Sem reformas rápidas, globalização será revertida, alertam BCs

Os maiores bancos centrais do mundo encerraram assembleia anual com tom pessimista e de advertência

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

29 de junho de 2009 | 17h37

Os maiores bancos centrais do mundo concluíram nesta segunda-feira, 29, sua assembleia anual com um tom pessimista e de advertência: se as reformas no sistema financeiro não forem aceleradas, será o próprio processo de globalização que pode de fato ser revertido. A avaliação dos BCs é de que uma retomada do crescimento poderia ocorrer no final do ano. Mas não será sustentável se as falhas no sistema financeiros não forem reparados.

 

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"Não é difícil de imaginar um mundo em que a globalização seja revertida", alertou Jaime Caruana, diretor do Banco de Compensações Internacionais (BIS) em um discurso dado aos BCs de todo o mundo na Basileia. Uma prolongação da crise geraria uma queda nos fluxos de capitais, de comércio, da exposição internacional de empresas e ainda elevaria a tensão entre governos.

 

Todo o esforço hoje da instituição é a de convencer governos de que as reformas que por meses foram prometidas agora precisam ser concluídas. O BIS deixa claro que os tímidos sinais de crescimento são ilusórios e que podem não passar de uma reação temporária aos pacotes de estímulo.

 

"A queda livre acabou e temos sinais de estabilização. Os mercados emergentes provaram ser menos frágeis que se temia e poderemos ter um crescimento positivo no final do ano. Mas o caminho para a recuperação está repleto de riscos e estamos em uma neblina intensa. Estamos viajando por territórios desconhecidos", alertou Caruana.

 

O BIS alerta que vem identificando sinais de um protecionismo financeiro, com decisões de governos e pacotes que acabam dificultando a entrada de atores estrangeiros em alguns países ou criando distorções a favor dos atores locais. "Estamos preocupados com o protecionismo. Precisamos resistir a isso, já que levaria a um crescimento anêmico, riscos de inflação e tensões internacionais", disse Caruana.

 

Segundo ele, a queda nas linhas de crédito e nos fluxos financeiros não está ocorrendo apenas por causa da crise, mas também diante de medidas protecionistas por parte de governos.

 

A solução é mesmo uma reforma completa do sistema. "Isso exigirá perseverança e determinação", disse Caruana, que pede cooperação internacional. "As autoridades precisam garantir que as perdas estejam registradas, que ativos podres sejam dispensados, que o sistema seja recapitalizado e reestruturado, a competitividade equilibrada seja garantida e capacidade em excesso da indústria removida", apelou Caruana.

 

O alerta é de que os avanços não tem sido suficientes. Só com uma reforma completa é que a estabilidade voltaria ao sistema. "Essa é a precondição para a volta do crescimento no mundo", disse Caruana. "Enquanto os governos estiverem hesitantes em adotar essas medidas, as perspectivas de crescimento serão pequenas", afirmou.

 

No caso dos países emergentes, o economista chefe do BIS, Stephen Cechetti, indica que essas economias devem se recuperar de forma mais rápida que os países ricos. Mas disse que não tinha como dar uma data. Pela primeira vez, o relatório anual do BIS sequer traz uma projeção de crescimento.

 

Impotência

 

O BIS lembra que já em 2007 começou a alertar para os riscos no sistema financeiro. Mas ninguém deu ouvidos. Caruana espera que a crise agora seja uma "janela de oportunidade" para que as mesmas pessoas que não escutaram a entidade agora decidam tomar medidas concretas. Caruana admite que não sabe quando é que a crise poderia se dissipar.

 

Ele preferiu não acusar ninguém. "Vamos olhar para frente. Esperamos que as pessoas saibam que tem a responsabilidade em manter o mundo estável", disse. Enquanto ele dizia isso, os presidentes dos BCs se reuniam em outra sala para um almoço com camarões, pato assado e inúmeros outros pratos à disposição. Já as esposas e acompanhantes dos presidentes de BCs eram levados a tours pela região da Basileia, museus e jantares de gala nos últimos dias.

 

Na antessala de um dos jantares de gala, o que menos se notava era um clima de recessão diante de um verdadeiro desfile de joias e novos modelos de roupas.

 

Reforma

 

Mas os xerifes das finanças prometem que farão as reformas. Na Basileia neste fim de semana, uma série de medidas foram tomadas para iniciar os trabalhos de criação de novas regras de capitalização de bancos, supervisão, de controle de hedge funds e até de monitoramento de cada economia. O Brasil ainda propôs durante a reunião do Conselho de Estabilidade Financeira que um maior controle sobre derivativos fosse estabelecido. "Teremos muitas novidades até o final do ano", prometeu Mario Draghi, o presidente do Conselho, um órgão subsidiário ao G-20.

 

Uma das sugestões é para que os bancos centrais ganhem um novo papel e que não se limitem a controlar apenas a inflação. A ideia é de que possam acompanhar eventuais bolhas no mercado e tomar medidas. Para o presidente do BC brasileiro, Henrique Meirelles, o modelo do País é considerado como o "ideal", já a instituição atua em política monetária e supervisão.

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