Sem surpresas, Copom mantém juros em 19%

A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) terminou ontem mais uma vez sem surpresas: os juros foram mantidos em 19% ao ano, pela quarta vez seguida, confirmando a expectativa da maior parte dos analistas. Na nota divulgada após o encontro, a instituição, que não indicou um viés para a taxa, informou que decidiu não mexer na Selic "após avaliar a evolução recente da economia e as perspectivas para a trajetória da inflação".Para o economista-chefe do HSBC Investment Bank, Alexandre Bassoli, a nota deixa claro que o principal obstáculo para a queda dos juros é a inflação. Ele lembra que os índices de preços divulgados recentemente continuam num nível elevado. Os números anunciados ontem pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) confirmam isso. Na segunda quadrissemana de novembro, o Índice de Preço ao Consumidor (IPC) da Fipe ficou em 0,9%, enquanto a segunda prévia do IGPM da FGV atingiu 0,97%.Além disso, o consenso do mercado - medido pelo Banco Central (BC) - aponta um IPCA de 5,11% em 2002, bem acima do centro da meta, definido em 3,5%, com intervalo de tolerância de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos. "A decisão do Copom reforçou a credibilidade do BC, mostrando que a análise racional se sobrepôs a eventuais pressões políticas", afirmou ele.O diretor-executivo da Gap Asset Management, Emanuel Pereira da Silva, considerou a decisão correta, uma vez que o principal objetivo do BC, num sistema de metas inflacionárias, é controlar a inflação. Segundo ele, desde a reunião do Copom de outubro, esse foi o único indicador importante que piorou. Silva lembra que, nos últimos 30 dias, a taxa de câmbio, o risco país, o preço do petróleo e os juros externos recuaram.A nota do Copom não fez nenhuma menção ao cenário externo, mas Bassoli acredita que as incertezas em relação à Argentina também contribuíram para a manutenção da Selic. Embora o risco Brasil esteja se descolando do país vizinho, alguns analistas entendem que, se houver uma moratória desorganizada na Argentina ou uma desvalorização, o dólar pode voltar a subir por aqui. E é justamente o repasse da alta do câmbio para os preços o principal fator de pressão sobre a inflação no momento.Por isso, a estabilidade do câmbio por um período mais longo é condição fundamental para que os juros voltem a cair, como afirma o estrategista-chefe da BankBoston Asset Management, Márcio Verri. Para ele, se o dólar continuar comportado e os índices de preços recuarem, é provável que o Copom derrube a Selic em dezembro. "Se a inflação cair, é possível que os juros recuem no mês que vem", concorda Silva. Bassoli, por sua vez, é mais prudente, e acredita que as taxas tendem a cair apenas no ano que vem, quando a queda da inflação deve estar mais cristalizada.O diretor de Asset Management e Pesquisa Econômica do Banco Inter American Express, Marcelo Allain, entende que a decisão do Copom deve ter pouco impacto sobre o mercado, uma vez que era amplamente esperada pelos analistas. Para ele, é possível que as taxas dos contratos futuros de juros mais curtos subam um pouco - as projeções do contrato de janeiro, por exemplo, fecharam ontem em 18,86%, ligeiramente abaixo da Selic. Os de prazo mais longo, por sua vez, não devem ser afetados, afirma ele. "O dólar e a bolsa também não devem reagir à manutenção dos juros."DivergênciasMas a decisão do Copom não agradou a todos os analistas. O coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fipe, Heron do Carmo, afirma que a inflação não é um obstáculo para a redução dos juros básicos. "A taxa de juros está muito alta e eu espero que ela volte para 15% ao ano em poucos meses", diz o economista.Heron ressalta que o importante para mexer nos juros é a inflação futura. Nas suas contas, o IPC-Fipe para 2002 que vem ficará em 5%. Entre os fatores favoráveis para conter a alta dos preços para o ano que vem, ele destaca a queda do petróleo no mercado internacional.Outro fator que deve ser levado em conta na hora de optar pelo corte ou não na taxa de juros é que neste ano, mesmo com a alta do dólar, a infllação não explodiu. O problema da inflação, frisa o economista, é o desajuste dos preços administrados, e isso deve ser encarado como um fator "exógeno" quando se mexe na política monetária.O economista acha que o governo deveria dar mais peso ao ritmo de funcionamento da economia real na hora de decidir se vai aumentar ou cortar os juros. "O governo deveria dar mais atenção às taxas de crescimento e menos ao C-Bond - o título da dívida externa brasileira mais negociado - e ao cupom cambial."

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