mundo.

Antes da divulgação dos dados pelo IBGE, pesquisa do Projeções Broadcast apontava para um crescimento econômico de 4,2% este ano - em abril, pesquisa semelhante apontava para 3,2%. Como a alta de 1,2% no primeiro trimestre, veio acima do apontado na pesquisa da última sexta-feira do Projeções Broadcast, de aumento de 0,7%, a estimativa para o crescimento de 2021 poderá ser revisada para cima.

O banco Barclays, por exemplo, revisou para 4,3% sua projeção de crescimento econômico para este ano, ante 3,2% anteriormente. Mesmo assim, o economista para o Brasil do Barclays, Roberto Secemski, não vê muito espaço para continuar nesse ritmo. A estimava para 2022 é de 1,9%.

“Estamos repondo as perdas de 2020. No último trimestre de 2021, voltaríamos ao patamar do PIB pré-pandemia, mas, na tendência de médio prazo, não vejo por que ser melhor do que antes. Não é o novo normal crescer 4,3%”, disse Secemski, para quem a pandemia segue como o maior risco para a atividade este ano.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, ponderou que a atividade econômica surpreendeu à custa de uma maior circulação das pessoas, o que aumenta o risco de uma terceira onda da pandemia. Em março, foram 66,9 mil mortos por covid-19 no País, número que saltou para 82,4 mil em abril. Desde o início da pandemia, até a segunda-feira, 31, o total de mortos soma 463 mil.

Por causa do menor isolamento social, Vale está pessimista com o desempenho do PIB no segundo trimestre, especialmente em junho, quando “é muito provável que tenhamos uma nova fase emergencial, com a economia em ritmo semelhante a março e abril”.

“A vacinação está muito atrasada e as autoridades não conseguem segurar as pessoas em casa, até porque o auxílio emergencial não é suficiente”, afirmou o economista, explicando que, por causa das incertezas sobre os rumos da pandemia, sua projeção de crescimento para 2021 segue em 3,2%.

Por outro lado, alguns economistas têm destacado que o isolamento social, mesmo que abaixo do necessário para conter a doença, pode estar atrapalhando menos a economia, o que pode ter acontecido na atividade econômica do primeiro trimestre.

No início da pandemia, as restrições ao contato levaram a uma paralisação inédita da produção, das vendas e dos serviços, derrubando a atividade econômica. Com o passar dos meses, o efeito da menor mobilidade sobre os indicadores econômicos caiu, diz um relatório da LCA Consultores, sugerindo a “hipótese” de que, “com o passar do tempo, as economias se adaptaram à pandemia”, com “uso intensivo de tecnologia, sistemas híbridos (presencial e virtual) de trabalho e ampliação do e-commerce”.

 

Pela ótica da demanda, na falta do auxílio emergencial, o consumo das famílias encolheu 0,1% sobre o quarto trimestre de 2020 e caiu 1,7% em comparação com o mesmo trimestre do ano passado.

Além da interrupção da transferência de renda - que só seria retomada em abril, com valor mensal abaixo do ano passado -, o consumo teve pouco impulso da renda do trabalho no início do ano. A taxa de desemprego no País alcançou 15,1% em março, segundo cálculos do pesquisador Marcos Hecksher, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE - no primeiro trimestre, incluindo janeiro e fevereiro, a taxa ficou em 14,7%.

Outro estudo de Hecksher sugere que os países onde houve mais mortes pela covid-19 foram também os que perderam mais postos de trabalho na crise. Os dados mostram que, em 2020, o Brasil registrou proporcionalmente mais mortes pela doença do que 95% dos países - considerando 178 nações, com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Ao mesmo tempo, o nível de ocupação (proporção de pessoas em idade de trabalhar que estão efetivamente trabalhando) no Brasil teve uma queda mais intensa do que 84,1% dos países - num grupo com 63, com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

“Tem gente que vai ficar surpresa, porque esperava que, talvez, deixando morrer um pouquinho mais, conseguiríamos salvar um pouquinho mais de emprego, mas não é o que parece que está acontecendo em nenhum lugar do mundo. Onde teve mais morte está havendo mais queda de emprego”, disse Hecksher.

Ainda na ótica da demanda do PIB, os investimentos, medidos pela formação bruta da capital fixo (FBCF), avançaram 4,6% sobre os três últimos meses do ano passado e saltaram 17% na comparação com o primeiro trimestre de 2020.

Com um menor isolamento social, o PIB de serviços, componente pela ótica da oferta que vinha apresentando recuperação mais lenta do que os demais no segundo semestre do ano passado, avançou 0,4% no primeiro trimestre, na comparação com o período imediatamente anterior.

Só que a desorganização da economia causada pela pandemia se mantém. Serviços presenciais - como hotéis, bares, restaurantes, salões de beleza e academias de ginástica - seguem com recuperação acumulada mais tímida, enquanto serviços financeiros e de alta tecnologia, além da produção de bens, mantêm a trajetória positiva

 

O PIB da indústria registrou alta de 0,7%, após dois avanços seguidos no segundo semestre de 2020. Para Bráulio Borges, economista sênior da LCA Consultores, o desempenho da indústria também ajuda a explicar o ritmo de crescimento acima do inicialmente esperado. Isso porque, conforme o economista, a produção industrial - que, ainda no ano passado, superou o nível anterior à crise - é puxada pela recomposição de estoques.

Nos primeiros meses de pandemia, os estoques foram a níveis historicamente baixos, porque, por um lado, as fábricas pararam como nunca haviam feito antes, e, por outro, famílias e empresas correram para estocar bens, com receios de escassez. Na segunda metade de 2020, quando a maioria dos países reabriu parte das atividades, muitas fábricas retomaram a produção a pleno vapor, para recompor os estoques baixos. Ao mesmo tempo, o consumo se recuperou mais rapidamente do que se esperava e foi direcionado para os bens, pois as restrições aos gastos com serviços continuaram.

“Para recompor os estoques, a produção tem que crescer acima da demanda. Só que a demanda não ficou parada, cresceu (no segundo semestre). A indústria ‘bombou’ no mundo todo, mas ainda não foi suficiente para elevar estoques para níveis adequados”, disse Borges.

Ainda na ótica da oferta, a agropecuária cresceu 5,7% ante o último trimestre do ano passado, diante das perspectivas de mais uma safra recorde de grãos, com exportações em alta. São as atividades que saíram ganhando na retomada, como exportadores do agronegócio e da mineração, que têm puxado também os investimentos.

Destacando o caráter ainda desigual, entre os setores, da retomada da economia, Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP, lembra de uma ameaça ao crescimento que entrou nos radares na última semana: a crise hídrica, que, pela falta de chuvas, levou os reservatórios das usinas de geração hidrelétrica a níveis históricos de baixa e ameaça até mesmo a produção agrícola. Por isso, Lacerda segue conservador em suas projeções e mantém a estimativa de um avanço de 3,0% no PIB de 2021. 

O risco de restrição no fornecimento de eletricidade não está ainda no radar dos empresários, que vem relatando aumento da confiança, em linha com uma atividade econômica melhor do que o previsto inicialmente. O Índice de Confiança Empresarial (ICE) da Fundação Getulio Vargas (FGV) subiu 7,9 pontos em maio ante abril, para 97,7 pontos, maior patamar desde março de 2014, antes da recessão que se estendeu até 2016.

“A impressão que dá é que, quando passou o pior momento da segunda onda da pandemia, a demanda voltou e deu uma lufada de otimismo”, avaliou Aloisio Campelo Júnior, superintendente de Estatísticas Públicas do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV). / COLABORARAM THAÍS BARCELLOS e GUILHERME BIANCHINIM

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Alta do PIB no 1º trimestre foi puxada por agropecuária, indústria e investimentos

Avanço de 1,2% na atividade econômica ficou acima do esperado; safra de soja contribuiu para o crescimento de 5,7% na agropecuária

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 11h15

RIO - O desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre foi puxado pela alta nas atividades de agropecuária, indústria e, pela ótica da demanda, pelos investimentos, afirmou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O PIB avançou 1,2% em relação ao quarto trimestre de 2020, informou o IBGE nesta terça-feira, 1.º, acima do esperado por analistas do mercado.

 

Rebeca também destacou que as restrições ao contato social, para evitar o contágio por covid-19, não foram tão fortes quanto no início da pandemia. “Tivemos algumas restrições ao funcionamento das atividades, mas não foram tão rigorosas e tiverem efeito menor sobre a economia”, afirmou a pesquisadora do IBGE.

Sobre as atividades que puxaram o crescimento, ela afirmou que a agropecuária foi menos afetada pela pandemia. A alta de 5,7% do setor no primeiro trimestre, na comparação com o quarto trimestre de 2020, foi a maior nessa base de comparação desde o primeiro trimestre de 2017, quando houve um salto de 12,2% sobre o quarto trimestre de 2016.

Segundo a pesquisadora do IBGE , a safra de soja, que deverá renovar o recorde neste ano, e é colhida principalmente no primeiro semestre, é a principal responsável pelo desempenho.

 

Ainda na comparação com o trimestre imediatamente anterior, as altas de 0,7% no PIB da indústria e de 0,4% no PIB dos serviços foram as terceiras variações positivas seguidas.

Pela ótica da demanda, a alta de 4,6% nos investimentos, medidos pela formação bruta de capital fixo (FBCF), também foi a terceira seguida. Na contramão, a queda de 0,1% no consumo das famílias sobre o quarto trimestre de 2020, considerada estabilidade pelo IBGE, foi o primeiro desempenho negativo após duas altas.

As exportações tiveram alta de 3,7% nas exportações, a maior desde o terceiro trimestre de 2018, quando houve salto de 6,5% sobre o segundo trimestre daquele ano.

 

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Avanço do PIB no 1º trimestre mostra acerto da política econômica do governo, diz Economia

Para o ministério, para que recuperação seja 'plena' é preciso aprovar reformas; Paulo Guedes afirmou que 'avanço da vacinação e dos protocolos protegem a economia'

Luci Ribeiro , O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 13h01

BRASÍLIA - O Ministério da Economia avaliou que o resultado do PIB "mostra a forte recuperação da atividade econômica, mesmo com o recrudescimento da pandemia". Em nota, a pasta diz que isso demonstra o acerto da política econômica do governo e alega que a retirada de programas emergenciais no fim de 2020 não trouxe grandes impactos sobre a atividade no primeiro trimestre deste ano. A pasta comandando pelo ministro Paulo Guedes ainda reiterou a importância da aprovação de reformas estruturantes para que a recuperação da economia seja "plena e pujante".

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta terça-feira, 1.º, mostram que o PIB avançou 1,2% no primeiro trimestre de 2021 ante o quarto trimestre de 2020. Com isso, a economia brasileira volta a operar no mesmo patamar do quarto trimestre de 2019, antes da pandemia de covid-19.

O resultado foi o terceiro trimestre seguido positivo, depois dos recuos no primeiro (-2,2%) e no segundo (-9,2%) trimestres de 2020, ano em que a economia encolheu 4,1%. Apesar da melhora, o PIB ainda está 3,1% abaixo do ponto mais alto da atividade econômica do País, alcançado no primeiro trimestre de 2014.

Durante participação em audiência na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, Guedes disse que o crescimento do PIB no primeiro trimestre sinaliza um crescimento bastante forte da economia neste ano. “O avanço da vacinação e dos protocolos protegem a economia. É possível que estejamos crescendo a taxas bem maiores. A arrecadação tem vindo forte.” 

O ministério afirmou ainda que a recuperação da economia brasileira, quando comparada às outras retomadas desde 1980, tem se destacado, com a atividade corrente aproximando-se da tendência do PIB anterior à recessão, "algo que é raro na história recente brasileira".

"A atividade econômica, a despeito do fim dos programas emergenciais do governo federal em dezembro de 2020, e do recrudescimento da pandemia no começo de 2021, permaneceu em trajetória de elevação nos primeiros meses do ano", diz a nota. "Em resumo, a retirada dos estímulos governamentais temporários, tal como defendido por esta SPE (Secretaria de Política Econômica), não teve impactos significativos sobre a atividade no primeiro trimestre do ano."

A pasta diz ainda que "o governo federal cumpriu com sua determinação de encerrar todos os programas emergenciais, sem exceção, em 31 de dezembro de 2020. Contrariando diversos agentes econômicos que esperavam prorrogação dos auxílios indefinidamente, esses só retornaram em abril após clara piora da pandemia. Cabe salientar que o teto de gastos tem sido mantido pelo governo federal mesmo num cenário de forte estresse fiscal, e essa não é uma vitória menor do que o próprio estabelecimento do teto".

Segundo o ministério, os indicadores de mais alta frequência, diários e mensais, apontam que a atividade continua se recuperando no início deste ano e que os resultados mais recentes têm levado os especialistas a revisarem suas projeções para 2021, ampliando o crescimento esperado, cuja média passou de 3,0% para quase 4,0% nos últimos três meses. No entanto, alerta a pasta, "o baixo volume de chuvas e seu impacto na oferta de energia elétrica poderá ser um limitador da perspectiva de crescimento neste ano e está sendo observado com a atenção necessária, de forma a evitar ou mitigar os seus efeitos".

Na nota, o ministério ressalta que "a recuperação plena e pujante da economia só será possível com a retomada da agenda de reformas e consolidação fiscal". "A reforma tributária, reforma administrativa, o PL de modernização do setor elétrico, as debêntures de infraestrutura, o PL de concessões e parcerias público-privadas, o PL Cambial, o novo marco de Ferrovias, e a Nova Lei de Cabotagem são exemplos de reformas necessárias ao país, que estão em discussão no Congresso Nacional e poderão atuar na simplificação tributária, na desregulamentação e na redução de custos, com o objetivo primordial de aumento da produtividade, tão necessário ao país neste momento", cita o ministério na nota.

"Para este ano, e em parceria com o Congresso Nacional, a agenda econômica continua avançando. A MP da Eletrobrás acaba de ser aprovada na Câmara e segue para o Senado onde também se encontram para aprovação: PL cambial, BR do mar, e licença ambiental. A modernização do setor elétrico, a mudança do regime de partilha para concessões, o novo marco de parceria público-privadas, o PL de autorização de ferrovias, e um aprimoramento das debêntures de infraestrutura também estão nas prioridades para esse ano, além, claro, das reformas administrativa e tributária", conclui. / COLABORARAM LORENNA RODRIGUES e FABRÍCIO DE CASTRO

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Brasil cai para 19º lugar em ranking do PIB; países que combateram pandemia com vigor estão no topo

Mesmo com a alta de 1,2% no primeiro trimestre, o País perdeu sete posições entre as maiores economias, segundo levantamento da Austin Rating

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 15h33

RIO - Países que combateram a pandemia de covid-19 com vigor e concederam incentivos fiscais significativos ocupam as primeiras posições do ranking do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre do ano de 50 países divulgado nesta terça-feira, 1.º, pela Austin Rating, avaliou o economista-chefe da agência de classificação de risco, Alex Agostini.

O Brasil perdeu sete posições no ranking da Austin entre o último trimestre do ano passado e o primeiro deste ano, caindo para o 19.º lugar, informou Agostini, observando que o País só conseguiu se manter nessa posição por causa do alto do preço das commodities.

Lideram a lista Croácia (5,8%), Hong Kong (5,4%), Estônia (4,8%), Chile (3,2%) e Cingapura (3,1%). Na América do Sul, a Colômbia também ficou à frente do Brasil, com avanço do PIB de 2,9% no período.

"O PIB do Brasil só foi bom, apesar de ter ficado abaixo das nossas projeções, porque o preço das commodities está no maior nível desde 2009", disse Agostini ao Estadão/Broadcast.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta terça alta de 1,2% no PIB do primeiro trimestre em relação ao último trimestre do ano passado. Agostini destacou que enquanto a indústria extrativa ficou positiva, a indústria de transformação, que está relacionada à atividade econômica interna, teve queda.

"O resultado do PIB no primeiro trimestre não reflete a nossa realidade doméstica, que é uma recuperação ainda descompassada, muito do lado da produção para o exterior e menos para o consumo doméstico, que está acontecendo ainda em passos lentos", ressaltou.

Ele observou que o crescimento se deu mais pelo lado de demanda, portanto das exportações, mas as importações também cresceram por setores internos, que importam para poder exportar, como fertilizantes, que são usados na produção agrícola.

A Austin manteve inalterada a projeção para o PIB do Brasil em 2021, de 3,3%, e de 3% para 2022, justificando que, apesar de haver indicações de um potencial maior crescimento, algumas incertezas ainda estão na mesa, como possíveis novas altas da taxa Selic nas próximas reuniões; acirramento da crise hídrica; processo lento de imunização contra o covid-19; forte elevação dos custos de produção, com destaque para as altas recordes dos preços das commodities; cenário fiscal ainda fragilizado; e redução dos estímulos monetários nas economias desenvolvidas.

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PIB se recupera, mas gerar empregos ainda é um desafio; leia análise

Economia cresceu mais que o esperado; dúvida é se esse é um movimento sustentável

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 10h15

O Brasil terminou 2020 em meio a pelo menos duas catástrofes: a sanitária, com cerca de 195 mil mortes pela covid-19 (uma média de 665 por dia desde a primeira morte, em 12 de março), e a econômica, expressa em uma queda de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2021, o cenário mudou. A catástrofe sanitária piorou: no primeiro trimestre, o número de pessoas que perderam a vida para a covid chegou a 123,5 mil, uma média de 1,37 mil por dia. Mas a economia deu sinal de vida e subiu 1,2%, um número surpreendente.

Na economia brasileira, é sempre uma tarefa inglória relacionar os números da atividade com a vida real, embora não sejam coisas incompatíveis. Neste momento, por exemplo, o País bate recordes de desemprego. Muita gente depende do auxílio emergencial do governo, este ano muito menor que o do ano passado, para sobreviver. Mas, na economia, as exportações, por exemplo, também batem recorde.

Há mundos muito diferentes dentro da economia. Veja o agronegócio: parece desconhecer a palavra crise. De janeiro a março, o setor cresceu espantosos 5,7%, puxado por uma demanda global muito forte pelos produtos agrícolas nos quais o Brasil é um grande fornecedor internacional, como a soja e o milho, o que fez disparar os preços. 

Essa demanda global crescente pelas commodities também puxou a indústria, que subiu 0,7% no primeiro trimestre. Nessa conta entram o minério de ferro e o petróleo, produtos nos quais o Brasil também é forte e cujos preços também dispararam.

Mas esses não são os setores que mais empregam. O grosso das pessoas trabalha no setor de serviços, e esse tem tido um desempenho mais modesto. Registrou uma alta de 0,4% no trimestre - depois de uma queda de 4,5% no ano passado. Esse é o setor que depende talvez mais diretamente da vacinação em massa para se recuperar. Sem isso, restaurantes, lojas, salões de beleza, por exemplo, não conseguem voltar à atividade normal, e não vão empregar. Gerar empregos é o desafio mais imediato para conter a catástrofe social.

Há outros desafios, claro, no caminho da recuperação econômica. Se a vacinação não acelerar, se novas variantes do coronavírus surgirem, as mortes voltarem a subir, houver mais fechamentos das cidades, qual será o efeito? Se a demanda pelas commodities começar a arrefecer, o que pode acontecer?

A inflação também pode provocar algum desarranjo. Alguns analistas já veem o IPCA chegando a mais de 8% neste meio de ano no acumulado em 12 meses. O IGPM anual está perto de 40%, puxado exatamente pela disparada das commodities. Com isso, o juro básico (a Selic) já está subindo, e as previsões para o ano já chegam a 6,5%. Ainda baixo para o padrão Brasil. Mas não é mais o juro de 2% do início do ano.

E tem as reformas, claro. Sempre apontadas como fundamentais para o crescimento sustentado do País, mas sempre negligenciadas. A tributária, fatiada no Congresso, caminha para ser apenas um arremedo de reforma, com impacto muito menor do que as empresas, principalmente, realmente precisam. A administrativa, também fundamental para modernizar a estrutura do Estado e reduzir os gastos do governo, também parece que dificilmente vai andar - como revelado aqui no Estadão, o presidente Bolsonaro não parece que vai mover alguma palha em prol dessas mudanças. 

Ou seja, o PIB do primeiro trimestre surpreendeu e isso é algo para ser comemorado. Mas a trajetória da recuperação ainda tem obstáculos demais a serem removidos.

*EDITOR DE ECONOMIA 

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Crescimento do PIB mostra uma luz no fim do túnel?; leia análise

A economia brasileira tem sido, em parte, puxada pela rápida recuperação da economia global, mas há incertezas em relação à vacinação

Marcelle Chauvet*, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 18h42

A atividade econômica no Brasil teve um desempenho acima do esperado no primeiro trimestre de 2021. Os fatores que mais contribuíram para o crescimento foram a alta nos investimentos e nas exportações.

Tem havido uma recuperação econômica robusta em países com maiores níveis de vacinação e contenção da pandemia, como os Estados Unidos, China e alguns países da Europa. Isso levou a um aumento dos preços das commodities e da demanda externa por produtos brasileiros. A taxa de câmbio desvalorizada também contribuiu para o aumento das exportações brasileiras.

A economia brasileira tem sido, em parte, puxada pela rápida recuperação da economia global, que deve crescer por volta de 5,8% este ano à medida que a vacinação é disseminada e os negócios voltam às suas operações normais. Existem várias fricções e disparidades no crescimento entre países, principalmente entre as economias emergentes, as quais têm o seu crescimento comprometido pela vacinação lenta de suas populações. 

Nos Estados Unidos, o crescimento esperado para 2021 é acima de 6%, tendo como fatores o elevado gasto do consumidor, na medida em que a economia e os negócios abrem, o governo despeja trilhões de dólares para ajudar a recuperação econômica e a política monetária é extremamente expansiva. A alta taxa de vacinação e os contínuos esforços do governo americano para vacinar a população associados a uma queda brusca nos novos casos de covid-19 sinalizam que a economia americana deve abrir completamente nos próximos três meses.

Existem, porém, riscos e incertezas que podem diminuir o crescimento nos Estados Unidos, principalmente com relação à evolução da pandemia, e esses riscos se multiplicam para o caso do Brasil, o qual tem crescido no vácuo da expansão econômica global, mas com elevado número de casos de covid-19. A rapidez na produção e distribuição de vacinas pode se desacelerar por motivos não previstos, enquanto que mutações podem levar a novos casos.

Esse cenário seria avassalador para o Brasil, já que os números de casos têm se mantido em patamares elevados. Novas ondas da pandemia e a lentidão na vacinação poderiam levar a maiores restrições de distância social, até mesmo autoimpostas pela população em face a óbitos elevados. 

Existe ainda o risco relacionado à alta inflacionária nos Estados Unidos, devido ao crescimento acelerado e a gargalos no setor produtivo, o que pode levar o Federal Reserve (o banco central americano) a um aumento antecipado dos juros, com uma possível correção no mercado financeiro, prejudicando os negócios e consumo, e provocando movimentos externos de capitais desfavoráveis ao Brasil.

A luz no fim do túnel é clara e é o que tem estimulado o crescimento econômico mundial: vacinação acelerada e ampla da população permitindo uma abertura dos negócios e aumento do consumo. O Brasil precisa seguir a luz e sair do túnel.

Professora titular de Economia da Universidade da Califórnia

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'Não vemos terceira onda com força para reduzir atividade econômica', diz sócia da Tendências

Para a economista Alessandra Ribeiro, pandemia, vacinação lenta e crise energética são riscos que podem limitar crescimento, mas não mudar tendência de recuperação

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 15h24

Até fevereiro, o clima entre os economistas era de pessimismo geral. Aos poucos, durante o último mês do primeiro trimestre, isso foi mudando, conforme saíam dados que indicavam que a atividade econômica ganhava tração. Esse movimento culminou com a divulgação, nesta terça-feira, 1º, do resultado do Produto Interno Bruto (PIB), que cresceu 1,2% no primeiro semestre.

Entre os fatores que fizeram mudar o panorama econômico estão o impulso decorrente do crescimento dos Estados Unidos e da China e a ineficácia das medidas de isolamento social, diz a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria. Assim, o recrudescimento da pandemia que começa a ser verificado agora também não deve ser suficiente para mudar o rumo da economia. 

“Está cada vez mais difícil levar as pessoas ao isolamento. Uma terceira onda aparece como risco no sentido de limitar a expansão da economia, mas vemos esse efeito perdendo força para trazer a atividade econômica muito para baixo”, destaca Alessandra. Outros riscos no radar são a lentidão na vacinação e a crise energética, de acordo com a economista.

Apesar de a recuperação começar a se consolidar, ela deve vir acompanhada de uma desigualdade ainda maior, acrescenta Alessandra. “O que observamos é que o mercado de trabalho formal tem mostrado recuperação e o informal ainda está num ritmo lento. Olhando para frente, essa é a tendência.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Houve um momento no primeiro trimestre em que parecia que a economia ia se deteriorar ainda mais. Os economistas estavam pessimistas com a aceleração da segunda onda da covid, a desvalorização do real e a interferência do presidente Jair Bolsonaro na Petrobrás. O que aconteceu para esse cenário mudar?

Nós, na Tendências, também estávamos entre os mais cautelosos com a atividade econômica. Tínhamos uma projeção de queda de 0,6% no PIB do primeiro trimestre, depois atualizamos para alta de 1%. Teve uma surpresa com a resiliência da economia brasileira nesses primeiros meses do ano. Tínhamos alguns fatores de preocupação: o fim do auxílio emergencial até março e o efeito disso no consumo, ao lado das pressões inflacionárias em itens muito sensíveis na cesta de consumo, como alimentação e combustível. Ao mesmo tempo, havia uma incerteza grande em relação à situação fiscal, com aquele imbróglio no Orçamento limitando o apetite para decisões de consumo e investimento. Demos muito peso para esses elementos. Talvez tenhamos subestimado algumas coisas. O primeiro fator importante é o cenário externo: a melhora na China, nos Estados Unidos e também na Europa, mas aí um pouco menos. Isso teve um efeito importante para as economias emergentes. Temos exportações importantes tanto de commodities como de produtos manufaturados. Em relação ao consumo, se de um lado teve um efeito negativo em classes mais baixas, teve outro efeito nas classes mais altas. Essas voltaram a consumir, especialmente até fevereiro. Vimos isso batendo em vendas de bens duráveis, como automóveis. No investimento, também houve um efeito positivo nas linhas relacionadas à agropecuária e ao transporte. Outro ponto é que as medidas de isolamento tiveram menor eficácia. Houve uma queda na mobilidade na segunda quinzena de março, mas muito menor do que no ano passado.

Estamos, então, crescendo à custa de mortes? Ou por que as exportações de commodities estão em alta graças às economias chinesa e americana?

Do lado externo, há um suporte importante. Quando EUA crescem 6,5% e China, 8,5% ao ano, o efeito na gente é grande tanto do ponto de vista de commodities como do de manufaturados. Nesse primeiro trimestre, a agropecuária puxou o crescimento na margem, e muito baseado na soja. A indústria extrativa também ajudou. Mas também tem, sim, a questão de as medidas de isolamento terem menos eficiência, e o reflexo disso aparece no número de mortes. Agora, outro ponto é a própria adaptação de muitos negócios à pandemia. O pessoal não fica mais paralisado como no começo, aprendeu a lidar com a quarentena.

O PIB cresceu, em parte, porque não houve uma redução significativa da circulação de pessoas. Isso dá espaço para o contágio do coronavírus se acelerar novamente. Qual impacto podemos esperar da pandemia na economia nos próximos trimestres?

À luz do que a gente aprendeu nesse começo de ano, tenderia a achar que os efeitos de uma terceira onda para a economia devem ser similares aos do primeiro trimestre. Está cada vez mais difícil levar as pessoas ao isolamento. Uma terceira onda aparece como risco no sentido de limitar a expansão da economia, mas vemos esse efeito perdendo força para trazer atividade econômica muito para baixo. Além desse risco, temos outros: o ritmo de vacinação lento e a questão energética. Todos esses elementos parecem mais como limitadores, mas não como fatores que vão mudar dramaticamente o cenário de crescimento deste ano. Sobre a crise energética, vários especialistas têm falado que é difícil ter aquele quadro de 2001, com uma restrição fortíssima na oferta. Devemos ter energia mais cara com risco de blecautes pontuais. Muitos economistas estão falando de um PIB de 5% neste ano, achando que vai ter até um ‘boom’ a partir do terceiro trimestre, conforme se tenha mais pessoas vacinadas. Nós estamos com 4%. Até vemos uma aceleração no terceiro e no quarto trimestre, mas ainda temos posição mais cautelosa por causa desses riscos.

A taxa básica de juros, a Selic, em um patamar baixo ajudou a economia no primeiro trimestre. O Banco Central, porém, começou a elevá-la. Essa mudança pode segurar a economia no fim do ano?

Mesmo com a mudança na política monetária, ela continuará estimulativa. Vai dar menos suporte para a economia, mas ainda vai dar. O juro neutro hoje é estimado entre 6,5% e 7% por algumas casas. Abaixo desse patamar, ainda é estimulativo. Nós estamos projetando 5,5% de juros para o fim do ano.

O agronegócio, um setor que emprega pouco, foi o que mais cresceu no início do ano. A sra. também comentou que, no primeiro trimestre, houve queda no consumo entre as rendas mais baixas e aumento entre as mais altas. Esses fatos indicam que veremos uma retomada mais concentradora de renda?

Esse é o cenário. A crise foi muito regressiva e afetou muito mais os mais pobres do que os mais ricos. O que observamos é que o mercado de trabalho formal tem mostrado recuperação, e o informal ainda está num ritmo lento. Olhando para frente, essa é a tendência. Trabalhadores formalizados, com maior escolaridade, tenderão a puxar mais do que o informal.

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Bolsa sobe aos 128,2 mil pontos após alta do PIB e bate 3º recorde consecutivo de fechamento

Atividade econômica do País cresceu 1,2% no 1º trimestre deste ano, mesmo com a piora da pandemia; diante do resultado favorável, dólar caiu 1,5% hoje

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 14h18
Atualizado 01 de junho de 2021 | 18h14

Embalada pelo resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, que cresceu 1,2%, a Bolsa brasileira (B3) encerrou em alta de 1,63%, aos 128.267,05 pontos nesta terça-feira, 1º de junho, batendo, pela terceira vez consecutiva, um novo recorde histórico de fechamento. No câmbio, o dólar recuou 1,51%, a R$ 5,1460, menor valor desde 21 de dezembro, também apoiado pelo resultado favorável, que promoveu uma onda de reajustes nas projeções para a economia brasileira.

Renovada pela manhã e também no fim da sessão, a nova máxima histórica intradia passa agora a 128.363,49 pontos. No ano, o Ibovespa acumula ganho de 7,7%. Hoje, o índice saltou facilmente do patamar dos 126,2 mil pontos alcançados ontem, quando também quebrou recorde de fechamento. Esse foi o quinto encerramento em alta consecutivo da Bolsa.

Com isso, o Ibovespa retomou forte recuperação em novembro, interrompida entre janeiro e fevereiro, quando o País começava a ingressar na segunda onda de covid-19, que colocava em risco o desempenho do PIB no primeiro trimestre e dificultava a visualização de como seria a sequência do ano. A leitura acima do esperado para o intervalo janeiro-março corrobora recentes dados sobre arrecadação federal e as contas públicas: uma combinação de situação fiscal e atividade econômica acima do que se chegou a temer para a primeira metade do ano.

Dessa forma, uma série de instituições financeiras, entre as quais Bradesco, Citigroup, Barclays e Goldman Sachs, anunciaram ainda hoje revisões das respectivas projeções de PIB para o ano, aproximando-as ou mesmo colocando-as acima do patamar de 5%.

Um grau maior de atividade pode resultar ainda em lucros maiores para as empresas, com efeito sobre os preços de ações e o nível de pontuação do Ibovespa no fim do ano. Por enquanto, a XP, por exemplo, mantém projeção de 145 mil pontos para o índice da B3 em 2021, em avanço impulsionado pelas expectativas de lucros das empresas que compõem o índice.

"No último trimestre do ano passado, vários estímulos fiscais estavam vigentes, como o auxílio emergencial, o BEm e taxa de juros mais baixa, ou seja, estávamos em um ambiente de estímulos fiscais e monetários maior do que a gente vê no primeiro trimestre deste ano", diz Raquel de Sá, chefe de Economia da Rico Investimentos. "Apesar de não ser um número tão grande, surpreendeu porque a grande preocupação no final do ano passado, e no começo deste ano, era o que aconteceria se houvesse um abismo fiscal, depois do fim de todas essas medidas de estímulos."

Para a economista-chefe do Credit Suisse no Brasil, Solange Srour, o desempenho do PIB no primeiro trimestre mostra que é possível ao Brasil crescer mesmo sem estímulo fiscal, embora ainda seja necessário endereçar questões estruturais, como as reformas, especialmente a administrativa, pelo efeito futuro sobre os gastos obrigatórios.

No primeiro trimestre, "o PIB foi puxado pelo consumo empresarial, o investimento, que avançou 4,6% no início do ano", observa André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, em nota. "Já o consumo das famílias e do governo teve queda no período, refletindo a segunda onda da pandemia e a contenção de gastos do governo que tem criado dados fiscais melhores", acrescenta o economista.

"A melhora da situação fiscal tem levado a projeções mais favoráveis sobre a relação dívida/PIB, mas o mercado ainda aguarda avanço nas reformas, em particular a administrativa, pela qual o presidente Bolsonaro não tem indicado muito apetite. Vamos ver como o mercado se comportará depois desse entusiasmo todo com o PIB, que ajudou hoje as empresas com exposição à economia doméstica, como o varejo", diz Rodrigo Friedrich, sócio e head de renda variável da Renova Invest.

Entre os ganhos do índice, chama atenção a alta de 1,56% e 2,18% de Petrobrás ON e PN, em dia no qual o petróleo alcançou o maior valor desde maio de 2019, cotado a US$ 70 o barril. No lado oposto, com a queda do dólar, ações de exportadoras como Klabin e Suzano cederam 2,39% e 2,19% cada. Vale ON recuou 1,38% mesmo com a retomada do preço do minério de ferro na China, que contribuiu para o avanço do setor de siderurgia, com destaque para CSN ON, em alta de 5,54%.

Câmbio

O dólar operou hoje nos menores níveis desde o começo de janeiro, com a queda embalada pelo crescimento do PIB. Além disso, o superávit comercial recorde para o mês de maio, que somou US$ 9,3 bilhões, também ajudou, assim como o ambiente de busca por risco no mercado internacional, que estimulou fluxo para o Brasil e mais desmonte de posição contra o real no mercado futuro.

No ano, o dólar que acumulava alta até ontem, passou a cair 0,82% - hoje, a divisa para julho recuou 1,31%, a R$ 5,1630. Diante do resultado, o Bank Of America melhorou a previsão para a moeda, de R$ 5,40 para R$ 5,20 em dezembro. Para 2022, a estimativa foi mantida em R$ 5,40, por conta do risco de a eleição presidencial provocar aumento dos ruídos políticos e maior nervosismo no mercado financeiro.

No exterior, o dólar também caiu hoje ante moedas fortes e boa parte dos emergentes, ajudado por uma rodada de divulgação de indicadores fortes das indústrias americana, chinesa e europeia. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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Mercado já prevê alta de até 5,5% do PIB em 2021 após resultado positivo no 1º trimestre

Analistas consultados pelo Estadão/Broadcast estimam expansão entre 3,3% e 5,5% este ano

Guilherme Bianchini e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 18h18

A surpresa positiva no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, com alta de 1,20%, elevou as expectativas do mercado para o desempenho da economia no ano de 2021. A mediana da pesquisa Projeções Broadcast saltou para 5,00%, com apostas que consideram um carrego estatístico na casa de 4,90%. A terceira onda da pandemia e um possível racionamento de energia, porém, são citados por analistas como principais riscos para a atividade.

As 22 estimativas para o PIB de 2021 vão de 3,30% a 5,50%, e foram enviadas após o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar o resultado do primeiro trimestre. O cenário para o segundo trimestre também ficou mais otimista, com mediana de volta ao terreno positivo (0,05%), a partir de intervalo de recuo de 1,60% a crescimento de 1,10%. No último levantamento, a mediana apontava para queda de 0,20%. Para o ano de 2022, as projeções, todas de avanço, vão de 1,70% a 3,00% (mediana 2,00%).

O maior otimismo com o PIB de 2021 ficou evidente com a série de revisões anunciadas logo após o dado do primeiro trimestre, que superou a mediana de 0,70% do levantamento do serviço especializado do Estadão/Broadcast. Goldman Sachs, Bank of America (BofA), Citi Brasil, Credit Suisse, BNP Paribas e Bradesco são alguns exemplos.

Para o segundo trimestre, depois do PIB mais forte entre janeiro e março, o Itaú Unibanco revisou a projeção de alta de 0,60% para 0,20%, considerando uma certa devolução da agropecuária após um salto de 5,70%. "O número no ano contra ano aumentou de 12,50% para 12,90%, mas houve esse ajuste na margem pela base mais alta do primeiro trimestre".

Por outro lado, o economista Luka Barbosa destaca que é esperado um bom desempenho dos serviços na margem entre abril e junho. Segundo o indicador diário de atividade do banco, o setor vem se recuperando rapidamente após o fechamento dos estabelecimentos, com o consumo crescendo entre abril e maio. "Esse é o principal motivo para a nossa visão do segundo trimestre".

"A grosso modo, o PIB está de volta ao nível pré-crise (-0,03% aquém do quarto trimestre de 2019), embora alguns setores ainda estejam bem abaixo deste patamar, como outros serviços, que inclui serviços prestados às famílias e administração pública, que representam quase 30% do PIB e estão sendo muito afetados pela pandemia. Isso que nos dá confiança de que a economia vai continuar se expandindo na margem".

O economista Daniel Xavier, do Banco ABC Brasil, acredita que o nível do PIB ultrapassará o pré-pandemia na passagem do segundo para o terceiro trimestre deste ano. A projeção é de estabilidade para o período de maio a junho, com avanço de cerca de 0,50% em cada um dos trimestres seguintes, e crescimento de 5,20% em 2021. Xavier destaca o efeito reduzido da segunda onda e o processo de aprendizado da economia frente à pandemia.

“O setor agrícola continuou super forte neste primeiro trimestre, e indústria e serviços estão aprendendo a se readequar. Olhando para segundo trimestre, os indicadores antecedentes também são favoráveis, com alta na confiança de quase tudo. E a mobilidade também não sentiu os lockdowns regionais de forma expressiva”, analisa.

Para o ano, Barbosa, do Itaú, vê viés de alta em sua projeção de 5,00%, devido à herança estatística de 4,90% deixada pelo primeiro trimestre. Como principal risco, cita a pandemia, mas considera, no cenário básico, impacto limitado sobre a atividade econômica. A expectativa é de que toda a população acima de 18 anos esteja vacinada com a primeira dose em novembro.

Em 2022, o banco mantém a estimativa de crescimento de 1,80%. A herança deixada por 2021 seria de 1,00%. Segundo o economista, os motores de crescimento este ano, redução da poupança extraordinária das famílias acumulada em 2020, estímulo monetário e forte crescimento do mundo, com aumento de commodities, não estarão presentes na mesma proporção no ano que vem. No ABC Brasil, Xavier manteve projeção de 3,00% para o próximo ano.

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Havendo aumento do PIB, desbloqueio do Orçamento vem naturalmente, diz Guedes

Ministro disse que alta de 1,2% na atividade econômica no primeiro trimestre sinaliza um crescimento bastante forte da economia neste ano

Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 15h59

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou nesta terça-feira, 1.º, que, havendo aumento do Produto Interno Bruto (PIB) acima do inicialmente projetado, o governo promoverá naturalmente o desbloqueio no Orçamento de 2021.

Segundo ele, o bloqueio inicial para a área de educação é de R$ 2,5 bilhões. No entanto, R$ 900 milhões já estariam em processo de desbloqueio. Nesta sexta, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o PIB teve alta de 1,2% no primeiro trimestre de 2021, ante o quarto trimestre de 2020. O resultado ficou acima do esperado pelo mercado financeiro (0,70%).

Para o ministro, o desempenho da atividade econômica de janeiro a março sinaliza um crescimento bastante forte da economia neste ano. “O avanço da vacinação e dos protocolos protegem a economia. É possível que estejamos crescendo a taxas bem maiores. A arrecadação tem vindo forte”, completou.

Durante participação em audiência na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, Guedes afirmou ainda, ao tratar da economia de modo geral, que a pandemia "derrubou o Brasil", que estava "começando a crescer". Ele também citou a política econômica dos governos anteriores. Segundo ele, a "nova matriz econômica", colocada em prática no governo da presidente Dilma Rousseff gerou recessão no País.

O ministro negou que tenha prometido zerar o déficit primário ainda no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, em 2019. "Nunca prometi zerar o déficit. Eu dizia que nós queríamos zerar", pontuou. "Eu tenho meta, não promessa. A meta era zerar o déficit." Com a pandemia, porém, o governo foi forçado a elevar os gastos, o que ampliou o rombo fiscal.

Ao mesmo tempo, Guedes reconheceu a importância do auxílio emergencial pago pelo governo durante a pandemia. De acordo com o ministro, é "evidente" que o benefício "ajudou a economia a voltar, a cair menos (em 2020)".

O ministro também fez uma avaliação da escalada mais recente da inflação no Brasil. Para ele, os preços dos alimentos - um dos fatores de pressão sobre o IPCA, o índice oficial de inflação - começaram a subir no País por uma "dupla coincidência": a busca maior por produtos no exterior e o pagamento de auxílio emergencial no Brasil. Estes dois fatores teriam impulsionado os índices.

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