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Lucas Lacaz Ruiz/Estadão
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Sem rumo, no escuro

A não realização do Censo pelo IBGE trará sérias dificuldades para as políticas públicas

Luís Eduardo Assis, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2021 | 05h00

Todos os anos, dezenas de observadores da natureza se reúnem no interior do Ceará para apresentar suas previsões sobre o clima no Estado. São os Profetas da Chuva. Alheios aos cânones da meteorologia, eles apresentam seus prognósticos baseados na crença de que é possível antever o futuro através da observação de plantas, aves e insetos. Trata-se de uma celebração da cultura popular, tão rica quanto inocente, que passa através de gerações. Aquele que quiser enxergar esta manifestação através das lentes do cientificismo estará apenas exercitando sua própria rabugice.

Afora a leveza colorida das crendices, desdenhar da ciência denota crasso barbarismo. No livro Civilization: The West and the Rest, Niall Ferguson sublinha que a primazia do califado de Abbasid, que no século 7.º se estendia da Espanha até o Afeganistão, estava fundamentada no conhecimento científico detido pelos islâmicos.

De forma análoga, a emergência da Europa a partir do século 16 se deu no rastro da Revolução Científica. Foi ela que desentranhou o conhecimento dos dogmas religiosos e, desta forma, deu ensejo ao predomínio do que conhecemos hoje por civilização ocidental. O saber teológico cedeu espaço ao conhecimento que depende do método experimental, confirmado pela razão. Desde então, a humanidade experimentou, em poucos séculos, o mais fantástico período de progresso e melhoria na qualidade de vida de sua longa história. 

Tamanha platitude parece ser estranha ao viés negacionista do presidente Bolsonaro, que não perde a oportunidade de manifestar suas superstições. Já em 2019, antes de recomendar a hidroxicloroquina, ele dizia que a taxa de desemprego calculada pelo IBGE era feita “para enganar o povo”, mesmo sabendo que a metodologia adotada no Brasil é padrão internacional. Na mesma época, também desqualificava os dados do Inpe que teimavam em demonstrar o desmatamento da Amazônia.

O mesmo desprezo à ciência foi manifestado na ausência de uma política clara para o setor educacional, hoje abandonado à própria sorte. O conhecimento não existe sem informação e a informação depende da coleta de dados primários, correto? Parece que o governo não pensa assim. Há dois anos, o IBGE estimou em R$ 3,4 bilhões o montante de recursos necessários para realizar o Censo Populacional que deve ser feito, por força de lei, a cada dez anos. Na negociação final com o Congresso, a dotação acabou sendo dizimada e o IBGE ficou com R$ 71 milhões na versão orçamentária aprovada em 25/3/2021. Isso inviabiliza o Censo. Já caminhamos sem rumo.

Sem o Censo, caminharemos também no escuro. Isto é estarrecedor e só não causa surpresa porque o ministro Paulo Guedes já dizia, no início do governo, que o IBGE pergunta “muita coisa que não é importante”.

O desprezo pela ciência tem sido a marca deste governo. Se antes este descaso era camuflado na desfaçatez, hoje ele é aberto e se configura como uma política deliberada de propagar mitos e desqualificar o conhecimento de especialistas. Trata-se de um verdadeiro culto ao obscurantismo.

Relatório recente do Banco Mundial (Data for Better Lives, World Development Report) aponta que cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo não possuem nenhum documento oficial que ateste sua identidade e 25% das crianças com menos de 5 anos não têm certidão de nascimento. O Brasil já superou este estágio de depauperação estatística que restringe o exercício da cidadania, mas não realizar o Censo em 2021 implicará darmos vários passos para trás. Sem dados atualizados, as políticas públicas serão seriamente prejudicadas. Os Profetas da Chuva são inofensivos. Não é o caso dos profetas da ignorância. 

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E FGV-SP. E-MAIL : LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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