Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

carteira

As ações mais recomendadas para dezembro, segundo 10 corretoras

Empregos: sem vagas no horizonte

Para especialistas, desemprego que hoje está em 7,6% pode alcançar dois dígitos em 2016

Amilton Pinheiro, Especial para O Estado de São Paulo

06 de novembro de 2015 | 12h03

A última taxa de desemprego, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, atingiu 7,6% em agosto, a maior desde setembro de 2009, quando ficou em 7,7%. A taxa medida mensalmente vem crescendo mês a mês desde janeiro de 2015. A pesquisa é feita com dados do mercado de trabalho de seis capitais brasileiras: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.  

Se olharmos para outra medição do mesmo IBGE, que é mais ampla, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, o índice de trabalhadores sem carteira assinada ficou, no terceiro trimestre, em 8,7%, a maior desde o início da série histórica, em 2012.

“A deterioração está muito rápida. No primeiro trimestre deste ano, a taxa foi de 7,9%. Em comparação com 2014, a deterioração foi maior ainda. No segundo trimestre daquele ano, a taxa foi de 6,8%. Uma diferença de 1,5 ponto percentual indica a entrada de mais de 1,5 milhão de pessoas no desemprego em apenas um ano. De acordo com o IBGE, a população desocupada, de 8,4 milhões de pessoas, subiu 5,3% frente ao primeiro trimestre e, ante o 2º trimestre de 2014, o avanço foi de 23,5%. Uma enormidade”, analisa Pastore. 

Na opinião de um dos maiores especialistas sobre emprego, o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), José Pastore, os números do mercado de trabalho vêm piorando rapidamente. 

“A deterioração está muito rápida", diz o especialista. "No primeiro trimestre deste ano, a taxa foi de 7,9%. Em comparação com 2014, a deterioração foi maior ainda. No segundo trimestre daquele ano, a taxa foi de 6,8%. Uma diferença de 1,5 ponto porcentual indica a entrada de mais de 1,5 milhão de pessoas no desemprego em apenas um ano." (Leia a entrevista com José Pastore no final da reportagem.)

Para Jorge Arbache, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), a tendência para 2016 não é nada animadora. "Depois de vários anos em queda, o desemprego deverá se elevar e, muito provavelmente, chegará aos dois dígitos no ano que vem”, diz o professor.

Arbache justifica o fechamento de postos de trabalho devido ao esgotamento do modelo econômico nacional. "O desemprego entrou numa nova fase. Após anos em que o País se beneficiou de crédito farto para o consumo, preço favorável das commodities, programas sociais, forte expansão dos serviços e demografia, o modelo chegou ao fim por exaustão." 

Um dos economistas mais críticos desse modelo, José Márcio Camargo, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), entende que o governo não aproveitou a situação favorável internacional e dos preços das commodities dos últimos anos. 

“O governo adotou uma política de aumento de gastos governamentais, com queda no superávit primário, na verdade déficit, e isso trouxe uma aceleração da inflação ao longo de 2013, muito por conta também do aumento dos preços administrados, como gasolina e energia", analisa Camargo, que pontua também as alterações no cenário externo como fator de influência para a degringolada. "Aliada a essa situação o cenário internacional passou a ser desfavorável e os ganhos que tínhamos por conta dos preços dos commodities minguaram. Entramos em recessão profunda e consequentemente houve o aumento do desemprego, que tende a piorar no próximo ano.” 

Serviços. O desemprego ficou ainda maior, segundo os especialistas, pela forte retração no setor de serviços, o que mais emprega mão de obra no Brasil. “Esse setor responde por nada menos que 74% dos empregos totais no País”, explica Arbache. 

Outro aspecto que deteriorou ainda mais o mercado de trabalho, trazendo mais desemprego, para Márcio Camargo, foram os escândalos envolvendo a Petrobrás e a evolução da operação “Lava Jato”, que atingiram setores importantes da economia como a construção civil e a credibilidade da maior empresa do País.

“Esses escândalos afetaram as expectativas dos agentes, diminuindo os investimentos, principalmente das grandes empresas, que estão sendo investigadas no momento. A recessão que seria certa, dado os erros de condução da política econômica do governo, nos últimos anos, foi mais intensa e com isso, o aumento do desemprego foi maior”, diz Carmar 

Luz no final do túnel? Indagados sobre o que fazer para voltar às taxas de desemprego antes da crise que giravam por volta de 4,5%, os especialistas dizem que não há o que fazer no curto prazo.

 

Para José Márcio Camargo, é sempre possível voltar a essas taxas, mas não no curto prazo. "Lá na frente é possível voltar aos 4,5% (de desemprego). Para isso, é necessário mudar a CLT (Consolidação das Leis de Trabalho) e fazer as reformas nela que são fundamentais."

Jorge Arbache, no entanto, é mais taxativo. "Nada nos levará de voltar a essa taxa (de desemprego de 4,5%) no horizonte previsível. 

ENTREVISTA: José Pastore 

“O medo do próprio desemprego gera desemprego”

José Pastore é considerado o maior especialista do mercado de trabalho e das relações trabalho no Pais. Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), há quase 40 anos, ele, que tem graduação e mestrado em Ciências Sociais e doutora em Sociologia, pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, é um incansável defensor contra a baixa qualificação do trabalhador no Brasil, fruto da precária educação que temos.

“A qualidade do ensino brasileiro ainda é muito precária quando comparada à dos países mais avançados”, diz em quase todas as entrevistas que dar. Além de professor e articulista, Pastore é presidente do Conselho de Emprego e Relações de Trabalho da Fecomercio/SP e membro da Academia Paulista de Letras. Nessa breve entrevista que deu para o Estado, ele entende que a aposta do governo baseado no consumo da classe “C”, nos últimos anos, poderia ter dado certo, caso tivesse estimulado a oferta de bens e serviços.

 “Mas, isso não aconteceu. A qualidade dos empregados gerados foi muito baixa porque a grande expansão foi no comércio e serviços que utilizam pessoas de baixa qualificação e baixa produtividade e que ganham pouco. Além disso, o governo manteve as tarifas públicas de forma artificial. Quando ajustou, a inflação explodiu e o poder de compra diminuiu - reduzindo o consumo”. 

Os últimos dados Pnad Contínua mostram que a taxa de desocupação no País ficou em 8,3%, no segundo semestre de 2015, comparado com o mesmo período de 2014. O que esses dados dizem em relação a deterioração das taxas de emprego?

A deterioração está muito rápida. No primeiro trimestre deste ano, a taxa foi de 7,9%. Em comparação com 2014, a deterioração foi maior ainda. No segundo trimestre daquele ano, a taxa foi de 6,8%. Uma diferença de 1,5 ponto percentual indica a entrada de mais de 1,5 milhão de pessoas no desemprego em apenas um ano. De acordo com o IBGE, a população desocupada, de 8,4 milhões de pessoas, subiu 5,3% frente ao primeiro trimestre e, ante o 2º trimestre de 2014, o avanço foi de 23,5%. Uma enormidade.

Quais foram as principais causas para o aumento do desemprego no País?

Queda de demanda e de investimentos. Além disso, queda de confiança na economia do País. O medo do próprio desemprego gera desemprego porque as pessoas reduzem o consumo e faz retrair ainda mais a demanda. 

A aposta do governo de estimular a demanda da classe "C" nos últimos anos foi acertada? O que isso afetou a qualidade do emprego no País?

Teria sido acertada se o país tivesse estimulado a oferta de bens e serviços. Mas, isso não aconteceu. A qualidade dos empregados gerados foi muito baixa porque a grande expansão foi no comércio e serviços que utilizam pessoas de baixa qualificação e baixa produtividade e que ganham pouco. Além disso, o governo manteve as tarifas públicas de forma artificial. Quando ajustou, a inflação explodiu e o poder de compra diminuiu - reduzindo o consumo.

Os escândalos de corrupção na Petrobras e da “Lava Jato” contribuíram para o desemprego?

Contribuíram na medida em que fizeram deteriorar a confiança no futuro da economia do País e na capacidade do governo de administrar a Nação.

O que o governo tem que fazer para voltar as taxas de emprego antes da crise?

Reequilibrar as finanças públicas. Simplificar a burocracia. Flexibilizar a contratação de pessoal deixando grande parte dos acertos para a livre negociação entre sindicatos de empregados e de empregadores.

Qual a taxa de desemprego que não afeta o mercado de trabalho?

Toda e qualquer taxa acima de 6% afeta muito. E se essa taxa estiver ligada a um alto nível de informalidade, como há no Brasil, afeta mais ainda. Se estiver dentro de um quadro de muita rigidez nas leis trabalhistas, afeta muitíssimo.

Tudo o que sabemos sobre:
Para entenderdesemprego

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.