Tiago Queiroz/Estadão - 6/7/2020
Retomada do setor de serviços, dependente da livre circulação e da sensação de segurança da população, preocupa economistas.  Tiago Queiroz/Estadão - 6/7/2020

Sem vencer 1ª onda da covid-19, sustentação da retomada do Brasil é cercada de dúvidas

Dados econômicos mais recentes mostram recuperação no País, mas explosão de casos no exterior sinaliza que a flexibilização econômica demanda cuidado e pode continuar a limitar a volta do setor de serviços

Thaís Barcellos e Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2020 | 12h00

O debate da segunda onda de contaminação por covid-19 pelo mundo, principalmente na Europa, que poderia tirar a força da recuperação da economia, também acende a luz amarela no Brasil, que não conseguiu se recuperar do primeiro impacto da doença. Ainda que os dados econômicos mais recentes mostrem recuperação mais rápida, a nova explosão de casos no exterior sinaliza que a flexibilização econômica demanda cuidado e pode continuar a limitar a volta do setor de serviços, dependente da livre circulação e também da sensação de segurança da população.

Assim, a sustentação da retomada segue uma dúvida, não só pelo fim próximo do auxílio emergencial (que termina em dezembro) e da reação lenta do emprego, mas também pela dinâmica da própria pandemia.

Para o economista-chefe da Galápagos Capital, Gino Olivares, o Brasil não foi eficiente na gestão do problema sanitário, e isso vai reverberar na atividade. “A recuperação econômica vai demorar mais no Brasil porque a incerteza sanitária ainda vai estar conosco”, disse.

Com desempenho melhor que o previsto no auge da crise gerada pelo novo coronavírus, o Brasil deve ver seu Produto Interno Bruto (PIB) encolher ao redor dos 5% neste ano e saltar 3,5% ano que vem, aponta o Boletim Focus, do Banco Central. Olivares, porém, está mais cético em relação a 2021 e acredita que o crescimento pode não chegar nem aos 3%, como reflexo da situação pandêmica.

“Enquanto não tivermos a vacina, que não chegará tão cedo, as pessoas não vão se sentir 100% confortáveis. Vamos ficar no movimento ‘stop & go’. Os números sobem e depois voltam, como ocorreu no Brasil após o feriado de 7 de setembro e na Espanha devido ao verão europeu”, disse. “Isso afeta a atividade.”

O ex-presidente do Banco Central e atual presidente do conselho do Credit Suisse no Brasil, Ilan Goldfajn, reconhece que o setor de serviços brasileiro retorna à normalidade de forma muito lenta,  em linha com o ritmo de superação da primeira onda de contaminação por covid-19 no País.

“Se não quiser chamar a retomada de ‘V’, tudo bem, mas a queda foi intensa e a volta também está sendo mais intensa. A questão é se vamos ter sequelas mais duradouras,  e o setor de serviços está preocupando. O shopping, o cinema e a aviação dependem do presencial. Obviamente, se tiver vacina no início do ano que vem, aí teríamos a volta principal”, disse, em evento na terça-feira, 22.

Ilan destacou que, além da evolução da pandemia e do desenvolvimento da vacina, a sustentabilidade do crescimento no Brasil depende da capacidade de manutenção da âncora fiscal, o teto de gastos.

Se muita expectativa é colocada sobre as vacinas, o analista de risco político da Control Risks para Brasil, Argentina e Uruguai, Gabriel Brasil, diz que a abordagem descentralizada adotada para combater a pandemia por aqui pode ser um risco para a distribuição delas. Ele cita, por exemplo, iniciativas de São Paulo e Paraná de contratos paralelos em relação ao governo federal.

“A gente vê já para discussão da vacina a repetição dessa abordagem descentralizada que não deu certo no início da pandemia”, alertou, destacando que o enfrentamento à doença no País é um “fracasso em múltiplas dimensões”. “No Brasil, é difícil falar em segunda onda, se a gente nunca conseguiu se recuperar da primeira.”

 

Efeito global

Para o economista Alexandre Lohmann, da GO Associados, o Brasil não passará ileso se a retomada global se revelar em “W” - ou seja, com uma nova queda depois da volta do crescimento -, um risco que não é desprezível diante da escalada de casos de covid-19 na Europa e da consequente adoção de novas medidas restritivas. Contudo, o crescimento das exportações brasileiras, na esteira da demanda chinesa por carnes e também dos estímulos ao setor industrial, pode limitar os efeitos negativos.

A recuperação global é um ingrediente adicional para o cenário positivo traçado para os  emergentes, que tem como elemento central a vitória de Joe Biden na eleição presidencial aos Estados Unidos, na visão do economista-chefe da Trafalgar Investimentos, Guilherme Loureiro.

A hipótese é de que o democrata deve ter uma relação menos conflituosa na disputa comercial com a China, implicando em um dólar mais fraco. Nesse sentido, se os novos bloqueios econômicos na Europa continuarem localizados, sem um lockdown horizontal, a perspectiva para o Brasil segue positiva. O economista prevê queda de 4,5% do PIB este ano.

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Aumento de casos de covid-19 na Europa põe em dúvida ritmo de retomada da economia global

Preocupação dos economistas já se reflete no humor do mercado financeiro, com quedas nas Bolsas de todo o mundo nos últimos dias

Aline Bronzati e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2020 | 12h00

A nova escalada de casos de covid-19 em vários países e, por consequência, a adoção de medidas de restrição para conter uma segunda onda da pandemia colocam em dúvida a velocidade de recuperação da economia global. Por enquanto, economistas descartam a reversão do movimento de retomada. Mas, com o risco crescente de novos bloqueios regionais, já esperam desaceleração substancial no ritmo atual, postergando ainda mais o retorno da atividade ao nível pré-pandemia. Essa preocupação já tem se refletido no humor do mercado financeiro, com as Bolsas globais registrando quedas nos últimos dias.

No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson anunciou novas medidas restritivas, limitando o horário de funcionamento de bares e restaurantes até as 22 horas, por exemplo. Ele ainda alertou os britânicos de que o país não deve esperar um retorno à normalidade social por pelo menos seis meses. Na Espanha, 850 mil moradores de Madri e da região metropolitana não poderão deixar seus bairros por duas semanas, a não ser para tarefas essenciais.

Nas contas da inglesa Oxford Economics, as medidas já anunciadas ainda têm impacto pequeno, de apenas 0,2 ponto porcentual na leitura mensal do PIB do Reino Unido. No entanto, como a consultoria trabalhava com o cenário de que as restrições seriam flexibilizadas, o movimento ao contrário a obriga a rever seus cálculos. Até então, conforme o economista da Oxford, Martin Beck, a expectativa era de que o PIB inglês apontasse alta de 1,4% em outubro, 4,5% no último trimestre e uma queda de 9,5% no ano. 

"Mas se as medidas anunciadas se mostrarem insuficientes e forem um presságio de um bloqueio de duas semanas, a projeção para o PIB do quarto trimestre pode ser cortada em 2,5 pontos", diz, em relatório. Em outubro, o impacto negativo poderia ser de 8 pontos porcentuais, avalia.

As novas restrições que começam a aparecer se seguem ao aumento das contaminações por covid-19 na região. No último fim de semana, a França bateu o recorde de novas infecções em 24 horas, enquanto o Reino Unido atingiu o maior índice desde 8 de maio. Por enquanto, os bloqueios que vêm sendo anunciados são limitados, mas os números aumentam o temor de um segundo lockdown nacional, o que seria um desastre para a recuperação das economias da região, alertam economistas.

“Os problemas de contenção de vírus nos Estados Unidos e em países emergentes são somados ao número crescente de casos na Europa”, alerta o JP Morgan, em relatório. O banco americano vê o movimento de recuperação global ainda forte, mas incompleto em meio ao risco de novos bloqueios e à falta de munição dos governos para responder ao movimento de retomada.

A Oxford Economics lembra que a recuperação econômica segue ininterrupta, mas tem diminuído o ritmo. Nos dados, um sinal desse freio na recuperação já pode ser observado nos PMIs (Índice de Gerentes de Compra, na sigla em inglês), que costumam antecipar movimentos na atividade econômica. Em países como a Espanha, onde o crescimento de casos recente tem surpreendido, principalmente nos arredores de Madri, é claro o repique.

O PMI Industrial espanhol caiu a 49,9 pontos em agosto - números abaixo de 50 indicam contração da atividade econômica. No setor de serviços, a situação é pior, com queda de 51,9 para 47,7 pontos entre julho e agosto. Na zona do euro, também houve redução no último mês no PMI Composto, que engloba os dois setores, de 54,9 para 51,9.

O economista Alexandre Lohmann, da GO Associados, lembra que a “parte fácil” da retomada já passou. “A retomada já estava em risco de se tornar uma ‘retomada’ em ‘W’, com um forte recuperação seguida de uma nova queda antes de ter a recuperação final. Nesse contexto, medidas restritivas, mesmo limitadas, não ajudam. Os primeiros sinais dessa retomada em W começam a aparecer no PMI de países que têm uma forte segunda onda, como a Espanha.”

Cautela no consumo

O crescimento de contaminações do novo coronavírus em alguns países e o fato de as famílias e as empresas ainda estarem cautelosas deve enfraquecer a “rápida retomada” da atividade econômica vista depois do fundo do poço alcançado no segundo trimestre, na visão da Capital Economics. China e Coreia do Sul estão entre as que se recuperaram mais e devem continuar na liderança, de acordo com a consultoria, enquanto a Índia e as economias do sul da Europa e da América Latina ficam para trás.

“Os principais indicadores econômicos continuam a refletir a recuperação nas principais geografias, como Estados Unidos, China e União Europeia, embora a incerteza em torno da covid-19 se sobressaia”, reforça o Citi, em relatório. “Recentes aumento de casos na Europa, por exemplo, podem representar riscos para o crescimento e recuperação.”

A discussão continua sendo sobre o formato da recuperação após o choque provocado pela pandemia do novo coronavírus, com a famosa sopa de letrinhas. A dúvida é se recuperação será em ‘V’, ‘U’ e, agora, as novas contaminações acendem um alerta para um possível ‘W’, com novos tombos à frente.

Para o ex-presidente do Banco Central e atual presidente do conselho do Credit Suisse no Brasil, Ilan Goldfajn, o ‘V’ já existe. “A pergunta agora é até onde vai ser o crescimento”, disse, em evento online na terça-feira, 22. Ilan observou que há uma dúvida sobre o surgimento de segunda onda de contaminação na Europa e em outros países, mas que não tem sido acompanhada de um crescimento de óbitos.

Por causa disso, e também da ocupação moderada dos hospitais, o economista-chefe da Trafalgar Investimentos, Guilherme Loureiro, diz que, no momento, o risco de um lockdown horizontal parece baixo. São prováveis, contudo, novas medidas localizadas, que podem afetar principalmente os serviços de alimentação e turismo.

“A recuperação já aconteceu. As vendas no varejo estão bem fortes nos Estados Unidos e Europa, que também vê recuperação rápida da produção industrial. A questão é como fica daqui para frente.” Por ora, a Trafalgar não alterou as projeções de PIB globais, com expectativa de queda de 6,5% para a zona do euro, entre 4% e 4,5% para os Estados Unidos e de crescimento de 2,5% para a China.

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