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Sem ruídos políticos, Bolsa pode deixar de ser o patinho feio no mercado mundial

Muitos analistas acreditam que há um potencial de alta para o Ibovespa daqui em diante, com chance de recuperar as perdas de 2020

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 04h00

Há pelo menos três meses e meio o Ibovespa vem patinando ao redor dos 120 mil pontos, ficando bem atrás do desempenho de outros índices acionários mundiais em 2021, incluindo os de países emergentes, o que suscita a seguinte questão: mesmo não tão distante do seu nível recorde histórico, a Bolsa brasileira já estaria perto do seu teto, diante da atual conjuntura macroeconômica doméstica e do cenário externo?

A resposta depende de qual Bolsa estamos falando. Isso porque desde que o Ibovespa atingiu seu nível máximo antes do início da pandemia de covid, em janeiro de 2020, o desempenho das ações ligadas à exportação de matérias-primas, como minério de ferro, celulose e aço, espelhou, em alguma medida, a impressionante valorização observada pelos índices do mercado acionário de países que vêm registrando forte retomada da economia, como os Estados Unidos.

Mas as ações de setores afetados pelas restrições à mobilidade social, adotadas para conter o rápido avanço de mortes e de casos de covid no Brasil, sofreram perdas em comparação com os preços observados antes do início da pandemia, como as de empresas do setor de varejo.

Na última segunda-feira, o Ibovespa encerrou a sessão de negócios a 119.209 pontos. Na sua máxima antes da crise do coronavírus, o índice atingiu 119.527 pontos em 23 de janeiro de 2020.

Naquele dia, a ação ordinária da Vale fechou cotada a R$ 55,50. Na última segunda-feira, fechou a R$ 107,95, mas chegou a bater R$ 111,95 na semana passada, num ganho ao redor de 100%.

No mesmo período, a ação ordinária da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) mais que triplicou de preço, passando de R$ 15,47 para R$ 47,54, no fechamento da última segunda-feira. Já os papéis da Suzano, maior produtora de celulose do mundo, valiam R$ 44,45 no dia 23 de janeiro de 2020. Seu preço atingiu mais de R$ 79 no início de março deste ano, mas recuou para R$ 67,52 no início desta semana, ainda assim com um ganho de quase 52% em relação ao nível pré-pandemia.

O setor de fabricantes de materiais básicos, como os exportadores de commodities, e o das empresas produtoras de petróleo, gás e biocombustíveis, representam um peso de mais de 34% da composição do Ibovespa. Com a recente disparada nos preços de várias commodities, como o minério de ferro, que acumula alta de quase 18% no ano até abril, as empresas exportadoras dessas matérias-primas registraram resultados financeiros impressionantes no primeiro trimestre deste ano, o que impulsionou a cotação das ações.

Já os papéis das empresas ligadas ao consumo cíclico, com um peso de pouco mais de 10% no Ibovespa, acabaram prejudicados com a segunda onda de casos e de mortes por covid, a lenta vacinação no País e as medidas mais duras de distanciamento social adotadas em várias regiões do País.

O preço da ação ordinária das Lojas Renner, uma das maiores empresas do comércio varejista, era R$ 60,87 no seu pico pré-pandemia. No pregão da segunda-feira encerrou a R$ 41,05, ou menos 32,6%.

A ação ordinária da Multiplan, uma das maiores administradoras de shopping centers do País, caiu 32,8% desde que atingiu a cotação máxima antes da pandemia (R$ 35,52) em comparação com o preço da última segunda-feira (R$ 23,86).

Muitos analistas acreditam que há um potencial de alta para o Ibovespa daqui em diante, recuperando boa parte do terreno em relação aos ganhos registrados pelas Bolsas de países desenvolvidos e emergentes em 2021.

De um lado, apesar de os preços das commodities terem subido significativamente neste ano, os analistas apostam que a tendência ainda é de alta das cotações de várias matérias-primas em razão da perspectiva de crescimento econômico global mais acelerado.

De outro, como observado recentemente, o afrouxamento das restrições à mobilidade social em vários Estados, como em São Paulo, deve dar um novo fôlego aos setores dependentes da atividade econômica doméstica, após a retração observada em março e abril, no auge da segunda onda de covid. Além do varejo, o setor de serviços deve se beneficiar.

Ou seja, se ruídos políticos não atrapalharem, como foi a intervenção do governo federal no comando da Petrobrás, ou ainda pressão por mais gastos públicos, o Ibovespa pode finalmente deixar de ser o patinho feio no mercado mundial. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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