Sem rumo, o governo espalha pessimismo
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Sem rumo, o governo espalha pessimismo

Quando falta liderança e horizonte, como agora, o mais difícil de reverter é o estado de espírito abatido dos investidores, do País e do governo

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 19h56

Se o presidente Jair Bolsonaro quer ganhar as eleições, está fazendo tudo errado. Está afundando a economia e mais ainda a deverá afundar em 2022. Nenhum pacote populista conseguirá compensar o estrago feito pela derrubada do PIB, inflação disparada, juros na lua, dólar sabe-se onde... e desemprego atroz.

 

O exterior, que até agora colaborava para melhorar as coisas, começa a não ajudar. A rápida expansão da variante Delta, a expectativa de que os grandes bancos centrais começarão a reverter a política monetária expansionista, a perspectiva de crescimento mais modesto da China e, não menos importante, a derrota dos Estados Unidos mais a saída caótica do Afeganistão, tudo isso contribui para lançar águas turvas sobre a economia global em 2022 e sobre a do Brasil em particular.

As contas públicas do País estão em deterioração, a dívida volta a disparar. Para encontrar recursos com que pretende aliciar o voto popular, o governo Bolsonaro começa a apelar para malandragens que lembram as pedaladas da presidente Dilma Rousseff. Montou um projeto de reforma açodado e confuso do Imposto de Renda de que espera descolar recursos para o Auxílio Brasil, programa de transferência de renda que vai substituir o Bolsa Família. Para enfrentar o meteoro dos precatórios que desabou sobre o colo do ministro da Economia Paulo Guedes, pretende empurrar artificialmente para cima o teto dos gastos. 

A inflação dispara. Alcançou 8,99% em 12 meses terminados em julho. O mercado já espera 7%, num ano em que a meta de inflação acrescida do escape tolerado é de 5,25%. O Banco Central já avisou que para ancorar as expectativas e empurrar a inflação de volta à meta está determinado a racionar a oferta de moeda, de modo a puxar os juros para além do nível neutro – aquele em que a inflação deixe de ter caminho livre. Se os juros têm de ficar mais altos, o resultado é o encolhimento do PIB, é recessão em 2022. É ainda mais desemprego do que os atuais 14,6% da força de trabalho.

A desordem fiscal, a confusão em que está metida a política econômica e essa inflação já estão a afundar a confiança, a puxar o dólar para cima e a derrubar a Bolsa. E ainda há essa crise hídrica, que pode levar ao apagão e à falta de água, se não em 2021, eventualmente em 2022.

O presidente Bolsonaro está perdendo o apoio que ainda imagina manter com os empresários e aos banqueiros e apela afirmando por aí que é possível superar inflação e desemprego com “fé e crença”. E não pode confiar no Centrão, cujo instinto o leva a abandonar o barco assim que se sentir ameaçado.

Se ainda há um fato positivo, ele emerge da pandemia. Já há 120 milhões de brasileiros vacinados pelo menos com a primeira dose e outros 20 milhões estão recuperados. O nível de imunização está crescendo entre a população adulta. E isso conta.

Quando falta liderança e horizonte, como agora, o mais difícil de reverter é o estado de espírito hoje abatido. Do País e do governo que quer ganhar as eleições, mas faz tudo errado.

>>>CONFIRA

>>Risco Brasil

 

O índice de risco Brasil também começou a acusar a deterioração das contas públicas e ameaças de calote dos precatórios. Está relativamente distante dos 229,3 pontos porcentuais atingidos no fim de março, mas vem subindo, como mostra o gráfico. Não disparou, aparentemente porque continuam a circular muitos recursos nos mercados e os juros lá fora continuam no chão – o que mantém firme a demanda por títulos brasileiros. O problema é que confiança não tem nem data nem hora para derreter.

CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA*

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